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O blogue de 10 políticos em campanha

Comício Público

Olá, sou do Bloco de Esquerda

‘Não vale a pena, são todos iguais’. É uma das coisas que mais oiço nas ruas, além de muitas outras, quase sempre simpáticas, muitas vezes de apoio. E nesse momento começa a tarefa mais difícil. Usar os poucos minutos que temos para mostrar às pessoas que vale a pena, que o voto não basta mas ainda é uma arma, que a política não é sempre uma corrida aos tachos, que no meio disto tudo ainda há gente de verdade.

Na campanha do Bloco todos os dias se distribuem milhares de jornais, pintam-se murais e colam-se cartazes de vários tamanhos. Não contratamos ninguém para o fazer por nós. Não porque não possamos, embora isso também seja uma limitação, mas porque acreditamos no trabalho militante. Foi por isso que nos juntámos a este projeto. Na campanha do Bloco todos os dias encontramos centenas de pessoas que temos de encarar, pelo que fizemos de bem, pelo que fizemos de errado, ou pelo que não fizemos. E quem disser que isso é sempre fácil, mente. Na campanha do Bloco não há brindes, e lá temos de explicar perante o olhar desiludido de alguns, que não temos canetas, só as ideias que parcimoniosamente dispusemos no jornal que oferecemos.

Já conhecemos os truques, à custa de tantas horas, dentro e fora do período eleitoral, a entregar papel. Sabemos que há outros meios, que muitos acabam no lixo, mas ainda não inventaram melhor forma, melhor desculpa, para dizer um ‘bom dia, sou do Bloco de Esquerda’. É nesse confronto que se ganham as ideias, que conseguimos explicar o que nem sempre passa na televisão, que ficamos a saber o que pensam de facto as pessoas, e não apenas o que pensam os comentadores sobre o que pensam as pessoas.

Hoje encontrei um pasteleiro, em Sintra, que me disse que recebe menos 300 euros que antes, que agora trabalha nas folgas, que o filho de 22 anos que não consegue encontrar um trabalho que dure mais que um mês, e que a mulher trabalhou um ano numa empresa de aluguer de automóveis sem receber. Acham que foi o único?  A verdade é que ainda não vi alguém que me dissesse que a vida está melhor, vote em quem votar, se votar.

Para lá da simpatia, do apoio e da revolta, o que mais se encontra nas ruas é resignação. É a campanha do medo de mudar, que interessa apenas a quem sempre lá esteve, e que blindou tão bem o seu espaço de poder que tudo o que sai fora dele parece irrealista, radical ou impossível. Dentro dessas fronteiras tudo se parece igual e, visto à distância de 40 anos, é tudo de facto muito parecido, muito cansativo.

A campanha não decide tudo, e mal seria sequer se resumisse o trabalho que fazemos ao longo de todos os anos. Mas dá-nos a oportunidade e a obrigação de, todos os dias, olhar centenas de pessoas nos olhos e dizer ‘olá, sou do Bloco de Esquerda’ e de explicar que não, não somos todos iguais. Porque a estratégia dos iguais, para manter o poder, é convencer-nos que não há para onde mudar. E nós queremos mudar.

 

Declaro assim inaugurado este diário de campanha. Sem promessas de regularidade ou consistência formal, mas o sincero compromisso da subjetividade e diversidade próprias de qualquer caderno de notas – o meu, neste caso –  que, durante estas semanas, será público.

 

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23 comentários a “Olá, sou do Bloco de Esquerda”

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