A angústia de João Ricardo Pedro

João Ricardo

(fotografia do autor)

Porque hoje é domingo
Isabel Coutinho

No final do ano passado fui entrevistar João Ricardo Pedro, o vencedor do Prémio Leya 2011, na pastelaria Carcassone, em Lisboa, onde ele, desempregado, tinha passado muitos dias a escrever o romance premiado.
Pouco à vontade, João Ricardo Pedro colocou o manuscrito de O Teu Rosto Será o Último (Leya) em cima da mesa. Contou que, por aqueles dias, para responder às perguntas das entrevistas, teve de voltar a ler o livro e já se ria de certas coisas como se não tivesse sido ele a escrevê-las. Era a primeira vez que alguém, que ele não conhecia, à sua frente, olhava para o que tinha escrito.

Até ali, além do júri do prémio no valor de 100 mil euros e que lhe foi atribuído por unanimidade, a única pessoa que leu o livro foi a sua mulher. E só o leu depois de o ter enviado para o prémio. “Se, por um lado, eu tinha a sensação de que poderia ganhar… Agora, pensando bem, não sei o que me passou na cabeça”, dizia João enquanto eu olhava para as folhas do manuscrito. “Agora é a parte da euforia, fazem-me entrevistas, mas, quando sair o livro, é que vai ser engraçado.” Porquê?, perguntei-lhe.
“Agora, toda a gente gosta do livro mas ninguém o leu.
Os amigos, a família – ‘És o nosso orgulho’, ‘espectacular’ -, quando lerem o livro, vai ser uma desilusão. Há pessoas que nunca leram um livro na vida e vão ler pela primeira vez por ser meu e vai ser difícil.” Fiquei a pensar naquilo.
O autor de O Teu Rosto Será o Último nasceu na Reboleira, passou a infância e a juventude em Queluz. Foi sempre um péssimo aluno.

Tinha jeito para Matemática, não tinha hábitos de leitura e foi para Engenharia Eletrotécnica porque diziam que dava dinheiro.
“No liceu, tive professores péssimos, nunca me sensibilizaram para a leitura e não tinha hábitos familiares nesse aspecto. Era uma família tipicamente portuguesa: não lia.” Tudo mudou, João passou a ser leitor compulsivo ao descobrir o que tinha andado a perder.
Quando, há semanas, terminei a leitura de O Teu Rosto Será o Último, um dos livros mais extraordinários e cativantes que li nos últimos anos e que começa no dia 25 de Abril de 1974, lembrei-me do João Ricardo Pedro e da sua angústia do que estava para vir quando o livro fosse publicado. Nuno Júdice, um dos júris do prémio, na altura disse-me: “Quando o terminamos, há personagens que ficam na memória e de que é difícil libertarmo-nos, o que é totalmente inesperado numa primeira obra.” As palavras de Nuno Júdice de que havia naquele livro “qualquer coisa de novo e de diferente”, que correspondia “a algo que só em raros momentos se consegue”, ganharam agora todo o sentido.

(crónica publicada na revista 2 no dia 29 de Abril de 2012)

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