Quando a literatura ajuda a viver e Drummond arrebata corações

Em 10 anos, Paraty recebeu 327 autores de 40 países, 11 dos quais portugueses. A edição comemorativa acabou domingo Por Isabel Coutinho, em Paraty

Na 10.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, à entrada da Casa da Companhia das Letras, a editora brasileira de Jonathan Franzen, Ian McEwan, José Luís Peixoto e de um dos livros de Dulce Maria Cardoso, todos os dias se formava uma fila imensa. É que a também editora de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) tinha cá fora uma estátua do escritor, uma réplica da que existe num banquinho em Copacabana, no Rio de Janeiro, e de onde estão constantemente a roubar os óculos.
Na FLIP ninguém tirou os óculos; todos queriam tirar fotografias com o homenageado desta edição, mesmo os que chegaram a Paraty sem saber quem ele era.
Mas depois de cinco dias de uma festa literária por onde passaram 25 mil pessoas, segundo a organização, não havia razão para desconhecer a obra do poeta mineiro. Antes das palestras da Tenda dos Autores, eram sempre lidos poemas do autor de Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra. E, numa edição sem polémicas ou momentos tão marcantes como outras, uma das mesas mais emocionantes foi a última das dedicadas a Drummond, com o poeta e académico Eucanaã Ferraz, o poeta Carlito Azevedo (autor de Monodrama, publicado em Portugal pela Cotovia) e o poeta Armando Freitas Filho, que foi amigo de Drummond.
Foram moderados por Flávio Moura, o curador da FLIP em 2008, 2009 e 2010 que regressou como co-curador da homenagem a Drummond e dos projectos especiais dos dez anos. Ajudou Miguel Conde, que foi pela primeira vez director de programação e voltará a ser em 2013.
No seu depoimento Freitas Filho lembrou a voz de Drummond, o seu mestre, um “homem simples” que escrevia coisas extraordinárias. “Se uma máquina de escrever falasse, teria a voz de Drummond: seca e surda”, disse. Descreveu a “cara litográfica, limpa, parecia que tinha saído do banho”, e os seus olhos, “duas bolas de gude azuis”, berlindes que criavam “embaraço duplo”.
Contou que Drummond não escrevia para ninguém mas escrevia para todos. “Escrevia com o próprio fígado, pegava o ser humano por dentro. Você pode até esquecer as palavras do verso, mas não esquece o sentimento que trouxe.” Lembrou que foi o primeiro a chegar ao velório e corrigiu um erro na placa que indicava a sala. Na palavra Drummond faltava um “m”. “Hélio Pellegrino [psicanalista e escritor] e eu entramos juntos na sala, abraçados, Hélio tremendo muito (ou era eu?), quando fomos abordados pelo jovem repórter Arthur Dapieve [hoje um escritor publicado em Portugal], perguntando qual era o significado daquela morte. Hélio respondeu: ‘Eu não me entenderia como pessoa sem a poesia dele.'” O poeta Carlito Azevedo, imenso sucesso de crítica com o seu último livro, contou que já não escreve há três anos, desde que publicou Monodrama.
“As pessoas quebram, algumas duas, três vezes na vida. Eu quebrei algumas vezes, muito recentemente quebrei de novo. Mas, lendo literatura, lendo poesia e mais especificamente lendo a poesia de Drummond, descobri que quebrar pode ser um aprendizado”, afirmou.
Eucanaã Ferraz lembrou o verso de Luiza Neto Jorge “o poema ensina a cair”. Ou a variação que Ferraz fez num dos seus próprios poemas: “A poesia ensina a estar de pé.” E a seguir veio Carlito Azevedo: “É como se Drummond fosse uma espécie de Buda e a poesia dele me ensinasse a iluminação pelo desapontamento.” Drummond serviu-lhe para voltar a escrever. Leu no palco um poema inédito dedicado ao “querido príncipe”. A sala emocionou-se, aplaudiu de pé.
Ao final do dia, como todos os anos, a criadora da FLIP, a editora inglesa Liz Calder, encerrou a festa numa sessão em que autores leram os seus textos preferidos. Diz-me o que lês, dir-te-ei quem és: Amin Maalouf escolheu um excerto do livro de memórias de Stephen Zweig que morreu no Brasil. O haitiano Dany Laferrièrre leu o conto Funes ou a memória, de Borges. Enrique Vila-Matas voltou Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, de Álvaro de Campos, que já tinha lido na FLIP há anos. Ian McEwan escolheu o que considera um dos melhores contos do século XX em língua inglesa, Os mortos, de James Joyce. Javier Cercas preferiu o final de Dom Quixote, de Cervantes. Dulce Maria Cardoso leu um excerto de Estilo de Os Passos em volta, de Herberto Helder. E Luís Fernando Veríssimo leu uma crónica intitulada Imaginação; pediu para só revelar o nome do autor no fim: o brasileiro Millôr Fernandes, que morreu em Março. Termina com a frase: “Estou só, com minha imaginação e um livro.” Para o ano há mais.

(Artigo publicado no jornal PÚBLICO de 10 de Julho de 2012)

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