Dia D, o dia Drummond

É hoje que se comemora no Brasil e em Portugal: o Dia D. Homenagem ao poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Filmes, leitura de poemas, saraus e um site na Internet. Por cá, tudo se passa na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. Isabel Coutinho, em Frankfurt

E se tal como acontece na Irlanda, com o Bloomsday dedicado a James Joyce houvesse um dia Drummond, o dia D, a ser comemorado em todo o mundo? A ideia foi o Instituto Moreira Salles, no Brasil. O Dia D, dia de Drummond, vai comemorar-se hoje e a Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, é um dos parceiros.
Esta história começou quando o acervo pessoal do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) entrou no Instituto Moreira Salles (IMS) em Fevereiro deste ano. Livros, jornais, dissertações de mestrado e teses de doutoramento sobre a sua obra, fotografias, correspondência, documentação pessoal, contratos de edição, “prestação de contas” de editoras, recortes de jornal, catálogos de exposições, postais, fichas bibliográficas e relatórios estão no IMS em regime de comodato. “Não o comprámos, o arquivo pessoal de Drummond fica connosco por 15 anos”, explica Samuel Titan Jr, coordenador executivo cultural do IMS, que esteve na Feira do Livro de Frankfurt onde conversou com o P2.
Drummond preparou a posteridade. “Há um certo momento a meio da vida em que ele percebeu em que lugar estava. Ele cortava as crónicas dele que saíam nos jornais, colava numa pastinha, anotava com a letra dele.” Era “maníaco por arquivar coisas” e no acervo existe uma pasta muito gorda chamada: receitas. “A coisa mais clara do mundo é que o Drummond jamais entrou na cozinha. Ele ia recortando receitas e arquivando por ordem alfabética. O ‘A’ é de Aves. É maravilhoso, só alguém que não cozinha põe peru, galinha, pato, tudo junto na categoria Aves”, conta Samuel.
“Não queremos ser só os depositários de um monte de papel, queremos ser um centro de referência para estudo e reflexão sobre a obra de Drummond”, diz. Por isso, o IMS já publicou três livros dedicados a Carlos Drummond de Andrade, com organização do académico Eucanaã Ferraz: a edição fac-similada de “Alguma poesia – O livro em seu tempo” (2010); o livro que o próprio Drummond organizou, em 1967, sobre a repercussão do seu poema mais polémico “Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema” (2010) e uma obra com as dedicatórias que ele fazia nos livros que enviava para os amigos, “Versos de circunstância” (2011). E tem a ideia de, no futuro, publicar também as crónicas do Drummond.
Mas acharam que não bastava para promover e difundir a obra do escritor. “Ficámos quebrando a cabeça para sacar o que poderíamos fazer e alguém falou do Bloomsday”, conta Samuel Titan Jr. “Vamos inventar um Bloomsday brasileiro, transformar alguma data drummondiana numa data de comemoração, de festa literária.” Assim nasceu a ideia do Dia D- Dia Drummond. Tal como os irlandeses (e actualmente o mundo inteiro) festejam a vida do escritor James Joyce todos os anos, no dia 16 de Junho com o Bloomsday, os brasileiros começarão a homenagear um dos seus maiores poetas no dia do seu nascimento, que se comemora na próxima segunda-feira [hoje]. Foi a 31 de Outubro de 1902 que nasceu Carlos Drummond de Andrade. “Se é para ser uma data do calendário literário brasileiro, não poderia ser uma data do IMS, não poderíamos ser proprietários da coisa. Por isso decidimos criar uma programação própria mas convidar também o maior número de parceiros e amigos para comemorar a data a partir deste ano. Damos só pontapé inicial. A medida do sucesso é : se daqui a 5 anos ninguém se lembrar que fomos nós que inventamos isso, então deu certo”, acrescenta Samuel.
Criaram o site www.diadrummond.com.br. Onde a programação do IMS, com curadoria de Eucanaã Ferraz e de Flávio Moura, e a de outras instituições, como a Casa Fernando Pessoa, já lá estão disponíveis. Em 2012, passam 110 anos do nascimento e 25 anos da morte de Carlos Drummond de Andrade e o poeta brasileiro será o homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Flávio Moura, que foi curador da FLIP entre 2008 e 2010, é o responsável pela programação relacionada com Drummond na próxima edição da festa literária brasileira.
O site terá novos conteúdos a partir de segunda-feira, no próprio Dia D. Como o filme “Consideração do poema”, produzido pelo IMS para esta data, em que importantes da cultura brasileira lêem poemas de Carlos Drummond de Andrade, entre eles Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Hatoum, Fernanda Torres, Adriana Calcanhotto, Cacá Diegues, Antonio Cícero, Paulo Henriques Brito e Marília Pêra. “Convidámos 40 pessoas para ler poemas. Fizemos uma lista de 100 poemas, um cardápio que oferecíamos e que as pessoas escolhiam e liam um poema inteiro. Tem leituras magníficas. Assisti a algumas. O filme vai ficar em exibição no IMS, no Rio de Janero mas a gente está dando o DVD para todos os parceiros e espalhando por uma rede grande de escolas e livrarias. Vai também estar na Internet”, diz Samuel.
“Este filme que produzimos, e que vai passar na Casa de Fernando Pessoa, ficou muito legal, mais de uma hora, um panorama muito completo da obra de Drummond”, acrescenta Flávio Moura. É às 18h30, no auditório da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa (Rua Coelho da Rocha, 16) que será feita a projecção, em estreia mundial, já que no Brasil será mostrado horas depois por causa da diferença horária, o filme “Consideração do Poema”. A seguir, os actores Ângela Pinto e Jorge Sequerra farão uma leitura encenada dos poemas longos de Drummond, a saber: “A Mesa”, “A Máquina do Mundo”, “Caso do Vestido”, “Noite na repartição”, “O marginal Colorindo Gato” e “Nosso Tempo”.
Como a ideia primordial deste projecto era que se envolvesse a maior quantidade de pessoas na comemoração, anónimos, admiradores da obra do poeta, podem enviar por e-mail vídeos em que fazem leituras de poemas. Esse material vai depois ser montado e ser um filme. Samuel Titan explica: “Ao mesmo tempo a Globo entrou como parceira do projecto e vamos começar a capturar leituras de anónimos. Puseram no ar 40 poemas do Drummond, você entra, escolhe o poema que quer, grava com a sua webcam, iphone, etc, manda para a gente. Depois montamos e colocamos no site. A Globo fez uma coisa parecida quando fez a série ‘Dom Casmurro’ (http://www.milcasmurros.com.br/)”.
E um terceiro vídeo, “No meio do caminho” (2010), também produzido pelo IMS, vai passar durante todo o dia (das 10 às 18h), no auditório da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. É um filme com 11 versões em língua estrangeira do poema mais conhecido de Drummond, “No meio do caminho”, declamadas por David Arrigucci Jr., Matthew Shirts, Jean-Claude Bernardet, Heloisa Jahn, etc. Ficará também disponível no site. Na Rádio Batuta, no site do Instituto Moreira Salles (www.ims.com.br/radiobatuta), no Dia D, estreia o programa “O grão da voz”, com poemas como “O caso do vestido” recitados por Carlos Drummond de Andrade. No Brasil, tanto no Instituto Moreira Salles, do Rio de Janeiro como de São Paulo, acontecerão actividades.
Na Academia Brasileira de Letras, os académicos vão ler poemas de Drummond. A Casa de Francisca, em São Paulo, é o palco de uma homenagem a Drummond feita por dois da nova poesia brasileira: Alberto Martins e Fabrício Corsaletti. Desejamos a todos um óptimo Dia D. Sem pedras no caminho.

(adaptação de texto publicado no caderno P2, do jornal PÚBLICO de 29 de Outubro de 2011)

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