E agora Drummond? A festa começa hoje em Paraty


(no final deste vídeo pode ver-se Silviano Santiago e Antonio Candido na abertura da FLIP)

A 10.ª edição da FLIP começa hoje e homenageia o poeta Carlos Drummond de Andrade. Dulce Maria Cardoso e José Luís Peixoto participam na festa com Jonathan Franzen, Ian McEwan e Vila-Matas. Por Isabel Coutinho, em Paraty

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é o autor homenageado da 10.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) que começa hoje no Brasil. No ano em que passam 110 anos do nascimento e 25 anos da morte do escritor, poeta e cronista brasileiro, são lançadas na FLIP novas edições com inéditos, há uma peça de teatro baseada na correspondência com a sua filha Maria Julieta, uma exposição, além, claro, das conferências.

O Instituto Moreira Salles marca a feira com uma edição especial da revista “Serrote” com duas cartas inéditas que Drummond escreveu ao historiador Francisco Iglésias, que, tal como ele, era de Minas Gerais. Datadas de 1972 e de 1982, fazem parte do grupo de 16 cartas que o poeta escreveu ao amigo e pertencem ao espólio do historiador. Numa delas, Drummond explica o seu famoso poema José: “E agora, José?/A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou,/e agora, José?”.

Paulo Roberto Pires, o director da revista, explicou ao PÚBLICO que uma das cartas é um cartão escrito dos dois lados em que Drummond explica que escreveu o poema José num “momento de crise existencial em que queria fugir de tudo e de todos e não voltar fisicamente para Minas Gerais”. “O poeta chega a escrever a determinada altura: “Minas não havia mais” para mim. E ali refere-se a José como “os meus versos amargos””. No Brasil está agora a olhar-se para a obra de Drummond de uma nova maneira: “Tudo foi suscitado por uma retomada da sua obra que passou a ser editada pela Companhia das Letras, e estão a sair também edições na Cosac Naify. O Brasil está a lançar um olhar mais meditado sobre o Drummond.”

Uma das novidades deste ano na feira é que a conferência de abertura – que acontece hoje, às 19h (hora brasileira) – é dividida em duas partes. Na segunda parte, com a conferência do poeta Silviano Santiago, faz-se na cidade colonial a primeira homenagem a Carlos Drummond de Andrade. Aquele que foi júri do último Prémio Camões fala sobre a actualidade de Drummond e da visão global e cosmopolita que o poeta brasileiro tinha, apesar de só ter saído do Brasil para conhecer a Argentina e nunca ter estado na Europa ou nos Estados Unidos.

Para Santiago, a obra poética de Drummond tem uma relação mais profunda com o século XX do que com o modernismo brasileiro. “Ele transcende o modernismo brasileiro tal como o conhecemos. Drummond se assemelha ao papel de Victor Hugo na França no século XIX e de T. S. Eliot no mundo anglo-saxão em relação ao século passado. A sua obra poética mantém um diálogo constante entre os grandes acontecimentos do século XX. Tal como ele próprio diz num poema: “o tempo é a minha matéria, o tempo presente”.” Santiago tentará explicar a poesia de Drummond através de duas forças opostas: “Uma que apela para o pensamento revolucionário e outra que apela para o esforço da memória”, já que o crítico considera que “a poesia de Drummond estabelece um diálogo dramático entre Marx e Proust” com uma fase de poesia política até 1950 e depois uma poesia a que o próprio Drummond chamava “poesia de menino antigo” que são as suas memórias de infância.

Lançamentos e inéditos

Na exposição “Faces de Drummond – O poeta e seu avesso”, vão poder ver-se poemas dos anos 1920, que o poeta publicou em revistas e jornais da época mas nunca foram incluídos na sua obra. A exposição terá fotografias de infância, vídeos, originais dactilografados e até os papéis dos contratos com editoras.

Alguns destes poemas estão na obra “Os 25 Poemas da Triste Alegria” que a editora Cosac Naify acaba de lançar no Brasil. São poemas de juventude, escritos antes do seu primeiro livro publicado, “Alguma Poesia” (1930), e que o poeta renegou. Foram dactilografados por Dolores Dutra de Morais, com quem Drummond se casou em 1924. Depois de encadernados, foram entregues ao amigo Rodrigo Mello Franco de Andrade, de cuja biblioteca o volume só saiu para as mãos de outro famoso poeta, Manuel Bandeira. Algum tempo depois, chegaram às mãos do próprio autor. “Desde então, nunca mais se teve notícia do livro. Em 1937, Drummond já havia se transferido para o Rio de Janeiro e escrevia os poemas que iriam alçá-lo à condição de poeta nacional, com “Sentimento do Mundo” (1940). São dessa época o conjunto de anotações manuscritas à margem da sua produção de juventude”, explica-se no dossier de imprensa do livro. “Os 25 Poemas da Triste Alegria” é uma edição fac-similada desse caderno. O livro tem apresentação e comentários feitos pelo poeta, ensaísta e crítico literário Antonio Carlos Secchin, que, na sexta-feira, participa na FLIP numa mesa com o professor de Literatura Brasileira Alcides Villaça, para falarem de como a obra de Drummond atravessou o tempo e continua a ter relevância na actualidade.

A peça “Cartas de Maria Julieta e Carlos Drummond de Andrade”, leituras das cartas entre pai e filha, com a actriz Sura Berditchevsky, é apresentada em Paraty amanhã. No domingo, o poeta e professor Eucanaã Ferraz, que trabalha no espólio de Drummond, e o poeta Carlito Azevedo falam do homenageado com Armando Freitas Filho, que foi amigo do poeta mineiro.

Ver passarinhos

Mas não só de Drummond é feita a Festa Literária Internacional de Paraty 2012. O escritor norte-americano Jonathan Franzen, que durante a Feira do Livro de Frankfurt foi convencido pelo editor brasileiro a vir ao Brasil porque teria oportunidade para observar pássaros (um dos seus hobbies), é uma das atracções principais, depois do Prémio Nobel da Literatura 2008, J.M.G. Le Clézio, ter cancelado a vinda por motivos de saúde.

O autor de “Liberdade” fala na Tenda dos Autores na sexta-feira à noite. À revista “Serafina”, da Folha de S. Paulo, que o foi entrevistar a Nova Iorque, contou que irá ao Pantanal e ao Sul da Baía tentar ver pássaros tão estonteantes como os seus nomes: tiriba-de-orelha-branca, beija-flor-tesoura, caburé-miudinho, jandaia-de-testa-vermelha e entufado-baiano.

De regresso à FLIP está o britânico Ian McEwan, que faz na festa o lançamento mundial do seu novo romance “Serena”, publicado em Portugal em Setembro em simultâneo com a edição inglesa. Participa numa mesa com a norte-americana Jennifer Egan, vencedora do Pulitzer para Ficção com o livro “A Visita do Brutamontes”.

O poeta sírio Adónis e o escritor libanês Amin Maalouf estão juntos na mesa em que se discute “Literatura e Liberdade”, moderada por Alexandra Lucas Coelho, a correspondente do PÚBLICO no Brasil. E o catalão Enrique Vila-Matas, que lança o romance “Ar de Dylan”, substitui Le Clézio com uma conferência intitulada “Música para Malogrados”.

Miguel Conde é nesta edição, pela primeira vez, director de programação. Teve a ajuda de Flávio Moura, o curador da FLIP em 2009 e 2010, também responsável pela homenagem a Drummond e pelos projectos dos dez anos da feira. Há dias, no blogue da FLIP, Moura lembrou episódios de edições anteriores, como o fax enviado pelo crítico George Steiner em que justificava a recusa de um convite: “Sinto muito, mas estou prestes a completar 80 anos e o Brasil está, infelizmente, fora de questão.” Para quem também esteja, avisa-se que as mesas da FLIP podem ser acompanhadas ao vivo através do site www.flip.org.br.

(artigo publicado no PÚBLICO no dia 4 de Julho de 2012)

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