O que eles devem à Gallimard, que faz 100 anos

O “Nouvel Obs” pediu a 12 escritores para contarem aos seus leitores o que devem à Gallimard.

A editora Gallimard faz 100 anos. Tudo começou no dia 31 de Maio de 1911 quando Gaston Gallimard, André Gide e Jean Schlumberger – dois dos fundadores da “Nouvelle revue française” (NRF) – criaram as Editions de la Nouvelle revue française. Cada um investiu três mil francos. Oito anos depois, a editora passou a ter o nome de Librairie Gallimard.
No primeiro catálogo, publicado em Junho de 1911, lia-se: A Gallimard “não publicará um grande número de títulos; a editora propõe-se criar uma grande colecção de obras escolhidas e editadas com grande cuidado”. Isso não evitou que em 1913 “La recherche du temps perdu” tivesse sido rejeitado. Marcel Proust enviou o manuscrito para a editora mas Gide rejeitou-o dizendo que tinha “duquesas e condessas a mais para aquele género de editora”. Mais tarde, escreveu uma carta a Proust: assumia que estava com remorsos. Cem anos depois, a editora já publicou mais de 40 mil títulos e tem autores que vão desde Aragon a Yourcenar, Sartre, Joyce, Faulkner, Céline, Queneau, Camus, Duras, Kerouac, Kundera, Le Clézio e Modiano.
Para comemorar o centenário em França, vai ser publicado um livro de homenagem a Claude Gallimard (em Março) e para Maio está prevista a saída da correspondência entre Gaston Gallimard e Jean Paulhan, André Gide e Jean Giono, além do livro “5, rue Sébastien-Bottin”, de Roger Grenier.
De 22 de Março a 3 de Julho na Biblioteca Nacional Francesa inaugura uma grande exposição dedicada à editora, e no dia 21 de Março, no canal Arte, passa o documentário “Gallimard, le roi Lire” de William Karel. Para o final de Março está a ser organizada uma semana de leituras no l’Odéon Théâtre de l’Europe.
O “Nouvel Obs”, no dia 3 de Fevereiro, pediu a 12 escritores, dois prémios Nobel, para contarem aos seus leitores o que devem à Gallimard. Jonathan Littell, o autor de “As Benevolentes”, diz que não é por acaso que todos os aqueles que construíram a ideia que ele tem da literatura foram publicados no século XX na Gallimard (Blanchot, Bataille, Genet, Artaud, Foucault, Leiris, Duras, Paulhan). “Haveria muito a dizer sobre esta editora e sobre a excepção que ela ainda é na edição contemporânea. (…) O que faz a sua força acima de tudo é que ela não publica livros, mas obras”, diz.
“Era um tempo sem internet, nem telemóvel, sem computadores. Para um jovem que queria escrever, fazer-se entender, criar qualquer coisa – ou simplesmente movido pela vaidade de se fazer conhecer, sem relações nem experiência, parecia um combate perdido à partida”, conta o prémio Nobel Jean-Marie Gustave Le Clézio, que nessa época enviou o seu manuscrito à Gallimard e ela publicou-o. “Mas imagino que hoje, à hora em que estamos a falar, um jovem autor, uma jovem autora, no momento de enviar o seu texto por email pensa sempre neste esforço pelo qual as palavras únicas e preciosas vão ultrapassar a muralha de água da indiferença e do aborrecimento até à terra firme da Gallimard, para viverem ou se calarem para sempre”.
Por sua vez Orhan Pamuk, outro prémio Nobel, conta que nos anos 1950 o seu pai ia a Paris – para se inspirar e escrever – e deixava a família em Istambul. No regresso trazia sempre as primeiras edições de Gide, Malraux, Sartre, Camus e os espessos volumes da Pléiade que acabavam de sair. “Foi assim que descobri a Gallimard com a idade de 5 anos. O meu pai explicava-nos a importância desta editora com os livros brancos ligeiramente amarelados – que 50 anos mais tarde mostrei a Antoine Gallimard quando ele veio a Istambul.” E termina dizendo: “Tal como Rousseau, Paris, ‘les Encyclopédistes’ ou Truffaut, a Gallimard faz parte da imagem indissociável que tenho da França”. O mesmo acontece a todos nós.

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4 comentários a O que eles devem à Gallimard, que faz 100 anos

  1. Olá ! Por gentileza, necessito enviar uma carta por correio ou e-mail para a Gallimard, mas não tenho os endereços. Por favor, poderia enviar-me?
    Desde já agradeço.

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