Sardinhas decapitadas

Quando penso no escritor italiano Antonio Tabucchi, vem-me à memória a imagem de Marcello Mastroianni, solitário, sentado num banco de uma estação de comboios portuguesa enquanto esperava a ordem do realizador, Roberto Faenza, para que entrasse em mais uma cena de Afirma Pereira.
O filme foi rodado em Portugal em 1994 e o jornal enviou-me, em reportagem, para as filmagens. Não me lembro se troquei com Antonio Tabucchi impressões sobre essa memória indelével que me ficou de Mastroianni interpretando o velho jornalista do vespertino Lisboa, mas, sempre que abro uma lata de sardinhas, lembro-me do escritor italiano. É que devo a Antonio Tabucchi uma das imagens mais fantásticas que alguém já me deu da gastronomia portuguesa.
Essa revelação aconteceu em 1996, quando falei com ele por causa de um artigo para a revista de domingo do PÚBLICO sobre Alexandre O’Neill (1924-1986), de quem o italiano era muito amigo (o artigo chamava-se O Homem que tropeçava de ternura, foi publicado a 18 de Agosto de 1996).
Tabucchi contou-me que veio a Portugal em 1964-65 quando preparava uma tese sobre a poesia surrealista portuguesa e, no bolso, trazia moradas de intelectuais portugueses. Um deles era o poeta Alexandre O’Neill. “Cheguei a casa dele e toquei à porta. Levava uma carta de uns amigos italianos. Alexandre estava a comer sardinhas em conserva. Encontrava-se sozinho em casa. Perguntou-me: ‘Queres comer sardinhas decapitadas?'”, contou o escritor que traduziria depois para italiano poemas de O’Neill numa antologia a que chamou Made in Portugal. Tal e qual como as sardinhas.
Nessa altura, Tabucchi lembrou que era habitual um grupo de amigos reunir-se em casa de O’Neill para comer uma sardinhada. Depois, até às três da manhã, discutiam literatura. Alexandre pegava nos livros de Guimarães Rosa e de João Cabral de Melo Neto e lia alto. “Lia de uma maneira magnífica, esplêndida, com muita intensidade. Ficávamos ali a discutir e, às duas da manhã, propunha: ‘Vamos comer bacalhau com grão?’ – e lá se ia até ao Mercado da Ribeira.” Era uma época em que Lisboa tinha tascas onde se podia comer por módicas quantias.
Tabucchi recordou também uma tarde passada num piquenique: “Fomos fazer um piquenique nos arredores de Lisboa, em Agosto. Ao pé de uma capela onde os ciganos se costumam reunir para dar a bênção aos animais. Fica num pinhal muito bonito. O Alexandre era muito boémio e gostava destas ciganadas. Naquele dia, estavam o professor de História de Arte Helmut Wohl, a sua mulher Alice e o poeta Ruy Cinatti, que fez um número teatral magnífico. A certa altura, aproximou-se uma cigana que lhe começou a ler a sina, falando uma língua incompreensível. E o Cinatti começou a conversar com ela num dialecto dele, que era completamente inventado, e falaram durante meia hora. Parecia que os dois se entendiam perfeitamente.” Os anos passaram. Lisboa não é a mesma. O’Neill, Mastroianni e Antonio Tabucchi partiram. Mas as suas histórias ficam.

(Crónica Porque hoje é domingo, publicada na revista 2, no dia 1 de Abril de 2012)

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