“Hoje ninguém mostra os livros que tem na estante para nos dizer quem é”

Erroll McDonald pertence ao grupo dos editores que são tão famosos como os seus autores. A trabalhar na Random House há 35 anos, publicou Lobo Antunes e Fernando Pessoa. Mas também Rushdie, Toni Morrison e Wole Soyinka. Agora, prepara-se para enfrentar o tempo dos ebooks. Por Isabel Coutinho, em Paraty

Publicou Fernando Pessoa, António Lobo Antunes e Chico Buarque num país onde só três por cento do que é publicado são traduções, os EUA. E foi duas vezes à entrega do Prémio Nobel da Literatura, em Estocolmo, acompanhar autores seus: Wole Soyinka (1986) e Toni Morrison (1993). Erroll McDonald edita livros que têm significado para ele na esperança de que venham a ter significado para os leitores. Orgulha-se, por exemplo, de ter publicado “Nigger: The Strange Career of a Troublesome Word”, a obra do professor de direito da Universidade de Harvard Randall Kennedy, que analisa a conotação da palavra “preto” na América ao longo dos tempos.
McDonald formou-se em Literatura na Universidade de Yale, onde dá o seminário “The Fiction Blockbuster and American Publishing, 1983-2007”. É também professor na Columbia University, onde incluiu o romance “Que Farei Quando Tudo Arde?”, de Lobo Antunes, como leitura obrigatória do seminário “Writing: William Faulkner and World Fiction”. Trabalha há 35 anos no grupo editorial Random House, para onde foi levado por Toni Morrison, que o conheceu no “campus” de Yale quando era editora. É vicepresidente e editor executivo da Pantheon Books e revelou-se um óptimo dançarino na última Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), no Brasil, onde esteve a convite do Brazilian Publishers. Teve ainda tempo para falar com o Ípsilon, revelar que Eça de Queirós é um dos seus autores preferidos e explicar porque é que o Brasil deve olhar para Portugal, que conseguiu estabelecer um cânone no mundo editorial de língua inglesa, se quer mudar a maneira como os estrangeiros vêem a literatura brasileira.

P.- Apesar de ser um profundo conhecedor da literatura brasileira, é a primeira vez que vem ao Brasil.
R.- É a minha primeira vez no Brasil, a primeira vez na FLIP, e estou abismado com a quantidade de pessoas que parecem estar interessadas em livros. As pessoas deslocam-se até Paraty, um sítio remoto, para celebrar esta coisa a que chamamos livro. Quando tento imaginar um festival literário como este nos EUA, acho que não seria possível.

P.- E em qualquer outra parte do mundo?
R.- Uma das coisas que aprendi hoje é que, antes de a FLIP existir, não havia nada parecido na América do Sul. Depois de Paraty ter aparecido, passaram a acontecer festivais literários um pouco por toda a parte. É uma coisa abençoada. Neste momento, em que a discussão à volta do livro está no centro das atenções, é bom ver que as pessoas estão interessadas. E estou grato que, neste exacto momento, esteja a tirar da sua mochila um iPad, porque o iPad é crucial nesta discussão. Sinto que é como se o ebook ainda não tivesse chegado a estas bandas. O entusiasmo tem ainda a ver com o objecto físico, o livro impresso, e isso é fascinante.

P.- Já não é assim nos EUA?
R.- Nos EUA a indústria do livro está a passar por um período de turbulência. Parece haver um salto em direcção ao livro electrónico. O mercado dos ebooks está a crescer tremendamente. As pessoas sentam-se com os seus iPads ou os seus Kindles no colo e descarregam livros. Quando vamos a casa de alguém, uma das coisas que as pessoas fazem é apresentar-nos livros nas estantes para nos dizerem quem são. Sempre achei isso fascinante. Mas com esta revolução, não temos a mínima ideia do que é que as pessoas estão a ler ou quais são os livros que lhes interessam.

P.- Não sei se será assim. Há uns anos, na Book Expo America, lembro-me de Tina Brown contar que nas festas todos discutiam os livros que andavam a comprar compulsivamente para o Kindle.
R.- Há uma expressão-chave na sua afirmação: “há uns anos”. Desde aí as coisas mudaram radicalmente e vão mudar mais nos próximos dois ou três anos. A economia da indústria editorial norte-americana baseia-se num acto de repetição da impressão de um livro: o primeiro é a edição do livro em capa dura, que publicamos e vendemos por 25 dólares; um ano depois, publicamos a edição de bolso por 12, 13 dólares. O que se acontece é que passa a haver uma só “impressão” de um livro: o ebook. Isso afecta completamente a indústria, que [hoje] está avaliada em 22 ou 23 mil milhões dólares, mas que ficará muito mais pequena, tal como aconteceu com a da música.

P.- Qual é a sua posição quanto ao preço de um ebook defendido pela Amazon, os polémicos 9,99 dólares?
R.- O que é interessante na Amazon é que quanto mais livros vende, menos dinheiro faz [risos]. A venda de ebooks não vai ser o futuro da Amazon. Se olharmos para os seus relatórios financeiros, vemos que os ebooks não são uma grande máquina de fazer dinheiro. Mas quando compramos um livro à Amazon, por exemplo, de literatura brasileira, eles sabem que fizemos isso. Conseguem ver se compramos um, dois ou três livros. De repente somos “um comprador de literatura brasileira” e ficamos ligados a outros compradores de literatura brasileira. Isso nunca tinha sido possível no mundo editorial norte-americano.

P.- É a primeira vez que os editores têm acesso a essa informação?
R.- Eu não tenho essa informação. É propriedade da Amazon.

P.- Quando a Amazon e a Google, e até o agente literário Andrew Wylie, se transformam em editores de ebooks, qual é o papel dos editores?
R.- Sinto-me desconfortável a falar sobre Andrew Wylie porque ele é um dos meus melhores amigos no mundo editorial, mas ele vai ter de se satisfazer com menos dinheiro. E isso não é necessariamente uma coisa má [risos].Houve uma invenção interessante, há uns anos: os “produtores de conteúdos”. Desde que os livros existam, seja em que formato, vai haver sempre necessidade de produtores de conteúdos, quer dizer, de autores e editores.


P.- Editou o “Livro do Desassossego”. É um dos raros editores americanos a publicar brasileiros e portugueses.

R.- Uma das coisas mais interessantes sobre a literatura portuguesa na América é que, se falarmos com alguém que tenha pretensões literárias, essa pessoa vai saber falar-nos de José Saramago, António Lobo Antunes e Fernando Pessoa. Mas se lhe perguntarmos “e quanto à literatura brasileira?”, talvez conheçam Jorge Amado. Por isso, tenho sugerido nestes meus dias no Brasil que o Ministério da Cultura e os editores brasileiros tentem controlar a definição de um cânone de livros e autores brasileiros na América. Neste momento só três autores em toda a história da literatura no Brasil estão completamente representados na Amazon.com. Um é Machado de Assis, outro Jorge Amado e, por fim, Paulo Coelho. Na América essa é a história da literatura brasileira.

P.- Foi o primeiro a publicar António Lobo Antunes nos EUA, nos anos 80. Como aconteceu?
R.- Publiquei “Os Cus de Judas” porque o agente literário do António Lobo Antunes [Thomas Colchie ] era meu amigo e porque era um livro poderoso. Isto aconteceu antes de Saramago, antes de tudo. O livro tinha significado porque me ensinou muito sobre a presença de Portugal em África. A grande dificuldade da tradução teve a ver com o título. Na América é muito difícil para um editor como eu chamar a um livro “The assholes of Judas”. Acabámos por lhe chamar “South of nowhere” (a edição era da Random House, 1983). Mais tarde, nas suas memórias, Gregory Rabassa [“If This Be Treason: Translation and Its Dyscontents”, do famoso tradutor de Lobo Antunes] decidiu que este título era desonesto. Seja qual for a quota de desonestidade, era necessário ser assim. [Rabassa acha que o título devia ter sido “The asshole of the earth”].

P.- Nessa altura não só escreveu que “Os Cus de Judas” era “o romance mais importante dos últimos 20 anos”, como considerou Lobo Antunes “o mais importante romancista português desde Eça de Queirós”.
R.- Eça é um dos meus escritores preferidos de todos os tempos. Thomas Bernhard é outro. “A Relíquia” é um dos livros mais divertidos que já li. O austríaco é o único escritor cujos livros são capazes de me fazer rir quando estou a viajar no metro de Nova Iorque.

P.- De onde vem este seu interesse pela literatura portuguesa, brasileira e de língua espanhola?
R.- Nasci na Costa Rica e em Yale estudei literatura latino-americana na época do “boom”. Porque noutros tempos, na América, a literatura latino-americana esteve em grande (uma invenção parisiense, a propósito). Publiquei autores como Manuel Puig, Julio Cortázar, Juan Carlos Onetti. Todos saídos dos meus interesses académicos. Publiquei também “Macunaíma”, de Mário de Andrade, “Maíra”, de Darcy Ribeiro, e o primeiro livro de Chico Buarque, “Estorvo”.

P.- Também não lhe escapou Salman Rushdie.
R.- Publiquei o primeiro livro de Salman Rushdie depois da “fatwa”, “O Último Suspiro do Mouro” [1995, Prémio Whitebread]. Antes disso tinha publicado uma antologia de contos chamada “Oriente, Ocidente” [1994]. Estávamos muito preocupados com a segurança. Salman fez uma “tournée” para promover o livro que foi muito complicada. Não viajava em classe económica [risos].

P.- É conhecido por ter descoberto aquele que veio a tornar-se o primeiro Prémio Nobel da Literatura africano, em 1986.
R.- Eu não descobri Wole Soyinka. O que aconteceu é que o publiquei numa altura afortunada. Ele começou por ser conhecido como dramaturgo e tinha as suas memórias de infância [“Aké”, 1981]… Toda a gente gosta de memórias da infância e eu tive a sorte de as ter publicado.

P.- Foi à cerimónia da entrega em Estocolmo.
R.- Estive lá duas vezes. Uma com Wole Soyinka e outra com Toni Morrison. Dos mais importantes eventos de literatura em que já estive, um foi o Prémio Nobel da Literatura e outro é a FLIP. De uma outra forma, este evento é tão impressionante como o primeiro.

P.- Lamenta ter publicado algum livro?
R.- Um dos crimes que eu cometi foi publicar uma obra-prima da literatura brasileira numa tradução que não foi a melhor possível. Era o livro de Mário de Andrade, “Macunaíma”, e tenciono redimir-me publicando-o com uma nova tradução.

P.- E o seu sonho de publicar Guimarães Rosa nos EUA, por onde anda?
Há 20 anos que tento publicar Guimarães Rosa, mas os direitos de autor têm sido uma complicação. Como agora é o Andrew Wylie que representa a obra, ele encorajou-me a fazer uma proposta forte [risos].

(entrevista publicada no caderno ípsilon do jornal PÚBLICO de 2 de Setembro de 2011)

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