“A literatura que me interessa está sempre na fronteira”

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Em 2011, José Castello recebeu o Prémio Jabuti com Ribamar. O crítico literário brasileiro explica ao Ípsilon como o que ia ser um ensaio sobre a relação dos grandes escritores com os pais se transformou num romance “trans” sobre a maldita “luta sem vencedores entre pais e filhos”. Por Isabel Coutinho

É profundo conhecedor da literatura portuguesa. Em Inventário das Sombras (edição brasileira na Record, 1999) fala dos encontros que teve com Cardoso Pires e Saramago. Fez parte do júri da última edição do Prémio Leya e é, desde há anos, curador de literatura brasileira no Prémio Portugal Telecom de Literatura. Autor da biografia Vinicius de Moraes: O poeta da paixão (Companhia das Letras, 1993. Prémio Jabuti) e de A Literatura na Poltrona (Record, 2007), nome que deu ao seu blogue, assina todos os sábados uma coluna no Prosa & Verso, suplemento literário do jornal brasileiro O Globo. No ano passado, voltou a receber o Prémio Jabuti, desta vez na categoria de romance, com Ribamar – uma ficção que, explica nesta entrevista, conta uma parte da sua própria vida.

Qual foi o ponto de partida para este romance?
Clarice Lispector tem uma frase que admiro muito: “Não sou eu que escrevo, são meus livros que me escrevem”. A princípio, Ribamar seria um ensaio sobre a relação de grandes escritores com os pais. Dediquei alguns meses à pesquisa mas, quanto mais avançava, mais pensava na relação que tive com o meu pai. Um dia, no meio do desânimo, um amigo telefonou-me para me perguntar se no Dia do Pai, em 1976, eu tinha dado de presente ao meu pai um exemplar de Carta ao Pai, de Franz Kafka. Como podia ele saber disso? Encontrou o livro num sebo [alfarrabista] do Rio de Janeiro e reconheceu a minha letra na dedicatória. Assim que a leu, eu entendi: 30 anos depois, o livro voltava para mim! O meu amigo comprou-o e enviou-mo pelo correio.

Deve ter sido um choque.
Receber o livro de volta foi um grande golpe – até porque sempre tive uma relação difícil com o meu pai. Foi ali, naquele súbito retorno ao passado, que surgiu Ribamar. Eu precisava de fazer alguma coisa com aquele livro que voltava para mim três décadas depois. Decidi, então, que ele seria o ponto de partida de um romance. Reli-o, com ansiedade, em busca de alguma marca, um sinal, uma frase sublinhada, que registasse as pegadas de meu pai. Nada encontrei. Aí começou a ficção: escolhi eu mesmo uma frase, sublinhei-a em nome de meu pai, e a partir desse falso vestígio escrevi o meu livro. Ribamar tem o formato de uma carta ao pai. É, ainda, uma tentativa de resposta à maldita frase sublinhada, que trata da luta sem vencedores entre pais e filhos.

Ribamar trabalha com a memória sem ser um livro de memórias. O narrador tem o seu nome, José Castello, e ajusta contas com o pai já morto.
Até hoje alguns dos meus irmãos se referem a Ribamar como “aquela biografia de papai”. É difícil convencê-los de que trabalhei muito mais com a mentira (a invenção) do que com a verdade. Cheguei a pensar dar outro nome ao narrador e ao seu pai, mas isso seria uma traição à origem do livro. Até porque muitas páginas são uma reinvenção livre de factos verdadeiros. Além do mais, acredito que a literatura é uma experiência viva. O escritor sempre arrasta para dentro do livro pedaços sangrentos de si. Ribamar é um livro fronteiriço, que fica a meio caminho entre o ensaio (sobre Kafka), o livro de viagens (a Parnaíba, cidade onde meu pai passou infância e juventude), o livro de sonhos (trabalhei com muitos sonhos verdadeiros e falsos), e uma ficção clássica. Há muito tempo que deixei de acreditar nos géneros literários: a literatura que me interessa está sempre na fronteira. A marca do nosso mundo é a transformação acelerada. Vivemos na época dos transgénicos, dos transexuais e do transnacional. Ribamar talvez seja um romance “trans”.

Nos seus livros de ensaio e biografia também rompeu com o que era tradicional.
Muitas pessoas já disseram que a minha biografia de Vinicius de Moraes é um romance envergonhado. Que a minha colectânea de crónicas é um livro de contos. Nada disso me espanta, pelo contrário, só me convence de que estou no caminho certo. Ocorre que, em Ribamar, essas fronteiras explodiram de vez. É um caminho sem volta – e é o meu caminho.

É também um livro “sobre a dor e a loucura de se escrever um romance”.
Durante quase três anos, escrevi apenas à mão, em cadernos de espirais. E, cada vez que me sentava para escrever, o livro arrastava-me para um lado. Cheguei a acreditar que escrevia vários livros ao mesmo tempo – e que precisava de escolher um deles. Cheguei a temer que estivesse enlouquecendo. Mas, uma vez mais, o acaso agiu a meu favor. Um dia, numa visita a minha velha mãe, ela começou a cantarolar uma canção. Perguntei que canção era e ela, muito espantada, me respondeu: “Você não lembra? É a música que seu pai cantava para você dormir”. Era também a música que meu avô, Livio, usava para embalar meu pai. Era, ainda, a música que meu bisavô, Manuel Thomas, cantarolava para acalmar meu avô. Uma canção de ninar, simples, banal – que ligava exclusivamente os homens da família. Anotei a letra e decorei a canção. Depois, meu irmão Marcos, que toca violão, a transcreveu para uma partitura. Semanas a fio, deixei essa partitura fixada ao lado do meu computador. Da mesma forma que o Carta ao Pai, que me voltou 30 anos depois, também essa música – que retornava quase 60 anos depois – era um sinal do destino. Eu sabia que ela devia entrar no meu romance, mas não sabia como.

Como encaixou tudo?
Um dia percebi que os meus rascunhos caminhavam em oito direcções diferentes. E que as notas musicais, se incluirmos a pausa, também são oito. As coisas subitamente se encaixaram: a partitura era o esqueleto de meu romance! Decidi então que a cada nota musical corresponderia um dos temas em que eu trabalhava. A nota “fá”, por exemplo, se refere a Franz Kafka e a nota “sol” à minha viagem a Parnaíba. A partir daí, o meu trabalho foi “encaixar” cada capítulo rascunhado em uma das notas.

Jogou também com a obra de Kafka.
Carta ao Pai é uma desesperada tentativa de Franz Kafka para se aproximar de seu pai, o comerciante Hermann Kafka. Mas, em vez de entregar a carta ao pai, Kafka entregou-a à mãe, que a escondeu para proteger o filho. É – exactamente como meu Ribamar – uma carta que o pai nunca chegou a ler. Uma carta abortada. Ambas são, porém, tentativas não só de aproximação, mas de reparação. Na verdade, Franz Kafka escreveu a Carta ao Pai para si mesmo. Talvez para tornar-se, em definitivo, seu próprio pai. Também no meu caso, Ribamar é uma carta sem destinatário – ou melhor, que tem, como está escrito no livro, “um destinatário qualquer”, isto é, o leitor, que pode ser qualquer um. Escrevi Ribamar para chegar a mim mesmo e estou convencido de que Kafka, ao escrever Carta ao Pai, tinha a mesma esperança. Se ambos fracassamos, ambos vencemos também. Dizendo de outra maneira: é exactamente ali onde fracassamos que se dá a nossa vitória. O escritor só escreve para si mesmo.

Apesar disso, Ribamar é uma obra metaliterária, construída a partir de citações de Manuel Bandeira, Daniel Defoe, Stevenson. São autores da sua preferência?
Descobri o que é a poesia lendo Bandeira aos 11 anos. Dois anos antes, já tinha descoberto o que é a ficção lendo o Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. Fui um menino muito tímido e solitário. Quando li o romance de Defoe, encontrei um duplo. Alguém que, como eu, vivia numa ilha deserta, sem contar com o apoio de ninguém e que precisava de partir do zero. Era como eu me sentia. Nas antologias escolares, descobri Bandeira, e logo depois Castro Alves e Vinicius de Moraes. Durante as aulas, eu lia poemas e lágrimas me escorriam dos olhos. Estudei com os padres jesuítas. Um dia, um padre, percebendo as minhas lágrimas, achou que eu estava doente e me levou para uma enfermaria. Nada encontraram de errado em mim, é claro. Eu estava doente, sim – mas minha “doença” era a poesia. Alguns anos depois, aos 19 anos, quando li pela primeira vez A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, sofri um impacto tão forte que caí realmente de cama. Um médico foi chamado em casa, me examinou com paciência e depois disse aos meus pais que eu sofria “de uma paixonite”. Nunca me esquecerei desse médico, um senhor de cabeça branca que, apenas com seu estetoscópio, conseguiu diagnosticar uma paixão.

Defende que não se pode ser um escritor sem se ser um grande leitor. Como lê José Castello, o crítico do caderno literário Prosa & Verso?
Não me vejo como crítico literário. Minha graduação é em jornalismo. Meu mestrado, em Teoria da Comunicação. Sempre fui um leitor solitário e caótico que se acostumou a ler por impulsos. Creio que críticos são aqueles que fazem um percurso coerente, que lêem os clássicos e estudam os grandes teóricos. É bom dizer que não descarto a denominação de crítico por orgulho, ou por desprezo.  No Brasil, temos grandes críticos: Silviano Santiago, Leyla Perrone Moisés, Flora Sussekind, Davi Arrigucci, são tantos os nomes! Vejo-me, porém, como um leitor “leigo”. Ou, como prefiro dizer, como um “leitor sentimental”. Leio um livro como se fizesse uma viagem ao Oriente: levo sustos, esbarro em muitas surpresas e faço muitas anotações. No fim, escrevo para os meus leitores relatos de viagens, não através de continentes exóticos, mas através de livros.

Ao longo da sua carreira entrevistou muitos escritores portugueses. Tem algo para partilhar?
Em Lanzarote, onde o entrevistei, Saramago me levou certa tarde para visitar o parque de Timanfaya, o parque dos vulcões. É uma paisagem desolada, atordoante. A terra seca, o chão fervente, as pequenas bocas de vulcões: eu sentia-me em Marte. O vazio, apesar do burburinho dos turistas, era assustador. Saramago, que era um homem muito sensível, logo percebeu minha angústia. Encontrou uma linda maneira de me dizer que a partilhava, e de assim ficar ao meu lado. Olhando para o horizonte deserto, disse apenas: “Eu sou isso”. Ali entendi, de vez, quem ele era.


O que pensa do que se faz na ficção portuguesa actual? Os dois países seguem caminhos diferentes?

Infelizmente, e é com grande tristeza que constato isso, ainda existe um injusto abismo separando as literaturas portuguesa e brasileiras. Não consigo entender as causas. Não consigo aceitar, mas ele existe. Bem, não vou falar em Camões e em Pessoa e em Eça, muito menos em Saramago e em Lobo Antunes, que estão acima do bem e do mal. Tornei-me um leitor muito entusiasmado de Valter Hugo Mãe, autor que nós, brasileiros, só descobrimos no ano passado. Mas não tenho dúvidas de que o grande nome da literatura portuguesa hoje é Gonçalo M. Tavares. É um autor muito acima da média, com uma obra radicalmente pessoal, que não se confunde com a de mais ninguém. É, além disso, um homem muito corajoso, pois segue seu caminho com serenidade, mas sem arrastar os pés de seu destino. Tem uma obra absolutamente singular, que não cessa de me pregar sustos e de me levar a pensar.

Ribamar desconstrói a ideia feita da ficção brasileira como “urbana, tropical, violenta e trepidante”. Incomoda-o essa visão redutora?
Sim, incomoda-me muito a ideia que se costuma ter, mesmo aqui no Brasil, a respeito da literatura brasileira. A literatura brasileira que me interessa é a que se desvia dessa “receita tropical”.
Escritores como João Gilberto Noll, Raduan Nassar, Michel Laub, Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, Eliane Brum, Raimundo Carrero. Autores que escrevem não para compor uma imagem imaginária de nação mas, ao contrário, para despedaçá-la e afundar-se nas suas entranhas. Quanto aos poetas, temos dois poetas vivos geniais, que honrariam qualquer literatura: Manoel de Barros e Adélia Prado. O Brasil do século XXI é um país complexo, e é rico porque é complexo e cheio de paradoxos. Assim também é sua literatura.

(Entrevista publicada no caderno Ípsilon, do jornal PÚBLICO de 27 de Abril de 2012)

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