Os escritores sedentários no Literatura em Viagem

Rui Zink apareceu vestido a rigor. Não se tratasse do LEV o festival de Literatura em Viagem, cuja quinta edição começou ontem em Matosinhos, o escritor não teria ido desencantar uma camisa havaiana ao seu guarda-roupa. O que Zink explicou à pequena multidão que ontem à tarde encheu a galeria da Biblioteca Municipal de Matosinhos para as conferências deste festival literário foi que “a verdadeira viagem é aquela que fazemos dentro de nós”.

Rui Zink afirmou que “o que de facto interessa” em todas as viagens são as pessoas, “a coisa humana”. O escritor, que comemora 25 anos do lançamento de Hotel Lusitano, olhava para a sala ao lado, onde está a exposição que já deu um livro: Subway Life, de António Jorge Gonçalves, em que se viaja pelo mundo afora. O ilustrador, contou Zink, viajava em carruagens de metro em várias cidades Tóquio, São Paulo, Estocolmo, Cairo, Moscovo, Lisboa e ia desenhando a pessoa à sua frente.

Uma grande viagem fez o navio-escola Sagres em 2010, de Janeiro a Dezembro: deu a volta ao mundo. O discurso de abertura do festival idealizado por Francisco Guedes que também organiza o Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim foi feito por Proença Mendes, comandante do barco que passou por 19 países e 30 portos em 340 dias e 5400 horas de navegação.
Entre histórias de temporais e ondas com mais de doze metros de altura, visitas de embaixadores, princesas ilustres e curiosos para se encontrarem com os seus antepassados, Proença Mendes mostrou imagens e explicou de onde vinha a inscrição nas pipas que se viam no barco: “torna-viagem”. Os marinheiros sabem que os vinhos generosos moscatel de Setúbal ou vinho da Madeira que sobravam das grandes viagens de barco quando regressavam a terra têm melhor paladar do que à partida.

Tal como o brasileiro Marcelo Ferroni, que lança em Portugal o seu primeiro romance, baseado nos últimos anos da vida de Che Guevara na Bolívia, quis dar a volta ao mundo. Nunca o fez. Um dia, ainda jovem, teve essa oportunidade, mas enfiou-se seis meses em França e de lá não saiu. A ler livros. Por isso, antes de escrever o Manual Prático de Guerrilha, o plano era alugar um jipe e ir para a Bolívia.

“Que tipo de viajante é que sou?”, perguntou à plateia. “Estou na categoria de viajante sedentário”. Por isso foi abandonando a ideia de partir e acabou a escrever “um livro de viagem a um país imaginário”. Este romance “é um livro de viagem de quem não sai de casa”, concluiu. E voltamos à frase de Zink.
(Público, 17 de Abril de 2011)

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