Espanha unida pelos atentados

(Fotografia de Nelson Garrido)

Ricardo Menéndez Salmón sentiu que a literatura tinha a responsabilidade de dar conta do que se passou a 11 de Março de 2004, em Madrid. Escreveu “O Revisor”. Por Isabel Coutinho

“Quando o primeiro comboio foi pelos ares, derramando sobre as nossas pequenas e esforçadas vidas um aluvião de sangue, cólera e medo, eu estava sentado diante da minha velha mesa de freixo australiano e corrigia umas provas de ‘Os Demónios’ de Fiódor Dostoiévski.” Eis o primeiro parágrafo de “O Revisor”, de Ricardo Menéndez Salmón, que encerra a Trilogia do Mal (“A Ofensa”, “Derrocada” e “O Revisor”) publicada em Portugal pela Porto Editora.

Dentro da história da literatura, a obra de Dostoiévski gerou muitíssimos diálogos. Era o livro favorito de Albert Camus (Nobel 1957) e J. M. Coetzee (Nobel 2003) escreveu todo um romance sobre a sua origem (“O Mestre de Petersburgo”). Agora o espanhol Ricardo Menéndez Salmón incluiu-o na narrativa de “O Revisor”, romance que se passa no dia dos atentados terroristas em Madrid, o 11 de Março de 2004. Vladimir, o narrador, é um revisor que tem o russo por seu escritor favorito.

“‘Os Demónios’ foi escrito há 140 anos e, surpreendentemente, continua a falar com muita força ao coração dos homens e mulheres do século XXI. Fala sobre a natureza humana e como, na minha opinião, esta não muda com o tempo: o livro permanece inamovível, apesar de os tempos históricos e as sociedades serem outros”, diz-nos Ricardo Menéndez Salmón sentado no auditório do Correntes d’Escritas, o encontro de Escritores de Expressão Ibérica na Póvoa de Varzim. “O romance de Dostoiévski reflecte com enorme intensidade sobre a capacidade de manipulação dos indivíduos.” Era o que lhe interessava aproveitar para o livro.

Não foi o primeiro escritor espanhol a abordar os atentados de 2004.

Mas os outros aproximaram-se do assunto, “única e exclusivamente”, do ponto de vista emocional: romances sobre a dor, sobre sentimentos. Menéndez Salmón queria que o seu livro tivesse também uma dimensão política.

Queria quebrar um “tabu”, o de que o escritor não deve ser contaminado pelas circunstâncias políticas, o que na sua opinião deixa temas inéditos na literatura espanhola. “Por exemplo, a monarquia, o questionamento do modelo de Estado que temos, a possibilidade de uma Espanha republicana”.

Na verdade o que o “convidou a dar forma literária” aos atentados foi uma comissão senatorial em que o antigo presidente do Governo ratificou as ideias que defendera naqueles dias de Março. “José María Aznar reiterou a sua ideia de que os autores intelectuais e materiais daquele atentado provinham do mundo etarra depois de ter havido uma investigação pericial e policial. Isso provocou em mim uma indignação”, explica.

Salmón confessa ser-lhe difícil transmitir a um estrangeiro como se viveram aqueles dias em Espanha, com que grau de intensidade. “Há um antes e um depois na História recente do nosso país. Aproximar-me do tema exigia uma certa distância para que os sentimentos não ficassem contaminados, por estarem tão próximos do que tinha sucedido.” Mas ao mesmo tempo, sentia que a literatura tinha a responsabilidade de dar conta do que se tinha passado. Não do ponto de vista emocional ou sentimental, mas do ponto de vista da intervenção no terreno político. Quis falar do “tipo de discurso que se lançou desde o poder a propósito do que sucedeu. E que foi, ao fim e ao cabo, o que motivou as mudanças fundamentais na sociedade espanhola naqueles dias.”

O paradoxo

A acção de “O Revisor” começa às 7h38 com a primeira explosão na estação de Atocha e termina à meianoite desse dia. Tal como a personagem principal, Ricardo Menéndez Salmón não estava em Madrid quando ocorreram os atentados. Viu pela televisão. Recorda que passou por várias fases. “Primeiro, a incredulidade.

Chegavam-nos as primeiras notícias a dizer que acontecera um atentado em Madrid e o número de mortos não parava de aumentar. Apesar de pertencermos a uma sociedade que vive há 40 anos com o terrorismo etarra, havia uma dimensão nova.

Nunca tínhamos enfrentado um acontecimento dessa magnitude. Parecia uma operação militar, com explosões em locais distintos, sincronizadas, era indiscriminado demais. O terrorismo etarra -habitualmente dirigido a militares, políticos, forças armadas, polícias -é selectivo. Neste caso foram ataques feitos, pela manhã, a comboios que levavam gente que ia trabalhar.

O que gerou nas pessoas uma suspeita, havia algo raro, que não encaixava naquilo que conhecíamos”, acrescenta.

Por outro lado, lembra, todas as pessoas tinham na cabeça o contexto do país, a intervenção de Espanha na Guerra do Iraque, o único país europeu, além do Reino Unido, que apoiou a intervenção. “Todos percebemos que aquilo levava a marca de uma vingança, de uma resposta à atitude do nosso país num conflito injusto, no sentido de que se organizou em torno de uma mentira. Todos vimos as fotos dos Açores: Durão Barroso, Aznar, Bush e Blair.” Rapidamente apareceram pistas e as televisões de todo o mundo, principalmente as norte-americanas, indicavam que a raiz dos atentados era islâmica. “Estávamos a receber a informação em directo mas sempre através de filtros e de simulacros: telefone, televisão, net. A informação que recebíamos por parte das autoridades em Espanha não era a mesma que estávamos a receber dos jornalistas de todo o mundo. Era um paradoxo.

Estávamos a ser informados do que acontecia no nosso país através dos meios de comunicação estrangeiros.

Como se o mundo tivesse recebido a informação fidedigna, verdadeira, verídica antes dos protagonistas daquele acontecimento, que éramos nós, os espanhóis. Naqueles dias houve um sentimento no país de que todo o mundo esteve em Madrid.” Ricardo Menéndez Salmon hesita por momentos e avisa que o que vai dizer pode parecer demasiado forte.

Na sua opinião, os atentados de Madrid criaram uma identidade. “Um acontecimento tão dramático, tão terrível, tão trágico foi um aglutinador de uma identidade nacional que foi sempre dispersa. Todos sentimos que fazíamos parte do que a Espanha pode representar como ideia, como imaginário, e que havia sido atacado e agredido naqueles dias.” “O Revisor” está escrito na primeira pessoa. “Nunca tinha escrito nada na primeira pessoa, a não ser algum relato e o meu último romance -que saiu agora em Espanha -tem fragmentos publicados na primeira pessoa.

Surgiu de um modo natural, durante o processo nunca duvidei desta opção.

Ao fim e ao cabo é uma voz muito pessoal a que nos acompanha ao longo da narrativa e há muito de mim na personagem de Vladimir. É um livro onde a ficção e a autobiografia dialogam com intensidade.” Há fragmentos que realmente são reais. Por exemplo, quando Ricardo começou a escrever este livro, em 2005, era desconhecido em Espanha. Editava em pequenas editoras, era revisor e várias vezes sentiu a tentação de abandonar a carreira de escritor. “Em toda a autobiografia há elementos de ficção e em toda a ficção elementos autobiográficos. Neste livro tudo isso está unido e é difícil de separar o que é realidade do que é ficção. Mas alguns dos episódios que se contam são da minha vida, parte da recriação do dia de trabalho da personagem parece-se à minha vida, parte das pessoas que me rodeiam são como eu as apresento no livro”, conta.

Neste livro o poder é manipulador, o poder é mentiroso. Vladmir, a personagem principal, indigna-se mas ao mesmo tempo ele próprio esconde uma pequena (grande) mentira. “Pareceu-me que esse era um bom retrato.

Por muito transparentes que queiramos que os demais sejam, por muita procura da verdade, também guardamos nas nossas vidas os nossos esqueletos nos armários. Pareceu-me interessante introduzir essa vida dupla do protagonista como um espelho em que mirar-se. Também acredito que naqueles dias o que sucedeu em Madrid obrigou-nos a olhar para dentro.

Mostrou-nos como é frágil a nossa vida num contexto de terror. Tivemos um momento para ajustar contas connosco, com os seres que amamos, que perdemos, com os seres que ganhamos ou nos ganharam. Deu-se esse duplo movimento para fora, de expressão de uma dor, e para dentro, de reflexão sobre a fragilidade da vida.

Por isso o romance tem um final com esperança. Neste caso, o amor pode ser em momentos de grande dor uma amarra, um refúgio onde se pode encontrar alívio.” A Trilogia do Mal começou com “A Ofensa”, seguiu-se “Derrocada” e “O Revisor”. Quando acabou Ricardo sentiu necessidade de respirar outro ar. O romance que publicou em Espanha o ano passado, “La Luz es más antigua que el amor”, é um livro sobre pintura e a criação. “Sobre capacidade da arte para consolar-nos, para ser uma janela de esperança dentro de um mundo que às vezes é intolerável”.

(publicado no caderno Ipsilon de 11 de Março de 2011)

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