PÚBLICO

O blogue de 10 políticos em campanha

Comício Público

«O que eu andei para aqui chegar»

O que está uma escritora a fazer na política? O que tem uma historiadora que meter o nariz no romance, histórico ou não? O que aconteceu à jornalista que durante 30 anos andou pelos jornais, uma paixão que começou a despontar em África, Moçambique, 18 anos acabados de fazer?

Do que me conheço, se me dissessem há uns três, quatro anos, que me iria envolver, de corpo, alma e coração, em campanhas eleitorais, fazer parte dos órgãos de um partido político, e, até, candidatar-me à mais alta magistratura da nação, teria tido um ataque de riso. Ou de pânico. Ou ambos. Dizer isto, é dizer que nunca, por nunca, a política alimentou o meu imaginário, ou integrou qualquer dos meus sonhos.

Ser escritora, sim. Desde que comecei a ler. Ser jornalista, sim. Ainda recordo a sensação de maravilha quando me estreei como repórter no Noticias de Lourenço Marques, e a sensação de plenitude quando, três anos mais tarde, integrei os quadros da redacção da revista Notícia de Angola. Disse e repeti várias vezes: o jornalismo é a mais bela profissão do mundo. Para mim, foi muito mais do que isso, a oficina de escrita que me permitiu apurar as ferramentas, todas, a que recorro na delicada, intensa, brutal e exultante actividade de escrever.

Tornar-me historiadora, neste contexto de interesses e vivências, foi uma consequência natural. Um dia pensei – vou ali à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa tirar uma licenciatura, para arrumar o caos dos meus conhecimentos e arranjar estruturas intelectuais que suportem a multiplicidade de informações cujas datas e registos se embrulham, de tão díspares  foram sempre os meus interesses e leituras. Mas quando dei por mim, estava prisioneira de uma nova paixão. À licenciatura, ainda de quatro anos, sucedeu a pós-graduação e a esta o mestrado. O doutoramento está num horizonte relativamente próximo.

Já a política, nem pensar.

E porém, conheci uma boa parte dos políticos que ocupam lugares cimeiros ou menos destacados na Coisa Pública portuguesa. Trabalhei em jornais por onde muitos deles passaram. Testemunhei o pulsar da energia, o entusiasmo, em torno de projectos políticos, a que pessoas que muito prezava e prezo, outras nem uma coisa nem outra, se entregavam convictas e coerentes. Entrevistei uns quantos políticos emergentes ou consagrados. Segui algumas campanhas eleitorais. E… nada. Nem um sobressalto. Nalguns casos, a emoção mais forte foi o tédio. Noutros, não escondi uma admiração tão clara e assumida por pessoas de quadrantes tão diferentes, que um dia percebi que alguns dos meus camaradas, ou conhecidos, e mesmo gente com quem nunca privei, ligados à esquerda, me consideravam de direita. Ao mesmo tempo, e à direita, eu era eventualmente olhada como alguém algures entre uma esquerda não definida, ou simplesmente uma anarquista em potência. Só eu não sabia a que caixa, a que prateleira, a que embalagem pertencia, porque em nenhum delas me encaixava. De modo algum.

E há quatro anos surgiu o PAN – Pessoas, Animais, Natureza, e eu gostei logo das propostas que apresentava, porque mais do que um partido senti-o como um… inteiro. Uma associação de causas – Animal, Ambiental e Humana – onde as propostas defendidas eram as que eu acarinhava há muito tempo. Devolver ao ser humano a sua integralidade, no respeito pela casa de todos, a Terra, e na empatia com todas as formas de vida: tinha chegado a casa! E estava a conectar-me com humana gente que me tem estimulado a crescer e a acreditar que os sonhos mais improváveis, quando sonhados por muita gente que sonha da mesma maneira, vêm a tornar-se realidades.

O resto foi surgindo por acréscimo à medida que o envolvimento na dinâmica do PAN – inclusive nas primeiras dores de crescimento – implicaram mais disponibilidade mental, doação de tempo, energia e amor.

Espero, durante estas duas semanas, estar à altura do desafio que o Público nos lançou e que muito agradeço. Quanto ao resto, precisarei do resto da vida que ainda me resta para conseguir estar à altura do ideário do meu partido. Mas é muito bom ter um desafio tão grande como horizonte e saber que é conquistável, passo a passo. Nos tempos que correm, porém, e com todas as ameaças ambientais, políticas e económicas que nos cercam numa grelha poderosa e brutal, este passo terá de ser muito acelerado.

Corramos, pois.

MG


Obs. Para uma apresentação (minha) mais detalhada: História de Vida e Curriculum Vitae,

Sobre o título deste post: José Mário Branco, «Eu Vim De Longe, Eu Vou Para Longe» em Ser Solidário, Lisboa, Edisom Ldª, 1982.

 

 

 

 

Comentários

8 comentários a “«O que eu andei para aqui chegar»”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *