Memórias aldrabadas

Cibere­scritas

Isabel.Coutinho@publico.pt

José é um rapaz que apren­deu a ler aos qua­tro anos e nunca mais parou. Os seus pais, Alberto e Juli­eta, eram por­tugue­ses mas conheceram-se no Rio de Janeiro. Ele é brasileiro. Nasceu em Minas Gerais onde viveu a imag­i­nar que vivia em Paris. Mais tarde, aos oito anos foi viver para o Rio de Janeiro e desco­briu que “não havia (e não há) nada mais agradável de se ver do que uma bela mul­her em movi­mento.” (pág. 59) Tinha uma avó, Maria Clara, “que se dizia anar­quista e afir­mava haver jogado uma bomba no palá­cio de Queluz, onde residia o pres­i­dente da República, razão pela qual teve que fugir para o Brasil.” (pág. 62)
Um dia José foi ao cin­ema com uma dac­tiló­grafa loura: era a primeira vez e não perdeu tempo, colo­cou a mão dela no seu pénis e fez com que ela o mas­tur­basse. Ela não lhe falou nos dias seguintes. Para se des­cul­par José teve a ideia de copiar à máquina um poema de Fer­nando Pes­soa (sem divisões métri­cas, como se fosse prosa) e a rapariga voltou a falar. Con­clusão: voltaram a ir ao cin­ema.
José, o escritor, é a per­son­agem da nov­ela “José”, de Rubem Fon­seca [Zé Rubem para os ami­gos] que a edi­tora brasileira Nova Fron­teira lançou o ano pas­sado durante a Festa Literária Inter­na­cional de Paraty. Ao mesmo tempo foi lançado pela mesma edi­tora um livro de con­tos, “Axi­las e Out­ras Histórias Indeco­rosas”. Um dos meus con­tos preferi­dos desse livro chama-se “O Ensino da Gramática”, são três pági­nas de um diál­ogo entre duas pes­soas que vivem jun­tas. Parece um poema. Começa assim: “Você está triste? / Não sei. Talvez. /Tristeza dá câncer, sabia?/ Pen­sei que dava ver­ruga no nariz./Estou falando sério./ Ulti­ma­mente você vive falando sério. /Quando eu brin­cava você reclamava./Nem tanto ao mar nem tanto à terra.(…)” O conto acaba mal e bem tam­bém, e pode ser lido online no Pro­jecto Releituras. Estes dois últi­mos livros do Prémio Camões e Prémio Juan Rulfo em 2003 ainda não estão edi­ta­dos em Por­tu­gal mas a Sex­tante está a edi­tar e a reed­i­tar toda a obra de Rubem Fon­seca. Mas através do Por­tal Lit­eral onde, há anos, Rubem Fon­seca escrevia cróni­cas (chamava-lhes “Pen­sa­men­tos Imper­feitos”, algu­mas foram reunidas no livro “O romance mor­reu”), é pos­sível aceder e descar­regar o PDF, “José — Uma História em Cinco Capí­tu­los”, onde está a base desta nov­ela pub­li­cada o ano pas­sado, uma espé­cie de auto­bi­ografia. No fundo são as suas memórias aldrabadas, pois o escritor brasileiro sabe, tal como Joseph Brod­sky sabia, que “a memória trai a todos”. Além desta história em cinco capí­tu­los podem ser ainda lidas no Por­tal Lit­eral cróni­cas escritas por Rubem Fon­seca como “D. João VI e o Brasil”, “Gas­trono­mia”, “Tran­sex­u­al­ismo”, “Sexo na Praça”, “Michael Jack­son”, “O maior órgão do corpo”, “ Lit­er­atura de Ficção Mor­reu?”, e uma das min­has preferi­das “Rem­i­nis­cên­cias de Berlim”.
O autor de “A grande arte” foi advo­gado, polí­cia e vai sendo “cineasta frustrado”. Através do Por­tal Lit­eral é pos­sível descar­regar o PDF dos argu­men­tos que escreveu para cin­ema : “O homem do ano”, de José Hen­rique Fon­seca (que adapta o livro “O mata­dor”, de Patri­cia Melo) e “Bufo & Spal­lan­zani”, de Flávio R. Tam­bellini (que adapta o romance homón­imo de Rubem Fon­seca).
Na pequena biografia disponível no Por­tal Lit­eral, diz-se que Rubem Fon­seca nasceu em Juiz de Fora (Minas Gerais), em 1925, e que for­mado em Dire­ito, exerceu várias profis­sões antes de se dedicar inteira­mente às activi­dades literárias. “Acred­ita, como Joseph Brod­sky, que a ver­dadeira biografia de um escritor está nos seus livros”.

Pen­sa­men­tos Imper­feitos
“José — Uma História em Cinco Capí­tu­los”

http://www.portalliteral.com.br/banco/texto/pensamentos-imperfeitos-jose-uma-historia-em-cinco-capitulos-pdf

Rubem Fon­seca no Por­tal Lit­eral
http://portalliteral.terra.com.br/rubem/

Crónica “Pen­sa­men­tos Imper­feitos”
http://portalliteral.terra.com.br/artigos/pensamentos-imperfeitos-rubem-fonseca-inedito

Crónica sobre o Kin­dle
http://www.portalliteral.com.br/artigos/kindle-por-rubem-fonseca


Crónica “A Estu­pidez que nos Enve­nena e Enve­nena o Mundo.…”

http://www.portalliteral.com.br/artigos/pensamentos-imperfeitos-a-estupidez-que-nos-envenena-e-envenena-o-mundo

Crónica “Tran­sex­u­al­ismo”
http://www.portalliteral.com.br/artigos/pensamentos-imperfeitos-transexualismo

Crónica “D. João VI e o Brasil”
http://www.portalliteral.com.br/artigos/pensamentos-imperfeitos-d-joao-vi-e-o-brasil


Crónica “Gas­trono­mia”

http://www.portalliteral.com.br/artigos/pensamentos-imperfeitos-gastronomia

Crónica “Rem­i­nis­cên­cias de Berlim”
http://www.portalliteral.com.br/artigos/pensamentos-imperfeitos-reminiscencias-de-berlim

Pro­jecto Releituras
http://www.releituras.com/rfonseca_menu.asp

O Sem­i­nar­ista
http://www.oseminaristaolivro.com.br/

(Crónica pub­li­cada no caderno Ípsilon do PÚBLICO, exclu­si­va­mente na edição para iPad de 18 de Fevereiro de 2012)

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