Um dia de Outono em Abril

Hoje decidi esquecer por momentos tudo o que me rodeia. Os cheiros novos, os sabores, as paisagens e as gentes que me rodeiam.

Algumas pessoas perguntaram já por mais do que uma vez como venço a solidão e o cansaço, e é assim que nasce este novo artigo.

Estou numa quinta na Malásia a trabalhar durante 2 semanas através do wwoofing. No entanto cada vez mais penso que aqui o trabalho é trabalho de escravo e não de agricultura biológica. Tudo isto tem-me feito pensar sobre o que deixei para trás, e não querendo dar o braço a torcer aos que escreveram comentários negativos na reportagem do Público sobre mim, muitas foram já as vezes que percebo que um emprego estável e uma família, etc, são importantes na vida.

Claro que se nunca tivesse feito esta viagem, nunca teria percebido isso, e é então que regresso a Abril deste ano. Trabalhava como neurocientista no Centro de Neurociencias da Universidade de Coimbra. Acordar era cada vez mais difícil e após ter conhecido Nele, decidi ir ter com ela à Bélgica durante alguns dias, aproveitando uma viagem de trabalho.

As coisas dificilmente correram como esperado, e cedo nos separámos. No entanto estaria ainda para vir Sarah, com quem viria a viajar durante alguns tempos. Admito que ela foi uma das grandes razões pela qual decidi vir para a Ásia, e em pouco me arrependo disso. Tenho aprendido muito sobre mim, mas sei as saudades que sinto de muitas coisas que deixei para trás.

É então que chega a solidão que trago agora no corpo. Penso muito no que tive antes de Abril, e sim, na maioria namoradas que chegaram e partiram num dia azul.

Ontem perto das 2 da manhã, sobre a minha rede mosquiteira, pensei em Marta. Senti falta dos seus olhos azuis, do cabelo quase branco que lhe escorria pela face. Senti falta de coisas que deixei para trás, mas ontem, apenas desliguei o computador após ter escrito algo para ela, sorri e fui dormir.

Concordo por vezes que viajar durante muito tempo possa parecer uma infantilidade. No entanto sei também que temos que ser um pouco crianças, e temos que perder um pouco o bom senso, para nos encontrarmos algures. Quem sabe se a resposta não está mesmo ao nosso lado, no local de onde partimos. Mas citando o que para mim foi um grande filme, “Sometimes we need to go all around the world to become full circle”. A tradução faz pouco sentido e daí ter incluído apenas a versão original. Mas resumindo, por vezes temos apenas que viajar, conhecer novos mundos, novas pessoas. Por vezes temos que ir longe, tão longe quanto consigamos ir, para nos encontrarmos no mesmo local de onde partimos.

Com esta viagem aprendi muitas coisas como já disse. Uma das coisas que sei e apesar de amar o meu país, sei que não irei fazer, é regressar a Portugal. Tenho novos projectos em mente, tenho novas coisas em mim, e toda esta viagem mudou-me para sempre. Mudou como penso, mudou quem sou. Não sou mais quem estava em Portugal, e cada vez mais sinto ser difícil ver como amigos, e conhecidos vêem um estranho em mim.

Para terminar apenas queria pedir desculpa por ter decidido escrever algo diferente, mas muita gente tem perguntado o mesmo, principalmente como lido com todas as emoções de viajar, e o que tenho feito para combater isto.

2 comentários a Um dia de Outono em Abril

  1. Filipe,
    A vida dá-nos vários caminhos para percorrer, nos quais vamos ser felizes, de maneiras diferentes. A indecisão é natural, e faz-nos aprender. Viajar é aprender e aprendemos tanto sobre nós ao mesmo tempo.
    E quem nos ama vai amar sempre.
    Safe journey 😉

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