Quando os deuses se zangaram

Antes de mais gos­ta­ria de dei­xar aqui o mapa com alguns dados sobre a minha via­gem. Inclui todos os locais que visi­tei, e inclui alguns dados tais como dis­tân­cias, nomes das cida­des, etc.

http://www.travellerspoint.com/member_map.cfm?user=FilipeTeix&tripid=330533

Che­gara a Vien­ti­ane com alguns ami­gos que arran­jara durante a épica via­gem de auto­carro desde Luang Pra­bang até à capi­tal do Laos, e o can­saço após 22h de via­gem era mais do que apa­rente. Era como que a chuva que se entra­nhava nos ossos, por melhor que fos­sem os imper­meá­veis que usávamos.

Tuk-tuk até ao cen­tro da cidade e len­ta­mente lá ten­tava eu pro­cu­rar o hotel onde supos­ta­mente Sarah me espe­rava. Sentia-me con­fuso com tudo o que se pas­sava à minha volta. Vien­ti­ane é uma cidade vibrante, cheia de coi­sas e pes­soas. Nada que se com­pare às res­tan­tes cida­des que visi­tara no Laos. Per­gunto na recep­ção por uma rapa­riga cha­mada Sarah, ao que me res­pon­dem que ela já se tinha regis­tado algu­mas horas antes.

Começo por colo­car as minhas coi­sas no quarto onde cabem 8 pes­soas, e tento mudar de roupa. Sinto que mer­gu­lhei para uma pis­cina, sendo que ape­nas mudara para uma agra­dá­vel sauna. O quarto era humilde, com beli­ches de metal pin­tado de azul. Algu­mas man­tas, e cober­to­res encontravam-se dobra­dos sobre as camas vazias de gente. As res­tan­tes, faziam-se dessa mesma gente que as ocu­pava. Pes­soas e coi­sas que só algu­mas pes­soas car­re­gam, pin­ta­vam uma his­tó­ria. Todos somos o que car­re­ga­mos recor­dava eu.

Alguém batia à porta e era Sarah.

Senti de ime­di­ato o cora­ção a bater mais depressa, e algum alí­vio por ter uma razão para aban­do­nar o “colega” de quarto que me bom­bar­de­ava com his­tó­rias. Um ira­ni­ano de perto de 30 anos, que apa­ren­te­mente tinha fugido do seu país após ter escrito alguns tex­tos sobre o regime, fugia agora para o Laos, bem longe do seu país natal. Não eram no entanto as suas his­tó­rias que me incomodavam, mas sim as pala­vras que usava para se clas­si­fi­car como vindo do país dos ter­ro­ris­tas. Achei des­ne­ces­sá­rio e ainda mais con­fuso para a minha mente débil.

Tra­zia um sor­riso nos lábios e um beijo ines­pe­rado para um dia cada vez mais pesado para mim. Era altura de pas­sear um pouco e ten­tar sor­rir com Sarah. Sentámos-nos numas esca­das perto do rio, enquanto lá do outro lado daquele rio cheio de lama cha­mado Mekong, uma tem­pes­tade vibrava sobre a Tai­lân­dia. Pas­sá­mos horas a relem­brar o momento em que nos conhe­ce­mos, o que ficou para trás, o que pode­ría­mos vir a ter um dia e o que iría­mos estar a per­der. Len­ta­mente os nos­sos cor­pos aproximaram-se um do outro e daí nas­ceu mais um beijo.

Tinha um sor­riso grande nos lábios. Sor­riso esse que levei comigo para o res­tau­rante, onde nem mesmo um dos pra­tos tra­di­ci­o­nais do Laos e quase toda a Ásia o faria desa­pa­re­cer. Admito que após esta refei­ção, aca­bei por ver ovos cozi­dos de uma forma com­ple­ta­mente dife­rente. Nin­guém espera vir a ter pesa­de­los com algo tão sim­ples e banal como ovos cozi­dos. O ovo pare­cia nor­mal desde o iní­cio, até que quando após des­fe­rir um pequeno golpe com a minha colher, ele come­çou a san­grar. Se esti­vesse num filme de ter­ror, ou algo de natu­reza seme­lhante, admito que este cená­rio seria bem pos­sí­vel, mas na rea­li­dade, a minha tole­rân­cia de vege­ta­ri­ano por pouco que me levou ao vómito. No entanto após ter tra­ba­lhado um ano com ani­mais lá res­pi­rei fundo e colo­quei de lado tama­nha “iguaria”.

Após um curto pas­seio pela cidade, deci­di­mos regres­sar aos nos­sos quar­tos e dis­cu­tir para onde iría­mos seguir via­gem. Ambos tínha­mos pen­sado em visi­tar uma das mai­o­res gru­tas exis­ten­tes no sudo­este asiá­tico, e assim o fize­mos. Sabía­mos que perto das gru­tas de Kong Lor, pode­ría­mos ficar em casa de locais, tro­cando os quar­tos de hos­tel onde tínha­mos vivido nos últi­mos tem­pos por algo com­ple­ta­mente diferente.

9h nunca pare­ce­ram tão cur­tas. Admito que recordo com alguma emo­ção aquele momento em que os mús­cu­los rígi­dos nas per­nas, o não ter tempo para usar uma casa de banho, ou as senho­ras que se pas­se­a­vam pelo auto­carro agi­tando bizar­ros chupa chu­pas de carne, faziam cada vez mais parte da rotina do dia a dia. Há muito tempo que não me ria tanto com Sarah. Fora sem dúvida uma via­gem diver­tida, onde can­tá­mos, con­tá­mos pia­das, e ape­sar de sen­tir que esta­ría­mos perto dum fim há muito anun­ci­ado, restava-me alguma esperança.

Che­gá­mos a uma pequena vila, onde exis­tia um hotel, e pouco mais do que meia dúzia de casas. Algu­mas cri­an­ças cor­riam pela estrada de terra batida na nossa direc­ção, para rece­ber mais alguns turis­tas. A tem­pe­ra­tura bai­xava drás­ti­ca­mente, forçando-me a ves­tir o casaco e a colo­car o meu lenço ver­me­lho à volta do pes­coço. Ape­sar de sen­tir que pre­ci­sava de um quarto de hotel, tal­vez por sen­tir a para­noia a cres­cer em mim, aca­bei por con­cor­dar com Sarah e lá deci­di­mos seguir para uma expe­ri­ên­cia de “home stay”. Após meia dúzia de metros, lá encon­trá­mos uma famí­lia dis­posta a receber-nos por ape­nas 50.000 kip (pouco mais de 5 euros). As con­di­ções não eram nada o que eu espe­rava. No topo de uma estru­tura de madeira, com cerca de 6m de altura, encontrava-se uma casa sem pare­des e chão de madeira. Veio-me de ime­di­ato à cabeça a ideia parva de quão abor­re­cido seria se dei­xás­se­mos cair algo por entre as tábuas de madeira no chão.

Era claro que não exis­tia casa de banho, ou duche. No entanto a gene­ro­si­dade das pes­soas era maior do que todos os luxos do mundo, e nem um Hil­ton pode­ria dar o que ali viría­mos a rece­ber. Aquele fim de tarde era con­fuso para mim. Sei que usei dema­si­a­das vezes a pala­vra con­fuso neste texto, mas real­mente não exis­tem outras pala­vras para des­cre­ver o que se passava.

Após um pas­seio curto, decidi “enfiar” o pé numa poça de lama de pro­por­ções épicas. O dia fechava-se len­ta­mente sobre nós, enquanto o sol se escon­dia por detrás das mon­ta­nhas que abra­ça­vam os vas­tos cam­pos de arroz que dan­ça­vam com o vento. Tam­bém eu me fechava len­ta­mente sobre a minha pró­pria lou­cura e tudo o que esta­ria para come­çar. A famí­lia que nos rece­bia, apressou-se a trazer-me água para lavar o meu sapato enla­me­ado. Cedo me senti estú­pido ao per­ce­ber que a água que usara, era a única que tinham dis­po­ní­vel para lavar roupa ou para tomar banho. Foi aqui que come­cei a sentir-me cada vez mais impa­ci­ente e cada vez mais irri­tado com algo a cres­cer den­tro de mim.

Sarah estava dis­tante e eu pouco pode­ria fazer visto não haver para onde “fugir”. A mesa estava posta e o jan­tar era tra­zido len­ta­mente por todos os mem­bros da famí­lia. Cada um car­re­gava com ambas as mãos uma taça. Sorri ao per­ce­ber que tal como a famí­lia, todas as taças tinham uma cor e fei­tio dife­rente umas das outras.

 

Os mais novos aban­do­na­ram a sala, e os mais velhos fica­ram, indicando-nos atra­vés de ges­tos, a segu­rar um pedaço de arroz na mão. Foi então que se apro­xi­ma­ram de nós e ao ritmo de “dize­res” que mur­mu­ra­vam na sua lín­gua, nos ata­ram pul­sei­ras de um branco como nunca vira, nos nos­sos pulsos.

O resto da noite, dividiu-se entre ten­tar comu­ni­car com os mem­bros mais novos, obser­var, obser­var, e obser­var. Por vezes pouco mais há que fazer do que ver o que se passa à nossa volta. E cedo per­ce­be­mos que na vida não existe nada mais belo do que parar e olhar para o que nos rodeia.

3 da manhã e acordo em pânico. Não con­sigo dor­mir, e algo me corre no peito. Sinto-o a cres­cer mais e mais. Sinto que se apo­dera de mim como que se de um ani­mal se tra­tasse. Pro­curo os óculos e não os encon­tro. As len­tes de con­tacto desa­pa­re­cem tam­bém no meio da con­fu­são. Lá fora os insec­tos gri­tam ao som do meu pró­prio deses­pero. Sarah não res­ponde, dei­tada, igno­rando o que se passa, cho­rando. Algo maior e maior cresce den­tro de mim até que umas luzes se acen­dem den­tro da casa. Res­piro fundo, ao encon­trar o meu bloco de notas e um rato de pelu­che que a minha mãe me dera para a via­gem. Encon­tro tam­bém um urso que uns ami­gos me deram, e sinto-me como que entrando num banho de água quente. Tudo abranda e posso final­mente respirar.

O dia seguinte seria feito de des­pe­di­das e de visi­tas a uma das mai­o­res gru­tas, se não a maior, do sudo­este asiá­tico. Sarah estava cada vez mais longe, e foi então que deci­di­mos apa­nhar trans­porte para seguir­mos para Thakhek. Ouvi­mos e can­tá­mos por inú­me­ras vezes a música que fez com que tudo come­çasse. Cody — Catch the Straw. As nos­sas vozes inun­da­vam a parte de trás da car­ri­nha que nos trans­por­tava, pin­tada por um por do sol ines­que­cí­vel. Seria o meu último momento quase per­feito com Sarah. Demos as mãos, bebe­mos dos nos­sos sor­ri­sos e segui­mos via­gem ao som do que fizera com que tudo começasse.

Frio

Faz exac­ta­mente 2 meses que che­guei a Gent.

Muito acon­te­ceu entre­tanto, desde quase não ter um sítio para viver, a não con­se­guir arran­jar tra­ba­lho, mas len­ta­mente tudo se vai resol­vendo e acabo sem­pre por recor­dar que se sobre­vivi ao Laos, e a tan­tas outras peri­pé­cias, cer­ta­mente irei sobre­vi­ver a esta cidade no meio da Bélgica.

No entanto sinto cada vez mais o quanto difí­cil é aproximar-me da “gente” de cá. Não quero com isto dizer que as pes­soas são anti­pá­ti­cas, ou que tenho sido mal tra­tado. Muito pelo con­trá­rio. Sinto que toda a gente está dis­po­ní­vel para aju­dar, e são raras as pes­soas que não o fazem. Por outro lado vejo um país per­dido na Europa e aí sinto sau­da­des dos paí­ses per­di­dos no meio da Ásia. Falta-nos muito algo impor­tante que é o medo de comu­ni­car com estra­nhos mesmo sem falar­mos a mesma lín­gua. Sen­ti­mos medo e um des­con­forto que cresce com as pala­vras que se ten­tam tro­car, enquanto tudo o que é pre­ciso é ape­nas um sor­riso e alguns gestos.

Volto a coi­sas como arroz frito com vege­tais, ou uso secre­ta­mente nas cos­tas a minha mochila, enquanto con­duzo a bici­cleta pelas ruas de Gent. Sinto sau­da­des de via­jar, e elas cres­cem cada vez mais comigo. Muito mais do que alguma vez posso ima­gi­nar e tudo gra­ças a uma rapa­riga cha­mada Sarah, que conheci exac­ta­mente há um ano atrás.

O que me sur­pre­ende por fim aqui neste país, são por fim as pes­soas. Frias, e sabendo sem­pre que rara­mente expres­sam sen­ti­men­tos, ou até mesmo sol­tam um elo­gio. Quando o fazem deixam-me sem reac­ção. Recordo há dias ter dito a uma amiga com quem ape­nas saí 3 ou 4 vezes, seguindo o dia 1 de Abril (dia das men­ti­ras), que iria par­tir em breve e que iria sair de Gent para via­jar nova­mente. Não me recordo de vez alguma ter visto emo­ções inten­sas ou até mesmo algum afecto por parte dela. Desta vez vi lágri­mas, e mui­tas emo­ções que não con­se­gui medir ou per­ce­ber. Vi um abraço no meio de uma con­versa e vi um olhar meigo que me fez sorrir.

Sinto-me um pouco con­fuso com cer­tas coi­sas que acon­te­cem por cá. Tal­vez seja eu que mudei. Tal­vez seja eu um cida­dão do mundo que nunca irá estar qui­eto num local só. Tal­vez há um ano atrás tenha final­mente per­ce­bido algo muito sim­ples. No fim tenho em mim todos os sonhos do mundo, mas ainda mui­tos auto­car­ros por apanhar.

Uma Lisboa em Gent

Estou em Gent há duas sema­nas. Parei de via­jar, mas na ver­dade con­ti­nuo com as minhas via­gens pelo mundo e por mim. Os dias cor­rem entre o curso de holan­dês, pai­xões não cor­res­pon­di­das, sor­ri­sos que par­ti­lho com estra­nhos, copos de vinho que mis­turo com con­ver­sas com uma das rapa­ri­gas mais fan­tás­ti­cas que conheci em tem­pos, e os momen­tos em que vejo tatu­ado no braço uma frase que tento não esquecer.

Hoje foi dia de conhe­cer Lis­boa. Não falo de Lis­boa a cidade que nos enche de tanto, mas sim Lisa­boa para ser mais exacto. Um pouco assus­tado com uns olhos mei­gos que sur­giam ao fundo da rua, admito que com tan­tas rapa­ri­gas boni­tas aqui nesta cidade que tanto amo, pou­cas são as que agora me fazem ficar ansi­oso. No entanto o que via, era um sor­riso bonito e uma his­tó­ria que iria fazer este artigo de hoje.

Durante quase todos estes meses em que via­jei, mui­tas foram as pes­soas que me con­ta­ram his­tó­rias fan­tás­ti­cas desde as mais sim­ples às mais com­ple­xas. No entanto esta ganha em tanto por ser tão bela e tão simples.

Há anos e anos atrás, o pai desta jovem rapa­riga que agora vive em Gent, e que até há bem pouco tempo pouco conhe­cia do nosso país, tinha via­jado para o nosso belo país em férias. Pouco tempo levou até se apai­xo­nar por Lis­boa, pelo fado e pelos eter­nos fins de tarde que enchem a nossa capi­tal. Dei­xou então cres­cer um amor pelas pedras tos­cas e gas­tas que pin­tam as ruas, ou os velhos edi­fí­cios que se cur­vam sobre elas sobre fados e can­ções de outros tempos.

Esse amor cres­ceu e cres­ceu, até que por fim esse jovem rapaz Belga teve que regres­sar por fim ao seu país natal. É aqui que ima­gino aquela coisa estra­nha que nos cresce cá den­tro, e nos faz olhar atra­vés de jane­las, e que nos faz per­der no fundo de chá­ve­nas de café, a cres­cer den­tro dele. No entanto pouco mais sei sobre o que acon­te­ceu, até que por fim ele deci­diu dizer aos pais que iria dei­xar tudo para ir viver em Lisboa.

No entanto, como tudo e tan­tas coi­sas que acon­te­ce­ram nas minhas via­gens, a vida trás-nos sur­pre­sas e coi­sas que não vemos che­gar, e aquele rapaz pres­tes a par­tir para um país dis­tante, aca­ba­ria por fim por conhe­cer quem viria a ser a mãe de Lisaboa.

Anos pas­sa­ram, e assim nas­ceu esta rapa­riga que sorri agora à minha frente. O amor por uma cidade que ficou no cora­ção de um rapaz que tal como eu par­tiu e amou cida­des dis­tan­tes, fez com que qui­sesse dei­xar agora no que ele aju­dara a nas­cer, uma ima­gem de algo que guar­dava naquele pequeno quarto que guar­da­mos na nossa cabeça e de que tan­tas vezes falo.

Do Machu Picchu a La Paz

9 Feve­reiro
O dia foi pas­sado em via­gem, de Lima em direc­ção a Cuzco, num “bus-cama” relativamente con­for­tá­vel — é nes­tas coi­sas que vale a pena gas­tar um bocado mais de dinheiro numa via­gem des­tas. Segui­mos pela costa, bas­tante desér­tica, até Nazca, de onde inflec­ti­mos para o inte­rior. Cai a noite, continuam os fil­mes dobra­dos em espa­nhol no ecrã do auto­carro, para­mos para jan­tar, e siga viagem.

10 Feve­reiro
À medida que nos íamos apro­xi­mando de Cuzco, a pai­sa­gem fica mais inte­res­sante — mon­ta­nhosa, ver­de­jante. Che­gá­mos pelo fim da manhã, e fomos direc­tos pro­cu­rar alo­ja­mento, que encon­tra­ría­mos, num sítio barato mas abso­lu­ta­mente medío­cre, um daque­les pré­dios com uma cons­tru­ção tão pre­cá­ria que sur­pre­ende como se aguen­tam em pé, mas que são a norma por esta parte do mundo. Depois de um almoço bem com­posto num ita­li­ano local, encontrámo-nos com a Rita e a Joana, uma delas amiga do Pedro e do Ricardo, tam­bém em mobi­li­dade em Bue­nos Aires, e a amiga dela, a viver em Flo­ri­a­nó­po­lis. Arqui­tec­tos cla­ra­mente em mai­o­ria neste dia! Pas­seá­mos pela cidade, tomá­mos café, tro­cá­mos his­tó­rias das res­pec­ti­vas via­gens, enfim, um dia bem pas­sado. O cen­tro de Cuzco é muito bonito, espe­ci­al­mente a Plaza de Armas, mas tam­bém a envol­vente natu­ral, que lhe aumenta a beleza, claro. Bons res­tau­ran­tes e cafés, mui­tas lojas e ope­ra­do­res turís­ti­cos tam­bém, e claro, uma con­cen­tra­ção maior de “mochi­lei­ros” do que nas nos­sas últi­mas paragens.

11 Feve­reiro
De manhã, tra­tar de fazer um ISIC para ter des­conto na entrada do Machu Pic­chu, com­prar as entra­das, e os bilhe­tes de com­boio. E aqui começa a saga “sugar turis­tas até ao tutano”, a que não dá para fugir, se se quer real­mente subir até à “mara­vi­lha do mundo” peru­ana. Os bilhe­tes, incluindo entrada e subida à Mon­taña Machu Pic­chu, cus­ta­ram 71 soles (cerca de 20€, o dobro sem ISIC), o com­boio — um mono­pó­lio ver­go­nhoso da Peru­Rail — ficou a 70 dóla­res ida e volta, o bilhete “eco­nó­mico” para uma via­gem de duas horas. Sim, por­que há um com­boio de luxo a 300 dóla­res. O pro­blema aqui é de facto a lógica de se ter uma país a per­mi­tir a explo­ra­ção de visi­tan­tes (sim, por­que peru­a­nos pagam infi­ni­ta­mente menos), atra­vés de con­ces­sões a empre­sas que pra­ti­cam os pre­ços que bem enten­dem com a des­culpa de pres­ta­rem um “luxury ser­vice”, fazendo lucros astro­nó­mi­cos com uma “atrac­ção turís­tica” que é clas­si­fi­cada patri­mó­nio cul­tu­ral da huma­ni­dade, e que como tal, deve­ria estar aces­sí­vel a todos, a pre­ços justos.

Durante a tarde, segui­mos em combi para Ollan­tay­tambo, a aldeia de onde parte o com­boio, algo des­con­for­tá­veis na via­gem, claro, mas com vis­tas incrí­veis pelo cami­nho. Um pas­seio e um exce­lente jan­tar depois, e apa­nha­mos o com­boio, já de noite, infe­liz­mente, tal como o regresso viria a ser. Aguas Cali­en­tes, a 8km do MP, é um sítio pito­resco, encai­xado nos vales das mon­ta­nhas que rodeiam a cidade sagrada, mas que está, como não podia dei­xar de ser, repleto de hos­tels, cafés, piz­za­rias, dis­co­te­cas de mau gosto, sou­ve­nir shops e afins. Cho­via, para variar, e segui­mos direc­tos a dormir.

12 Feve­reiro
Bem cedi­nho, acor­dá­mos para ir apa­nhar o auto­carro que nos leva­ria, final­mente, ao topo. 20m a 9 dóla­res o bilhete. Sem sur­presa aqui tam­bém. Che­ga­dos à entrada, um hotel de luxo e um res­tau­rante, e as ruí­nas, final­mente. Tive­mos sorte com o tempo na maior parte do dia, feliz­mente, e o pri­meiro con­tacto com o MP foi com o sol a bri­lhar. A visão é do outro mundo, truth be told, pro­va­vel­mente das coi­sas mais boni­tas que já vi — a envol­vente natu­ral das ruí­nas é espec­ta­cu­lar, a mon­ta­nha rode­ada pelo rio bem lá em baixo, a mon­ta­nha Wayna Pic­chu por trás, o modo de cons­tru­ção das casas, a des­cer até onde foi pos­sí­vel. A atmos­fera é mágica, de facto. Era ainda melhor sem os japo­ne­ses e as máqui­nas foto­grá­fi­cas em dis­pa­ros non-stop, mas ainda assim, ins­pira um sem número de super­la­ti­vos. Subi­mos à mon­ta­nha Machu Pic­chu, de onde se tem vis­tas espec­ta­cu­la­res, até onde as nuvens per­mi­tem, e onde a falta de oxi­gé­nio se faz sen­tir a cada degrau.

Em baixo, visi­tá­mos as ruí­nas com algum por­me­nor, que em si não têm nada de dis­tinto de outras da mesma época, a não ser a crua dimen­são. Ao iní­cio da tarde, depois de espe­rar­mos que uma chu­vada pas­sasse, ini­ciá­mos a des­cida até Aguas Cali­en­tes, desta vez a pé, pelos tri­lhos de esca­das. Cus­tou, mas valeu a pena, e depois tive tempo para recu­pe­rar, até apa­nhar­mos o com­boio de regresso a Ollanta, e o auto­carro para Cuzco.

13 Feve­reiro
A nossa ideia ini­cial de iti­ne­rá­rio era irmos de Cuzco para Are­quipa, no sul, de onde segui­ría­mos para Puno. Infe­liz­mente, só havia auto­car­ros para Are­quipa de noite, e então deci­di­mos cor­tar cami­nho, e seguir logo nessa manha para Puno, junto ao Titi­caca. 8 horas depois, che­gá­mos, já de noite, e des­co­bri­mos que se fes­te­java por toda a cidade em honra das cele­bra­ções da “Vir­gem de La Can­de­la­ria”. Ruas cor­ta­das, des­fi­les ao estilo car­na­va­lesco, muita con­fu­são, e claro, hos­tels lota­dos. Depois de muito pro­cu­rar, aca­bá­mos por ficar num hotel mais caro do que o nosso bug­det tem per­mi­tido — uns vinte euros pela noite — mas era a única hipó­tese. A cidade de Puno, em si, não tem abso­lu­ta­mente nada de espe­cial, é algo turís­tica, de média-dimensão, e seme­lhante a mui­tas outras, mas nes­tes dois dias rebenta em ter­mos de capa­ci­dade e na ale­gria dos fes­te­jos. Por algum tempo foi inte­res­sante, mas às duas da manha os des­fi­les con­ti­nu­a­vam, e eu já só que­ria dormir.

14 Feve­reiro
Este dia foi dedi­cado a uma rápida visita de barco, pelo Lago, até às ilhas de Uros, umas pecu­li­a­res deze­nas de ilhas arti­fi­ci­ais flu­tu­an­tes, cons­truí­das pela popu­la­ção a par­tir de “totora”, uma planta escura e húmida, sobre a qual assen­tam vários mon­tes de totora seca, que é usada para o solo, os tec­tos das casas, os bar­cos tra­di­ci­o­nais, etc. Exis­tem ilhas com popu­la­ção nativa, escola e infra-estruturas bási­cas, mas nós fomos, claro, con­du­zi­dos para um con­junto delas que estão espe­ci­al­mente voca­ci­o­na­das para rece­ber turis­tas, com peque­nas ban­cas de arte­sa­nato e res­tau­ran­tes de pejer­rey, cara­chi e tru­cha, os pei­xes típi­cos do lago. Cedo regres­sa­mos a Puno, onde o resto do dia se pas­sou em cafés, a ler, a pas­sear, e no hos­tel, a enviar algu­mas can­di­da­tu­ras e a fazer pes­qui­sas na net sobre poten­ci­ais está­gios, tarefa a que me tenho dedi­cado aos solu­ços durante esta via­gem, mas que não posso negligenciar.

15 Feve­reiro
De manha cedo, par­ti­mos para Copa­ca­bana, na Bolí­via, aqui tam­bém, sem pro­ble­mas na fron­teira. Che­ga­dos a Copa, pro­cu­rá­mos hos­tel, e segui­mos quase direc­tos para o pequeno porto, de onde par­tem as visi­tas à Isla del Sol, no Titi­caca, do lado boli­vi­ano. A via­gem de barco — duas horas — foi agra­dá­vel, pese embora a chuva oca­si­o­nal, mas as vis­tas do lago de facto são boni­tas, até per­der de vista. A ilha é inte­res­sante, com pou­cas cons­tru­ções, as que exis­tem voca­ci­o­na­das para o turismo, e algu­mas ruí­nas, de pouco inte­resse. Subi­mos até ao topo, apreciou-se as vis­tas, e vol­tá­mos a des­cer para fazer a via­gem de regresso, a maior parte da qual foi pas­sada a ouvir as his­tó­rias de um ani­mado refor­mado ale­mão em pas­seio pela Bolí­via e pelo Bra­sil. É curi­oso como não temos encon­trado por­tu­gue­ses de mochila às cos­tas durante a via­gem, mas mui­tas as outras naci­o­na­li­da­des abun­dam, espe­ci­al­mente ame­ri­ca­nos, aus­tra­li­a­nos, ale­mães, argen­ti­nos, alguns bra­si­lei­ros… Pode ser que ainda nos cru­ze­mos com alguns. Regres­sa­dos, mais uma busca por um inter­net café, e depois jan­tá­mos num sítio bas­tante sim­pá­tico e barato q.b. Come­ca­ría­mos aqui o nosso “splurge” pela Bolí­via, onde tudo é impen­sa­vel­mente barato, mas onde aca­bá­mos por pou­par pouco em com­pa­ra­ção com os outros paí­ses, por irmos a sítios bem melhores!

16 Feve­reiro
Depois de ter­mos de ir a três sítios dife­ren­tes para tomar o pequeno-almoço — inva­ri­a­vel­mente dada a incom­pe­tên­cia do ser­viço e os lar­gos tem­pos de espera nos cafés e res­tau­ran­tes, espe­ci­al­mente peru­a­nos e boli­vi­a­nos — fomos apa­nhar o auto­carro para La Paz. Três horas de pai­sa­gens áridas de mon­ta­nha, e a última hora, quase, para entrar na capi­tal, rode­ada de subúr­bios deso­la­do­res e casas de tijolo, ruas por asfal­tar, o trân­sito sem regras do cos­tume, claro, mas se há sítio onde se sente que aca­ba­mos de ingres­sar no país mais pobre da Amé­rica do Sul, é em El Alto, La Paz. Che­ga­dos ao hos­tel, mesmo a tempo do jogo do nosso Porto — sim, pela pri­meira vez na vida vejo-me obri­gada a seguir o calen­dá­rio das par­ti­das e a ouvir quase dia­ri­a­mente o hino do FCP, mas tem sido cons­tru­tivo — e dige­rida a der­rota, segui­mos para comer qual­quer coisa e ter um pri­meiro con­tacto com a cidade. Nesse dia, jan­tá­mos no Res­tau­rante Vienna, um dos melho­res de La Paz, daque­les com pia­nista à entrada e carta de mais de dez pági­nas — sin­gani de ape­ri­tivo, entra­das, pra­tos, vinho e sobre­mesa, e a coisa não pas­sou dos 15€.

17 e 18 Feve­reiro
Os dois dias seguin­tes foram pas­sa­dos em La Paz, em ritmo de des­con­tra­ção, por­que só tínha­mos com­boio de Oruro para Uyuni às Segundas-feiras, e não podía­mos ficar a dor­mir em Oruro, por­que a cidade por altura do Car­na­val transforma-se numa autên­tica feira — infla­ci­o­nada — e che­gá­mos à con­clu­são que dor­mir lá não ia ficar por menos de 100 dóla­res. Apro­vei­tá­mos, por isso, os pre­ços da res­tau­ra­ção da capi­tal boli­vi­ana, e puse­mos vários assun­tos em dia, no com­pu­ta­dor do hos­tel, que tam­bém se reco­menda: Resi­den­cial Latina. Fomos a um con­certo de Car­na­val no Museu Naci­o­nal de Arte, que foi uma espé­cie de visita gui­ada pelos rit­mos popu­la­res latino-americanos, e fui tam­bém a uma ses­são da Cine­ma­teca Boli­vi­ana, um pouco deso­la­dora pelo cariz lar­ga­mente comer­cial da pro­gra­ma­ção, por se pres­ta­rem a pas­sar fil­mes em DVD e ainda por cima selec­ci­o­na­rem a lín­gua errada para pas­sar o filme. Mas bom, haver uma Cine­ma­teca com 4 salas, já é um começo. De resto, sen­ti­mos a ani­ma­ção das ruas em fim de semana pro­lon­gado, pas­seá­mos, e pouco mais fica de uma cidade inte­res­sante, mas pouco memorável.

Chuva

A minha cabeça estava cheia de chuva. Não sei sequer se o con­sigo dizer de outra forma, mas sentia-me enchar­cado até aos ossos. Lariam, chuva, chuva e mais chuva. No entanto Jon, agora meu com­pa­nheiro de via­gem, par­ti­lhava algu­mas des­tas aven­tu­ras comigo, o que aju­dava um pouco a que tudo pare­cesse um pouco melhor.

Foi aqui que conheci por fim Mar­leen. Admito que gosto de conhe­cer pes­soas que em vez de se darem a conhe­cer por um jorro de pala­vras, e coi­sas sem sen­tido, limitam-se a sor­rir e a dizer ape­nas coi­sas que impor­tam. O silên­cio tem muito para dizer e pou­cos são os que per­ce­bem isso.

Quando deci­di­mos ir para Vien­ti­ane, onde me iria encon­trar nova­mente com Sarah, nunca espe­ra­ría­mos a aven­tura que estava para che­gar. O céu ficava cada vez mais negro e a chuva caía cada vez com mais inten­si­dade sobre o telhado de zinco que cobria as nos­sas cabe­ças na humilde para­gem de auto­carro. Não pude­mos dei­xar de rir quando vimos o nosso auto­carro. Pare­cia uma dis­co­teca com rodas, cheio de luzes néon e cores ber­ran­tes. O con­du­tor, com pouco mais de 20 anos, pare­cia ansi­oso como e com a tem­pes­tade que cres­cia nas mon­ta­nhas à nossa frente.

Os relâm­pa­gos lá fora mos­tra­vam por bre­ves momen­tos, o vazio que nos rode­ava. Um vazio cheio de coi­sas e coi­sas cheias de mon­ta­nhas e uma densa flo­resta que nos fazia agar­rar à cadeira. Era impos­sí­vel não admi­tir que estava assus­tado, mas os pri­mei­ros sinais do Lariam come­ça­vam a sur­gir e estra­nhos vul­tos sur­giam perante mim quando fechava os olhos.

Foi então que pará­mos a pri­meira vez. Lama, chuva e detri­tos, cons­truíam então uma pequena mon­ta­nha à nossa frente. Foi então que per­cebi que o nosso jovem con­du­tor, cheio de adre­na­lina, estu­pi­dez, e anfe­ta­mi­nas, como viria a saber mais tarde, deci­dira então atra­ves­sar aquela pequena montanha.

O auto­carro balan­çava da esquerda para a direita como um barco atra­ves­sando uma tem­pes­tade em alto mar. Algu­mas pes­soas entra­ram em pânico e come­ça­ram a aban­do­nar o auto­carro. A chuva lá fora e a lama, não impe­diam nin­guém de ficar den­tro do que se pode­ria tor­nar num desas­tre mais tarde ou mais cedo. Mal tinha aca­bado de imper­me­a­bi­li­zar a minha mochila e as minhas coi­sas, vi ao longe uma rapa­riga que cho­rava e solu­çava no meio da chuva. Corri então para ela, agar­rando na pouca cora­gem que ainda tinha, e tal­vez um pouco afec­tado pelos medi­ca­men­tos que tomava. A pouca maqui­lha­gem que tinha, transformara-se agora num rio negro que lhe cor­ria pela face.

Abri rápi­da­mente a mochila, ofereci-lhe um dos rebu­ça­dos de emer­gen­cia que tinha guar­da­dos, e apressei-me a pro­cu­rar todas as lan­ter­nas ou luzes de emer­gen­cia que tinha. Admito que me ri quando a vi enfei­tada tal qual árvore de natal. No entanto a rapa­riga de quem nunca viria a saber o nome, sor­ria agora enquanto lim­pava as lágri­mas da face.

As horas seguin­tes seriam pas­sa­das a espe­rar. E o que ini­ci­al­mente seriam 4h de via­gem, viriam a ser no entanto 22h alter­na­das entre espe­ras, o iní­cio das minhas alu­ci­na­ções e muita chuva.

No entanto em Vien­ti­ane iria dizer adeus a Jon, e iria dizer nova­mente olá a Sarah que me espe­rava de forma dife­rente e com um beijo nos lábios.

Chiang Mai e Um pesadelo chamado Lariam

Chi­ang Mai”

Fal­tava ape­nas um vôo para Chi­ang Mai, e em breve iria então ter o que espe­rava, ou quem espe­rava. O ar era pesado como que se fosse pos­sí­vel cor­tar às fatias. Não espe­rava que tal clima exis­tisse, e nunca sequer pen­sei que fosse pos­sí­vel alguem sobre­vi­ver a tal. Era como que ten­tar res­pi­rar den­tro de água. No entanto Sarah lá estava à minha espera. Seguido de um beijo e um abraço que pare­ceu durar uma eter­ni­dade, lá tive então a minha pri­meira expe­ri­ên­cia numa Tuk tuk. Por vezes parece que pude­mos resu­mir a Tai­lân­dia a Tuk Tuks. Aliás todos os dias se fazem des­sas peque­nas motos com uma caixa atre­lada. A via­gem até à Le mai­son verte dura­ria pouco mais do que 10m. Can­sado e deso­ri­en­tado, agar­rava a mão de Sarah como que se fosse a última vez que a iria ver.

Tirei os sapa­tos para entrar no hos­tel e subi os dois lan­ces de esca­das até ao último andar. Era um quarto rela­ti­va­mente decente e limpo. Muito dife­rente no entanto do que estava habi­tu­ado em ter­mos Euro­peus. Tinha ape­nas uma cama tal como tinha pedido a Sarah alguns dias antes, e ape­sar das minhas ten­ta­ti­vas, rece­be­ria pouco mais do que um beijo. Dizia-me que que­ria ver pri­meiro como eu era sem qual­quer coisa física que nos pudesse influ­en­ciar, mas a noite iria ditar algo diferente.

Os pri­mei­ros dias em Chi­ang Mai foram mais do que mag­ni­fi­cen­tes. Era­mos dois tolos apai­xo­na­dos, por entre via­gens de sco­o­ter, bei­jos, quar­tos sua­dos, e pai­sa­gens fan­tás­ti­cas. Vive­mos dias que nunca tive­mos antes, tal­vez por estar­mos des­pi­dos de tan­tas outras coi­sas, ou tal­vez ape­nas por estar­mos por fim a expe­ri­ên­ciar algo que sem­pre quisemos.

A via­gem para Huax Hay, Laos, na fron­teira com a Tai­lân­dia, seria no entanto mar­cada pelos pri­mei­ros sinais dum pesa­delo cha­mado Lariam. Sentia-me ner­voso, ansi­oso, para­noico por vezes e sem saber o que fazer. Esta­ria à nossa espera a “Guib­bon Expe­ri­ence”. Dois dias e uma noite a des­li­zar por cabos de 700 metros pela flo­resta do Laos.

Um pesa­delo cha­mado Lariam”

Foi aqui que tudo aca­bou e que um novo período da minha via­gem come­çou. Sarah pare­cia dis­tante, incons­tante. Dizia que nada con­se­guia ver em mim, nem sequer um beijo me podia dar. No entanto o pior esta­ria para chegar.

A noite em ques­tão ainda cons­ti­tui para mim um grande bor­rão. Pouco é o que me recordo, entre Sarah ter­mi­nar a nossa rela­ção e dizer que me iria ter que dei­xar sozi­nho no Laos, e eu gri­tar com ela como nunca tinha feito antes ou até mesmo uma carta em pon­de­ra­ria tomar a minha vida, que não me recordo sequer de escre­ver. Pas­sei já por mui­tas coi­sas na minha vida, e sei que cresci muito tam­bém depois da morte de Sophie com quem estive pres­tes a casar. No entanto, sei tam­bém que difí­cil­mente iria que­rer por fim à minha vida, muito menos agora mesmo com tudo o que se estava a passar.

Os dias seguin­tes foram incons­tan­tes. Cheios de altos e bai­xos, gri­tos, dis­cus­sões, lágri­mas, pala­vras que nunca qui­se­mos tro­car. No entanto tudo iria mor­rer ali sem que hou­vesse qual­quer chance de sal­var o que nos tinha alí levado.

Luang Namtha teria pouco para con­tar. Sarah estava já mais longe do que alguma vez pode­ria estar, e pouco res­tava para sal­var. Tudo na minha cabeça era um tur­bi­lhão de coi­sas per­di­das, como res­tos de cotão e moe­das que guar­da­mos nos bolsos.

Segui­ría­mos então para Luang Pra­bang, onde iria conhe­cer Jon e Mar­leen, e onde iria dei­xar Sarah durante alguns dias. Os efei­tos da medi­ca­ção eram cada vez pio­res de dia para dia, e os pri­mei­ros sonhos vívi­dos come­ça­vam então a manifestar-se. Sarah tinha-se per­dido em si mesma, e eu come­çava a fugir para um lugar escuro que quase me tomou a vida.

No entanto tudo era incons­tante. Tan­tos eram os dias e horas que apro­vei­tei, como os momen­tos em que come­cei a viver o pesa­delo de que tanto falo.

Jon e Mar­leen iriam fazer então os dias que pas­sa­vam. Ambos holan­de­ses, tornaram-se no que viria con­si­de­rar como bons ami­gos, em ape­nas alguns dias.

Bélgica e o grande porquê vs o começo da viagem

Hoje res­pondo às ques­tões que algu­mas pes­soas me colo­ca­ram sobre o porquê de vir para a Bél­gica. Aste­rix, Tin­tim, bata­tas fri­tas, boa cer­veja, miú­das boni­tas. Bem podia dar-vos milha­res de razões sem que nunca real­mente expli­casse o porquê de para cá vir.

Vim cá a pri­meira vez em Abril de 2011 para visi­tar Nele. Aquela linda rapa­riga de cabelo louro e olhos azuis aca­bara por me tra­zer a este país que ape­sar de tão perto e ape­sar de tão fas­ci­nante, raras foram as vezes que tomei sequer a liber­dade de o ten­tar conhe­cer. Apaixonei-me desde o pri­meiro momento por Gent, a cidade onde vivo, e por Nele. Penso que o resto são ape­nas peque­nas coi­sas que foram acon­te­cendo, até por­que pouco mais há que me tenha tra­zido cá. Vim sem emprego, sem sítio para ficar. Vim sem rumo e ape­nas com um des­tino e um objec­tivo em mente. O ficar em Gent pelo máximo de tempo que con­siga e se pos­sí­vel para sempre.

Pas­sei 7 anos incons­tante, sem­pre a via­jar, e sem­pre a cor­rer de uma coisa para outra. Final­mente sinto-me em casa. Não sei se por Natha­lie, sobre quem irei falar nou­tra altura. Se pela cidade em si.

Enquanto não ma rou­ba­rem,  levo a minha bici­cleta para todo o lado e tal como uma cri­ança, sor­rio quando chove, ou tento apa­nhar flo­cos de neve com a lín­gua. Foi isto que sem­pre pro­cu­rei. Coi­sas sem serem com­pli­ca­das, coi­sas que não me enchem de dúvi­das e pro­ble­mas que não exis­tem, até por­que no final, tudo tem uma solu­ção e após via­jar por tanto tempo, tenho a cer­teza de que tudo irá sem­pre cor­rer bem, mesmo que no iní­cio não con­si­ga­mos ver isso.

Por fim decido então come­çar a colo­car aqui algu­mas das his­tó­rias que fica­ram por con­tar enquanto via­jei e que penso serem impor­tan­tes para que se per­ceba o que pas­sei durante estes 5 meses. Estes tex­tos que irei ten­tar colo­car aqui sem­pre que pos­sí­vel, fazem tam­bém parte do meu caderno de via­gem que sem­pre me acom­pa­nhou durante os melho­res e os pio­res momentos.

 

“A via­gem que mudou o mundo em mim”

O meu nome é Filipe Tei­xeira. Fui pia­nista, arqui­tecto, neu­ro­ci­en­tista, e esta é a his­tó­ria em “cue­cas”, com toda a ver­dade des­pida de pre­con­cei­tos e outras his­tó­rias, do que foi uma via­gem que mudou o mundo em mim.

Meço pouco mais do que 1m64 e sei que nasci num dia de chuva do dia 14 de Maio de 1984 em Almada. Por pouco que não sobre­vi­via mas tal­vez tenha sido isso que fez de mim um luta­dor. Nunca ambi­ci­o­nei gran­des fei­tos ou con­quis­tas. Mas desde cedo que algo cá den­tro quis saír para este mundo que agora é tão pequeno para o que guardo cá dentro.

“E assim começou”

Come­cei esta via­gem em Abril de 2011 na Bél­gica, numa pequena cidade cha­mada Ghent. Via­jei para me encon­trar com Nele que estive perto de amar, e aca­bei com Sarah por quem tanto deses­pe­rei. Não há muito mais que possa dizer sobre como come­çou esta via­gem. Jun­tem uma lareira, boa música, uma rapa­riga linda de mor­rer e uma his­tó­ria de alguém que tal como eu acor­dava todos os dias sabendo que fal­tava algo na sua vida.

Nem ape­nas um mês depois, aca­ba­ria então por come­çar a namo­rar com Sarah, e aca­ba­ria então por ser con­vi­dado para via­jar com ela à volta do mundo durante 6 meses. Os pri­mei­ros sinais de que algo não esta­ria bem, come­ça­ram ainda na Europa quando a visi­tei em Julho em Bru­ges. Ela já tinha ini­ci­ado a toma dos medi­ca­men­tos con­tra a malá­ria, e eu estava naquela linha ténue que separa saber que iria lar­gar tudo por alguém que amava, com o medo do desconhecido.

Após uma semana em que ambos per­de­mos a cabeça algu­mas vezes, tudo ter­mi­nou no que pode­ria ser tirado de um filme de Hollywood. Mui­tas lágri­mas, bei­jos, um “muito meu amor”, fize­ram dos minu­tos as últi­mas horas que iría­mos ter.

Agosto foi um mês sem dúvida difí­cil para mim. Sem tra­ba­lho, a pro­cu­rar ven­der o que con­se­gui­ria ven­der, e com a dúvida pre­sente de não saber se Sarah me iria espe­rar em Chi­ang Mai no norte da Tai­lân­dia ou não. Foi aqui que entrou o medo. O medo que tanto nos des­troi, que tanto nos cons­troi. Tal como Orpheus que olhou para trás em busca de Euri­dice, pou­cas foram as vezes que acre­di­tei que Sarah lá iria estar para mim. Foi aqui tam­bém que come­çou um pesa­delo cha­mado Lariam.

Antes de mais quero ape­nas focar que sem­pre soube dos pos­sí­veis efei­tos secun­dá­rios que por igno­rân­cia ou tal­vez arro­gân­cia, decidi ignorar.

“Portugal-Bélgica-Londres”

Após uma festa onde reuní todos os meus ami­gos, e onde liber­tei mui­tas lágri­mas de sau­da­des, tris­teza, ou por não puder dizer coi­sas que sem­pre quis, lá me des­pedi da minha mãe por entre ainda mais lágri­mas e fui então de encon­tro ao meu pai em Aveiro.

A dis­tân­cia do meu pai foi em mui­tas vezes mais apa­rente do que real. No entanto sei que tal como para mim, por vezes não lhe é fácil mos­trar cer­tas coi­sas que vão lá den­tro. No entanto foi no aero­porto depois de um dia bem pas­sado com João e Aneta, dois gran­des ami­gos por quem sem­pre senti sau­da­des, que o quarto peque­nino que o meu pai guarda den­tro dele, se mos­trou. Foi num abraço que me des­pedi de alguém que nunca pen­sei que se iria des­pe­dir de mim assim.

Mas era tempo de seguir para Bru­xe­las onde iria ter Malle à minha espera.

Conheci-a aquando a minha ida à Bél­gica em Abril, e desde o iní­cio que aquela per­so­na­gem frá­gil, pálida de gran­des olhos azuis e cabelo quase branco, se tor­nou mais do que impor­tante para mim. Foi uma amiga que amei e por quem deses­pe­rei também.

Malle é uma per­so­na­gem per­dida nos seus pró­prios cabe­los e medos que não con­se­gue con­tro­lar. Medos que cres­cem den­tro dela como cabe­los des­pen­te­a­dos num dia de vento forte, mas que me fize­ram sem­pre que­rer estar lá para a ajudar.

Quando che­guei a Bru­xe­las a Malle que sem­pre conheci e amei, estava mais caó­tica do que nunca. Era aquela soli­dão de que tam­bém eu iria sofrer, que senti de ime­di­ato nos seus olhos can­sa­dos. Mas o tempo não iria cus­tar a pas­sar e ela iria estar ausente no dia em que parti.

Chi­ang Mai estava perto e o meu cora­ção batia mais forte. Agarrava-me a Sarah com tudo o que tinha. Os car­ros pas­sa­vam e gri­ta­vam Sarah. As pes­soas, o com­boio, o avião, tudo o que me rode­ava, can­tava e pin­tava Sarah por quem tanto espe­rei. Não con­sigo expli­car bem o que vi naquela rapa­riga de cabe­los des­pen­te­a­dos e com pouco cui­dado no que ves­tia. Sei que vi alguém com um cora­ção grande que tanto me aju­dou nesta via­gem tanto psi­co­ló­gi­ca­mente como monetáriamente.

Chego ao aero­porto can­sado ou tal­vez sim­ples­mente mais do que ansi­oso pelo que estava pres­tes a fazer. O meu peito pare­cia que­rer explo­dir e mesmo sem alcool sentia-me como que embriagado.

Bom dia” – disse.

Bom dia”, “Posso ver os seus bilhe­tes?” – per­gun­tou o assis­tente da Bri­tish Airways.

Foi aqui que senti logo alguma hos­ti­li­dade no check in da Bri­tish Airways. Não seria a pri­meira vez que me iriam tra­tar como sendo ter­ro­rista, tal­vez pelo meu aspecto árabe, ou tal­vez por outra razão qualquer.

Se não se impor­tar, vou ter que fazer uma cha­mada por si”. Aqui admito que entrei em pânico e hones­ta­mente o facto de saber algum ale­mão e daí enten­der algum holan­dês, não aju­dou muito a que ficasse mais calmo, após enten­der as pala­vras “pos­sí­vel”, “ameaça”.

Lá estava eu. Pres­tes a iní­ciar a minha via­gem e nem ape­nas 5m depois de che­gar ao aero­porto já era con­si­de­rado uma ame­aça ter­ro­rista em Bru­xe­las. No entanto após 20m de longa espera, com o meu pas­sa­porte con­fis­cado nos cos­tu­mes, lá fui “liber­tado” e auto­ri­zado a pros­se­guir viagem.

A via­gem Bruxelas-Londres-Bangkok decor­reu sem gran­des pro­ble­mas. À parte de ter um ar con­di­ci­o­nado sem­pre a fun­ci­o­nar, vendo-me for­çado a ves­tir um casaco, um cas­che­col e a usar dois cober­to­res, che­guei então a BKK, no dia seguinte, can­sado mas cada vez mais ansi­oso por ver Sarah.