Quiproquós cá e lá

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Bastou uma trinca no biscoito de polvilho Globo, que uma amiga trouxe do Rio de Janeiro, para me lembrar das partidas que nos pregam a nossa língua em tempo de acordo ortográfico. O primeiro dos quiproquós aconteceu-me quando entrei num cabeleireiro de Ipanema e a menina me perguntou se eu queria fazer escova. Perplexa, respondi que queria lavar e secar e se escova era esticar o cabelo, então era isso. Descobri então que escova é “brushing”.

Já devia estar habituada a estas baralhadas porque, quando troquei o Porto por Lisboa, sempre que pedia para cortar a repa demoravam a perceber que o que eu queria era cortar a franja. Mas nada me preparou para a conversa que aconteceu a seguir, estava uma menina a tratar-me das mãos. A determinada altura perguntou-me se eu gostava de francesinha. “De francesinha?!”, exclamei a achar que a moça tinha estado no Porto e se referia à iguaria que faz a cidade famosa. “Não gosto muito, acho enjoativa. Eu até nasci no Porto, devia apreciar…” Perguntei se no Rio também se comiam francesinhas.

Silêncio. Olhou para mim como se eu fosse destrambelhada. A que propósito lhe estaria a perguntar se as brasileiras apreciavam francesinhas? Continuei então com uma grande explicação culinária, até que percebi que as minhas francesinhas não eram a francesinha dela. E percebi que “francesinha” devia ser o que por cá se chama “manicure francesa”: quando na ponta da unha se faz um risquinho com verniz branco.

Tenho uma amiga brasileira que vive em Lisboa. Quando veio para cá trabalhar, dirigiu-se a uma colega de secretária e perguntou-lhe se ela tinha Durex. A rapariga não sabia onde se enfiar. A brasileira percebeu que, por cá, Durex devia ser outra coisa. Tentou explicar o que queria: “Aquela coisa redondinha que tem uma coisinha na ponta…” O olhar da outra arregalava-se cada vez mais e ela tentou explicar com gestos. Até que a portuguesa perguntou: “Fita-cola?!”E acertou.

Mas o maior quiproquó aconteceu-me numa troca de emails com a Folha de S. Paulo por causa da crónica Diário de Lisboa que escrevo para o caderno Ilustríssima. Era sobre um poema de Alexandre O’Neill: “Diz-lhe (…) em quantos quais sonetos meteste /o quatorze e quantas quecas/ te saíram pela ejaculatra/ e ainda que livros levarias/ para uma ilha deserta (…).” Enviei a crónica e recebi um email a perguntar: “Isabel, só uma dúvida: a palavra ‘quecas’, mantemos assim, ou você quis escrever ‘cuecas’?” As minhas gargalhadas ecoaram na sala.

“Ai que vamos ter aqui um problema”, respondi. “O poema do O’Neill está mesmo certo. Como é que eu hei-de explicar? ‘Quecas’ em Portugal não são cuecas. Quecas são sem cuecas. Acho que vocês dizem transar. Temos de manter as quecas, será preciso explicar?” E de lá veio a resposta: “Eeheheeh… será, Isabel? Acho que não. Vamos deixar assim. Se um leitor perguntar – explicamos. Ah, essa mesma língua que falamos…”

(Crónica Porque hoje é Domingo publicada na Revista 2, em 18 de Março de 2012)

 

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