O mundo editorial pela lupa do antropólogo

(fotografia de Ubiratan Brasil)

 

Gustavo Sorá, antropólogo argentino, estuda os factores determinantes na circulação mundial de ideias. Dedicou-se à Feira do Livro de Frankfurt e à análise da importância de se ser país convidado. Isabel Coutinho, em Frankfurt

O antropólogo argentino Gustavo Sorá, que viveu no Rio de Janeiro, anda há anos a estudar o mundo editorial para perceber quais os factores determinantes na circulação mundial de ideias. Este professor, que dirige o mestrado de antropologia na Universidade Nacional de Córdova, Argentina, fez uma etnografia das bienais internacionais do livro brasileiras (descreveu a estrutura das feiras de São Paulo e do Rio e os seus “stands”, reuniu catálogos, analisou públicos, editores, livrarias e entidades públicas) e completou o estudo com a análise da feira espanhola LIBER, do Salon du Livre de Paris e da Feira do Livro de Frankfurt, onde esteve pela primeira vez, em 1997, quando Portugal foi país convidado. “Queria compreender as feiras brasileiras como eventos particulares mas também a sua articulação com o circuito internacional, em que se movem os agentes mais poderosos do mundo editorial e onde as feiras funcionam como rituais de troca”, contou ao Ípsilon em Frankfurt, onde acompanhou a preparação de 2013, ano em que o Brasil volta a ser país tema depois de 1994.

Para se ser país convidado na Feira de Frankfurt é necessário passar por vários processos de negociação. O momento histórico em que cada país é escolhido tem a ver com circunstâncias particulares. O ano de Portugal, 1997, era o anterior à Expo’98 de Lisboa e, por isso, “a exposição portuguesa apresentou-se como uma vitrina para a Expo de Lisboa e não só como um produto autónomo, editorial e literário”. A presença do país convidado na feira é sempre “uma ocasião para se reinventar a tradição nacional, para se expor toda a cosmologia do que somos”. No país convidado é habitual que haja uma disputa para se reescrever o cânone literário. Refazem-se as histórias literárias nacionais apresentadas depois em exposições e catálogos dentro e fora da feira. No ano em que Portugal foi país tema, “os discursos tinham um tom de saudade, não só porque cosmologicamente se fazia apelo a essa chave da alma portuguesa mas também porque havia um ressentimento em relação à marginalização histórica que Portugal tinha sofrido como cultura Europeia”, lembra Gustavo Sorá. Foi uma ocasião para Portugal “gritar com muita força” que fazia parte da Europa, que esteve aberto “aos mares, ao mundo e à exploração” e lembrar que tinha sido uma potência. A apresentação portuguesa mostrava “o grande passado” e reposicionava Portugal na Europa, com a posição estratégica de “ser a dobradiça” entre África, a América e a Europa. “Foi uma exposição belíssima, com incunábulos e preciosidades da Biblioteca Nacional, foi o único país que construiu o pavilhão no pátio da feira e investiu muitíssimo. Foi impressionante, muito bem-sucedido em termos estéticos e simbólicos”, acrescenta o autor do livro “Traducir el Brasil Uma antropologia de la circulación internacional de ideas”.

Sincronia e oposição

Como nada é por acaso, no ano seguinte, o português José Saramago recebeu o Nobel da Literatura. “Exactamente! Todo esse tipo de instâncias, de produção, de reconhecimento, de valorização dos mercados e das culturas estão entrelaçados. O Nobel da Literatura é habitualmente anunciado durante a feira de Frankfurt. Não é só uma honra para uma grande figura, é também um prolongamento dos poderes financeiros e políticos que em Frankfurt se interligam permanentemente numa competição por existir ou deixar de existir. Não foi casual essa sincronização.” Em 1997, o antropólogo teve também oportunidade de perceber “as razões da fortíssima oposição entre dois mercados que partilham a mesma língua [Portugal e Brasil] mas têm histórias, estruturas, geopolíticas que os opõem permanentemente e de um modo brutal”. No ano anterior a Portugal ser país tema de Frankfurt criou-se a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). “Fernando Henrique Cardoso assinou, mas no Brasil era visto como uma política portuguesa de recuperação, nessa lógica de reinserção europeia, de recuperação de um certo peso internacional. O Brasil já era uma locomotiva que não precisava disso. Em termos de percentagens económicas o que podia representar o mercado do livro português? E o mercado português também se armou de barreiras para que o Brasil nunca entrasse e consequentemente não entrasse em África.”

Na apresentação que cada país convidado faz de si próprio em Frankfurt há sempre um equilíbrio entre o que ele quer mostrar e o que os outros querem que mostre. “Não se faz só o que os representantes dos países querem mas também o que os alemães, da instituição organizadora da feira impõem como normas, critérios, orientações”. É isso que está a acontecer agora com a preparação do Brasil.

“O país convidado em 2013, o modo como os brasileiros vão poder estar aqui está a ser regulado pelas duas pessoas encarregadas pela instituição da feira alemã para os acompanhar. Organizam visitas, constroem agendas, explicam aos brasileiros como determinado pavilhão funciona, sugerem coisas. A percepção alemã é que os nossos países estão sempre atrás, que nunca chegam a compreender o que exige ser um actor activo nas lutas centrais do mercado editorial internacional. Eles estão sempre correndo atrás, tentando dinamizar porque sentem que existem muitas contradições entre instituições públicas, privadas, editores singulares. A função deles é fazer ver aquilo que os brasileiros, do outro lado, não podem ver.” Para que o investimento do país convidado seja duradouro pelos anos seguintes, é preciso continuar a apostar na ida a Frankfurt dos editores (mais do que apostar na ida de escritores) e incentivar fortemente os programas nacionais de apoio à tradução.

A Feira do Livro de Frankfurt reproduz ainda hoje o que se passava nas feiras da antiguidade. Junta num lugar concreto pessoas que vivem longe umas das outras e que ali estabelecem padrões de troca (continua a ser a mais importante feira de venda de direitos). O contacto humano é determinante numa enorme percentagem da dinâmica na construção dos negócios. Mesmo nos grandes grupos editorais, os laços de confiança, amizade, simpatia, lealdade, contam.

“É impressionantemente primitivo nesse sentido e faz com que as pessoas não deixem de vir à feira. Porque se não vierem é como ‘não dar a cara’ ao mercado. É sair de cena, deixar de estar atento a alguma coisa que pode estar a acontecer. Hipoteticamente isto vai manter-se para sempre. A indústria do livro pode tornar-se 70 por cento digital, seja qual for o tipo de avanços tecnológicos que sejam inventados há um ponto onde a desconfiança humana ou o amor humano faz com que tenha de haver esse encontro entre pessoas para a troca. É por isso que na Feira de Frankfurt há essa mistura de vanguarda e de primitivismo social.”

(entrevista publicada no caderno ípsilon, do jornal PÚBLICO, de 2 de Dezembro de 2011)

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