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Comício Público

O governo volkswagen

O governo de Passos Coelho está para a economia como os fabricantes alemães de automóveis estão para o ambiente: não interessa melhorar a realidade é mais fácil aldrabar as coisas. Os fabricantes de automóveis criaram um dispositivo que permitia enganar os testes ambientais, a ministra das Finanças, e candidata do PAF, deu “indicações à Parvalorem, a empresa pública que gere os ativos tóxicos do antigo BPN, para esconder prejuízos do banco com o objetivo de não agravar as contas do défice de 2012, avança a Antena 1. Desta forma, a Parvalorem terá ocultado uma parte das perdas registadas com o crédito mal parado a pedido de Maria Luís Albuquerque, quando ainda era secretária de Estado do Tesouro. Cerca de 150 milhões de euros.”  Esta é a súmula do milagre económico do passismo – o ilusionismo trapalhão.

Durante o reinado de Catarina II da Rússia foi nomeado governador da Crimeia o seu favorito Grigory Potemkine. Passados uns tempos, a czarina organizou uma viagem de dignitários estrangeiros, “os mercados” da altura, à Crimeia para mostrar os enormes progressos que o domínio da Rússia tinha concedido a estes locais inóspitos da Ucrânia. O objectivo era garantir a sua aquiescência em relação ao domínio russo e até agilizar o investimento e comércio do estrangeiro para o império. A viagem foi directamente organizada pelo favorito da monarca, os dignitários estrangeiros desceriam o rio e veriam a distância segura as novas aldeias construídas pelo ocupante russo e a vida feliz das populações. Potemkine construiu aldeias de cenário que tinham o aspecto das mais ricas povoações da Alemanha e escolheu os aldeões mais gordos e luzidios e vestiu–os como camponeses da Baviera, com um ar contente como se tivessem saído de um festival da cerveja. A visita foi um êxito, o favorito manteve as largas prerrogativas com a monarca e os dignitários estrangeiros emitiram pareceres, o que agora seriam notações, positivas sobre o desenvolvimento da Rússia. A verdade é que a Rússia continuava tão miserável como antes, mas na opinião de quem mandava estava em amplo progresso. E isso bastava para o legitimar externamente.

É exactamente assim que procede este governo: vamos pagar o buraco do BES, o governo garante que é apenas uma cena contabilística; a nossa dívida está acima dos 130% do PIB, o paulinho das feiras afiança que a confiança dos agentes económicos nunca esteve tão boa; Passos Coelho propagandeia uma queda continuada do desemprego, os portugueses sabem que isso é um mero expediente estatístico, à conta de formações e estágios de escravos e que na realidade há muito menos emprego, muito mais desempregados e meio milhão teve de fugir do país e, mesmo, o FMI confirma que o desemprego real é próximo dos 20%. Para todos os factos negativos da realidade, o executivo de direita criou uma realidade virtual doce, para desmentir a vida. Nós vivemos de facto no pior dos mundos possíveis, mas na melhor das estatísticas criadas.

O ponto alto deste Matrix laranja é uma campanha feita ao milímetro, custando milhões, uma gigantesca caravana de gente paga para dar a ideia de uma onda inexistente, ampliada pela câmaras das televisões e por uma interpretação conveniente das sondagens. Toda esta ilusão vai-se dissipar a 4 de Outubro? Não obrigatoriamente, a direita sabe que a ilusão e a mentira são constitutivas da realidade, podem influenciar as eleições e o seu desenvolvimento. E uma vitória já tiveram: não há sondagem que não dê, como demonstra Pedro Magalhães uma colossal perda de votos da direita, no entanto os estrategas do PAF construíram uma narrativa, cantada em couro pelas hordas de comentadores televisivos, de uma imensa vitória. Vamos ver se a realidade não lhes vai às trombas.

 

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