O comboio por fora

O comboio partiu à hora e deixámos a estação de Bandung que é um enorme recinto coberto sem qualquer característica interessante. Aliás, as grandes e médias estações seguem o mesmo modelo; de vez em quando um lugar menor que não merecia paragem mostrava uma construção menos padronizada e mais interessante.

Ao longo do caminho entre Bandung e Jogiakarta, a ilha de Java aparecia como um filme em velocidade rápida. De porta aberta a apanhar o vento que amaciava o calor, íamos captando pedaços da realidade que mais nos tocavam pela estranheza, pela beleza ou pelo gosto do simples registo para rever a viagem mais tarde.

As paragens em estações como Cimekar, Banjar, Wates, Kawunganten e tantas outras traziam para dentro do comboio os vendedores e novos passageiros, e davam-nos a oportunidade de ver a vida que se agita quando chega ou parte um comboio como em qualquer parte do mundo. Esta procura da familiaridade levava-nos a associar o azul de algumas casas ao azul do Alentejo. Alguém explicou que o azul afasta os mosquitos, mas não sabemos.

Quando o comboio ganhava velocidade, voltávamos para a porta escancarada para a realidade: arrozais e montanhas, casas, pequenas mesquitas, cemitérios, passagens de nível, apeadeiros, outros comboios …

Ao fim de oito horas, a ilha de Java tinha deixado de ser uma ficção. Ou não?

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