Celebrar o livro em Paraty ao som de Lenine

Isabel Coutinho, em Paraty

Luis Fernando Verissimo, o mais calado dos escritores brasileiros abriu a Festa Literária Internacional de Paraty. Pôs a plateia a rir, antes de se falar de Drummond e de se ouvirem as palavras e sons de Lenine.

“E quem é esse aqui? É bonitinho”, diz uma rapariga para um amigo que a acompanha apontando para a fotografia do escritor português José Luís Peixoto e seus piercings que está na exposição com 46 retratos a preto e branco de alguns dos mais carismáticos autores que passaram pela Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) nos últimos dez anos. As fotografias são de Walter Craveiro, fotógrafo que acompanhou a FLIP todos os anos e é o único a quem a organização permite ficar a assistir às conferências do princípio ao fim.
Estão montadas em quadrados iluminados, entre a Tenda dos Autores – onde decorrem as conferências – e a Tenda do Telão, onde o músico Lenine fez o concerto de abertura da FLIP, e na primeira noite da FLIP, que foi de lua cheia, era o sítio onde todos queriam tirar fotografias ao lado do seus autores preferidos (Paul Auster, António Lobo Antunes, Robert Crumb, Valter Hugo Mãe, Ondjaki, José Eduardo Agualusa, Julian Barnes, etc). Escusado será dizer que o campeão do corrupio em matéria de “deixa eu tirar uma foto ao lado dele” é o retrato do escritor Chico Buarque que esteve na FLIP em 2004 e 2009.
Ao longe já se ouviam os acordes da guitarra de Lenine que cantava “Isso é só o começo/ É só o começo/Aqui chegamos, enfim/A um ponto sem regresso/Ao começo do fim…” no concerto que encheu Paraty de sons de pássaros, barulho de teclas da máquina de escrever e dos motores do avião e de batimentos cardíacos. “Costumo dizer fazendo uma analogia com a literatura, que num disco as canções são pequenos contos. Um disco é uma antologia de contos e hoje estou mostrando [na FLIP] o meu romance ‘Chão'”, brincou referindo-se ao título do seu último disco. O palco onde Lenine tocava acompanhado pela sua banda tinha como único cenário três lâmpadas penduradas no tecto.
E duas horas antes do concerto, na Tenda dos Autores, o director de programação desta décima edição da FLIP, Miguel Conde, ao apresentar o primeiro convidado da noite, Luis Fernando Verissimo, contou que o escritor brasileiro já tinha escrito “que aceitaria qualquer convite da FLIP, mesmo que fosse para trocar uma lâmpada”.
Desta vez, Verissimo não veio trocar lâmpadas coube-lhe fazer a conferência de abertura antes da homenagem a Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) que se seguiu feita pelos poetas e académicos Silviano Santiago e Antonio Cicero, que analisaram a obra do autor do poema “A flor e a náusea”, do livro “A Rosa do Povo”, de 1945. E começou assim: “Há exactamente quatro anos eu fui convidado pela FLIP para apresentar e entrevistar o dramaturgo inglês Tom Stoppard. Apesar do meu pavor de enfrentar o monstro, que é como eu chamo, carinhosamente, a plateia, qualquer plateia, me enchi de coragem, coloquei um Isordil preventivo [para enfartes] debaixo da língua e subi ao palco com o Tom Stoppard. E minhas primeiras palavras foram:’É um grande prazer estar de volta aqui na CLIP’.Na hora, não me ocorreu nenhuma maneira de consertar meu erro. E vocês começam a entender por que fui o escolhido para fazer essa apresentação na décima FLIP. Queriam alguém que falasse pouco e não atrasasse a festa”, disse o autor de “Os Espiões” (ed. Dom Quixote) e fez rir a plateia. Explicou depois que tinha agora oportunidade de se redimir “do vexame de ter trocado o F pelo C” e tinha tido quatro anos para arranjar uma explicação para a sua gafe. Resolveu adoptar a máxima do futebol de que a melhor defesa é o ataque. Afinal a sua gafe não foi uma gafe, explicou que tinha trocado o F pelo C conscientemente.
“Com o C eu quis dizer que o que acontece aqui em Paraty todos os anos é uma conspiração. Há dez anos Calder e cúmplices [referindo-se a Liz Calder, a editora britânica que lançou Harry Potter e criou a FLIP] conspiram para nos deixar todos mais inteligentes. O que acontece aqui é um conluio de ideias, um convénio de cérebros, uma convergência de tipos e talentos, uma catarata de conceitos e cantares, um carrossel de criações e catarses e contestações e casos e catequeses. Meu C também aludia ao fato de grande parte do charme e do brilho do evento acontecer nas mesas dos bares e restaurantes em Paraty. Também era um C de comilança, de convescote [piquenique] e de conversa noite a dentro.”
Era também C de cacofonia (por causa das muitas línguas faladas pelos autores que por aqui passam), era C de circo (por causa de tudo acontecer dentro de uma tenda) e era C de celebração: um “termo quase religioso” para o que acontece em Paraty todos os anos.
“Celebração do livro. Celebração da literatura, esse território livre onde o espírito humano se expande e se impõe”, disse. “E aqui também se celebra a permanência do livro. Não duvido que em algum momento deste encontro surgirá uma pergunta sobre a iminente morte do livro, vítima dos novos tempos e da nova tecnologia. Na verdade, a morte do livro vem sendo preconizada há tempo, e nunca acontece. É uma das mais longas agonias de que se tem notícia”, acrescentou. Por isso e enquanto o livro não está moribundo é sempre, tal como disse Verissimo, “um grande prazer estar de volta aqui, inaugurando a décima edição da Clip. Ahn, da FLIP!” que termina domingo.

(texto publicado no PÚBLICO de sexta-feira)

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