A “Granta” dos brasileiros


Fotografia de Walter Craveiro/FLIP

John Freeman esteve na Festa Literária Internacional de Paraty a lançar o projecto “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros” na “Granta em português”. Por Isabel Coutinho, em Paraty

A revista “Granta em português”, publicada no Brasil pela chancela Alfaguara, da editora Objetiva, iniciou o processo de selecção para lançar, em Julho de 2012, uma edição especial com “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros” tal como já fez com os britânicos, os norte-americanos e os jovens escritores da língua espanhola. John Freeman, o editor americano desta revista literária, que já está publicada também em Espanha e em Itália, foi um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), Brasil, onde anunciou este projecto e disse que há a hipótese de Portugal vir a ter uma “Granta” também.

Em 2009, Freeman publicou um livro sobre a tirania do email (“The Tyranny of E-mail: The Four-Thousand-Year Journey to Your Inbox”), mas foi por causa da revista literária que esteve na FLIP ao lado do historiador e ensaísta mexicano Enrique Krauze, director da revista literária “Letras Libres”.

Lembrou que a “Granta”, embora seja vocacionada para a literatura, tenta fazer um retrato da realidade. “Há uma dimensão política na literatura”, disse explicando que a revista obedece a temas. “Já fizemos ‘Sexo, Dinheiro, Morte, Fama, Família, Mães’. Também fizemos nove números sobre lugares. Recentemente fizemos um sobre o Paquistão, porque me apercebi que estava no centro de tantas coisas que emergiam no mundo”.

Uma das razões por que a “Granta” passou ter, em 2003, uma edição espanhola (editada por Aurelio Major e Valerie Miles), em 2007, uma edição brasileira (a editora-chefe é Isa Pessôa e o editor Marcelo Ferroni), e desde o mês passado uma edição italiana (editada pela Rizzoli) é porque Freeman sabe que já não vivemos num mundo predominantemente anglo-americano e que estão a acontecer coisas em outros locais. “Vamos lançar a ‘Granta’ na Bulgária” disse. Era uma das nações comunistas onde havia mais liberdade de expressão, explicou o editor, mas depois do fim do comunismo perdeu a sua identidade por falta de objectivo e há agora a surgir uma nova geração de escritores. “A seguir estamos a falar com editoras em França, na Suécia, na Noruega, em Portugal talvez. E espero que isto faça com que o panorama dos livros traduzidos nos Estados Unidos ultrapasse os actuais 3 por cento. Sendo que no Reino Unido as coisas não estão muito melhores”, acrescentou.

Edições históricas

A “Granta” foi fundada em 1889, em Inglaterra, por um grupo de alunos da Universidade de Cambridge e em 1979 foi reformulada e ficou com o formato e estilo muito parecido com o que tem hoje. É publicada quatro vezes por ano e tem uma tiragem média de 70 mil exemplares, distribuídos no Reino Unido e nos EUA. Tem 45 mil assinantes e cada edição reúne textos inéditos de ficção e de não ficção. A primeira vez que tentou mostrar aos seus leitores “novas narrativas” foi em 1979, logo depois de ter sido reformulada. Foi feita uma edição, “A Nova Escrita Americana”, que apresentava aos britânicos o trabalho de norte-americanos como Susan Sontag, Leonard Michaels e Donald Barthelme. Quatro anos depois, em 1983, foi lançada a “Granta” com o título “Os Melhores Jovens Escritores britânicos”, edição histórica que revelou uma nova geração de autores como Martin Amis, Kazuo Ishiguro, Ian McEwan, Julian Barnes, Salman Rushdie. Dez anos depois, em 1993, foi publicado o segundo volume dos jovens autores britânicos e repetiuse o esquema em 2003 (com Monica Ali, Zadie Smith). Para 2013 já está a ser preparada uma nova edição melhores jovens autores britânicos. Em 1996 foi publicada a “Granta Melhores Jovens autores norte-americanos” com Jeffrey Eugenides, Jonathan Franzen e Lorrie Moore. Em 2007, saiu um segundo volume, com Jonathan Safran Foer e Nicole Krauss. Em 2010, a “Granta en español” publicou a primeira selecção dedicada aos melhores jovens autores da língua espanhola.
Foram escolhidos 22 escritores que nasceram depois de 1975 (ano que assinala o fim da ditadura em Espanha). Entre os escolhidos estão os argentinos Andrés Neuman, Pola Oloixarac (publicados em Portugal e convidados da FLIP), o peruano Santiago Roncagliolo e os espanhóis Elvira Navarro e Javier Montes. Esta edição, “Os Melhores Jovens Escritores em Língua Espanhola”, foi depois publicada pela “Granta” inglesa e no Brasil.

Na conferência de imprensa em Paraty em que foi anunciado o projecto da revista para eleger os melhores autores brasileiros com menos de 40 anos, o Ípsilon questionou a opção da escolha se limitar aos brasileiros e não abranger todos os autores da língua portuguesa, tal como aconteceu com língua espanhola. director da editora Objetiva brasileira, Roberto Feith, considerou “uma boa pergunta” e explicou que a sua editora “não tem um conhecimento do dia-adia da edição interna portuguesa” que lhes permita fazê-lo de “uma maneira tão qualificada” quanto podem fazê-lo no Brasil. “A comissão julgadora que pensámos para esse projecto é qualificada, o que é fundamental para que dê certo, e precisaríamos que essa comissão julgadora incluísse editores, críticos e autores portugueses. Não nos sentimos prontos para dar esse passo, mas pensamos poder fazê-lo em breve”, disse. “A tradição de intercâmbio da literatura latino-americana com Espanha é muito consolidada, diferentemente do que acontece com o Brasil e Portugal. Existe uma facilidade pelo facto da língua falada em Espanha e nos países sul-americanos ser virtualmente idêntica”, acrescentou. A comissão julgadora de que fala Roberto Feist é composta por sete júris: o escritor brasileiro Cristóvão Tezza (“O Filho Eterno”, Prémio Portugal Telecom, Prémio São Paulo de Literatura e Jabuti); o crítico literário, poeta e professor de literatura brasileira Italo Moriconi; o jornalista e curador da FLIP 2011 Manuel da Costa Pinto; o professor de literatura comparada e tradutor Samuel Titan; a directora editorial da Objetiva Isa Pessôa, e Marcelo Ferroni, escritor e editor da Alfaguara no Brasil. O estrangeiro escolhido pela Granta inglesa para fazer parte do júri é Benjamin Moser, o autor da biografia “Clarice”.

As inscrições estão abertas e encerram a 30 de Setembro. Os candidatos podem ser cidadãos brasileiros ou naturalizados cuja obra seja escrita originalmente em português e que tenham data de nascimento até 1972, isto é, tenham até 39 anos. É preciso enviar para a revista um conto, um excerto de romance ou um inédito. Não se aceitam textos de não-ficção, ensaio ou poesia. A edição “Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros” será lançada na FLIP do próximo ano e depois publicada em Outubro de 2012 no Reino Unido e, em 2013, nos países de língua espanhola.

(artigo publicado no caderno ípsilon de 29 de Julho de 2011)

Um comentário a A “Granta” dos brasileiros

  1. Esse concurso será uma farsa, um joguete dos editores para incluir os seus jovens escritores e divulga-los no exterior. Em entrevista a revista Epoca, Marcelo Ferroni, editor da Objetiva e um dos jurados avisou logo: “Vamos avaliar a produção anterior dos inscritos…” Um contra-senso, já que o edital do concurso não fala em nada disso e sim o que será avaliado o texto inédito enviado.
    Não me conformo, é uma injustiça com os jovens escritores de nosso país. Alguém tem que fazer alguma coisa.

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