A minha ideia fixa

(na fotografia em cima está o Joaquim na secção diária que tem no “Globo”)

Ciberescritas
Isabel.Coutinho@publico.pt

As segundas-feiras já não são segundas-feiras desde que descobri as crónicas de Joaquim Ferreira dos Santos, no “Segundo Caderno” do jornal brasileiro “O Globo”. Ele é o antídoto perfeito para escapar ao terror do “blue monday”. Há quem rodopie pela sala, quem cante para espantar os seus males, quem vá ver o mar para que o seu dia não fique escangalhado: eu sento-me a ler Joaquim Ferreira dos Santos.

Apesar de ele conhecer Copacabana de muitos Carnavais (nasceu no Rio de Janeiro, em 1951) tem no seu guarda-roupa um boné português. Que ele usa, quando escreve as suas crónicas, em ocasiões especiais e com parcimónia. Joaquim sabe bem o que é comer tremoços ao almoço, sarrabulho aos domingos e gostar de chupar rebuçados. Embora também saiba qual o sabor da bala de tamarindo “a derramar a infância inteira” nas papilas gustativas e compreenda como “uma unha lascada depois de pacientemente pintada pode acabar com um projecto de fim-de-semana feliz.” Este carioca acredita que “escrever é desarrumar a cama” (talvez esta seja uma frase só para impressionar raparigas) e confessa nas suas crónicas que “jornalistas são sujeitos que não sabem nada com muita profundidade, mas procuram revelar essa ignorância com charme.” Espalhou as crónicas por vários livros e a um deles chamou “O que as mulheres procuram na bolsa” (ed. Record) porque sabe que quando elas começam a procurar coisas dentro das bolsas enormes não estão a procurar as chaves. Foi repórter da revista “Veja” durante mais de uma década -, editor do “Jornal do Brasil” e do jornal “O Dia” e agora trabalha n’”O Globo”.

Quando organizou e prefaciou o livro “As Cem Melhores Crónicas Brasileiras” (ed. Objectiva) -onde estão textos de Rubem Braga, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Zuenir Ventura, etc -, explicou que a crónica brasileira “tem uma cara própria, leve, bem-humorada, amorosa, com o pé na rua.” Basta ler Joaquim, todas as segundas-feiras, para se perceber que “a crónica não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz literatura também.” Nesse livro, há uma crónica de Nelson Rodrigues onde ele diz: “que seria de mim, que seria de nós, se não fossem três ou quatro ideias fixas? Repito: – não há santo, herói, génio ou pulha sem ideias fixas. Só os imbecis não têm.” Joaquim Ferreira dos Santos, às segundas-feiras, é a minha ideia fixa.

Como se não bastasse ele é também o autor da biografia “Leila Diniz -Uma Revolução na praia” (ed. Companhia das Letras), sobre a actriz brasileira que nos anos 70 se deixou fotografar grávida na praia de biquíni e “o país nunca mais foi o mesmo”, e de “António Maria Noites de Copacabana”, biografia do cronista e compositor pernambucano.

Foi por ele que vi “Palavra (en)cantada”, um documentário sobre as relações entre a poesia e a música popular brasileira de Helena Solberg e Marcio Debellian. “Um filmaço”, escreveu Joaquim e eu assino por baixo. Foi por ele que um dia me deu na veneta sair de casa e rumar ao Chiado para comprar o “Fados”, de Carlos Saura. A crónica era melhor do que o filme. Foi por ele que corri a ouvir “Acesa”, o disco onde Alcione canta “vou te viciar pra vida inteira”. Não me arrependi. E larali, larali… caí na gandaia.

Crónicas de Joaquim Ferreira dos Santos

http://joaquimferreiradossantos.blogspot.com/

(crónica publicada no caderno ípsilon de dia 15 de Abril de 2011)

3 comentários a A minha ideia fixa

  1. Isabel, fui logo no link que você disponibilizou e li alguns dos textos do Joaquim. De fato, são muito bons. Vou “estudá-lo” um pouco mais e futuramente comprar seus livros. Obrigada pela excelente dica. Abraço!

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