As escolhas de Paula Rego


(quadro de Lucian Freud)

 

Pintora fez selecção de obras do acervo da colecção do British Council, permitindo uma nova visão da arte britânica contemporânea. Robert McPherson e Diana Eccles revelam My Choice Por Isabel Coutinho

Robert McPherson, a quem Paula Rego deve a primeira exposição que fez no Reino Unido nos anos de 1980, calça luvas brancas. Ouve-se o barulho de parafusos a serem desapertados.
Um burburinho na sala, seguido da azáfama habitual da montagem de uma exposição. Saltam os parafusos, retira-se a tampa e eis que surge de dentro da caixa de madeira o quadro Rapariga Nua com Ovo (1980-81), de Lucian Freud.
Com todo o cuidado, Robert segura a peça que está entre as 120 escolhidas da Colecção British Council pela pintora Paula Rego para a exposição My Choice, que abre amanhã na Casa das Histórias, em Cascais. Diana Eccles, conservadora da colecção de arte do British Council (BC), sorri. “Paula Rego viu todo o nosso acervo, mostrámos-lhe tudo. Quando abrimos a caixa onde estava este quadro, não disse, como seria de esperar: ‘Oh meu Deus, é um Freud!’ O que Paula disse foi: ‘Oh meu Deus, é Celia!'”, conta.

Paula Rego é amiga da pintora Celia Paul, aqui retratada, e foi por essa ligação pessoal que seleccionou o quadro de Freud, que foi seu professor na escola de artes. Na exposição My Choice estão mais duas obras de Freud: Cabeça de Rapariga I e II (1982), duas águasfortes que retratam a sua filha Ib. Este projecto começou, quando, em 2010, Paula Rego foi convidada pelo BC para ser comissária de uma exposição de obras do seu acervo. A mostra Thresholds foi apresentada na Whitechapel Gallery, em Londres. Agora, é uma versão revista e aumentada a que pode ser vista, até 12 de Junho, em Cascais. Muitas das escolhas foram apoiadas no que Paula Rego sentia em relação aos quadros, mais do que no nome dos artistas que os pintaram.

“Por isso a selecção é muito ecléctica. A visão que Paula Rego tem da arte britânica está aqui. Não imagino outro curador de pintura no Reino Unido a fazer este tipo de escolhas. É uma visão muito, muito particular, a dela”, acrescenta Diana Eccles, que depois de ver as obras seleccionadas passou a ter uma ideia diferente da arte britânica. Ficou com a sensação de que os britânicos são “mais humanos e mais amáveis” do que pensava que eram. “Podemos ser bastante sarcásticos, mas Paula viunos frequentemente com uma veia muito mais gentil do que nos vemos a nós próprios.” A colecção do BC começou a ser feita no final dos anos de 1930, hoje é constituída por oito mil obras de arte dos séculos XX e XXI. Como não têm um local de exposição permanente chamam-lhe “Museu sem Paredes”. As obras são cedidas por empréstimo e viajam pelo mundo com o objectivo de promover a arte britânica.

Paula Rego encontrou imagens de “todos os tipos e de todas as eras” neste acervo. “Ela foi à procura do trabalho e não dos nomes. Podiam até ser artistas que foram esquecidos. Ou até podiam ser artistas muito conhecidos como Cecil Beaton (1904-1980)”, explica Robert McPherson. Na exposição estão fotografias que o cenógrafo de My Fair Lady tirou quando era adolescente.

Não é por acaso que a primeira obra desta exposição é Mapa de Nenhures (2008) de Grayson Perry. Ele, que foi o vencedor do Prémio Turner em 2003, inspirou-se na Utopia de Thomas More e nos mapa-múndi medievais. “Paula Rego é uma grande admiradora do trabalho de Perry. Todas as citações nesta obra são muito contemporâneas, o quadro convida-nos a olhar para ele e a descobrir as histórias que estão lá e é uma espécie de brincadeira com a sociedade britânica”, explica Diana Eccles. Como a pintora adora desenhar e as histórias que aparecem no quadro são daquelas que lhe agradam, pareceu-lhe uma boa porta de entrada para a exposição.

Pintar em 30 minutos

Para Robert McPherson uma das originalidades de My Choice é a escala. “Muitos dos trabalhos apresentados nesta exposição têm uma escala pequena, são desenhos, são papéis, coisas que habitualmente não se vêem. Paula tirou muito prazer de andar à procura de coisas que tivessem uma história, que ficassem bem juntas cabeças, mães e filhas, há uma grande humanidade na exposição e também algumas surpresas, como seria de esperar com a Paula. Ela fala-nos de uma maneira que nos deixa intrigados e, de repente, tem ali uma história.” O quadro maior da exposição é de Patrick Caulfield, que, como outros artistas representados, era amigo de Paula Rego, morreu em 2005. Chama-se The Blue Posts (1989), apesar de ser verde. É o nome de um pub em Londres. Está ao lado das 39 águas-fortes que David Hockney fez dos contos dos irmãos Grimm.

Entre os trabalhos favoritos de Paula Rego estão as fotografias de Madame Yevonde (1893-1975), uma delas foi escolhida para o convite. Uma Costura no Verão (1937) é a fotografia colorida que lhe dá “asas de fada” mostra uma mulher nua a coser um véu azul.

A artista utilizou um processo que permite usar pigmentos na fase de exposição e na impressão das fotografias, conhecido por “vivex”, e assim obter cores vibrantes, com uma densidade e riqueza impossíveis de alcançar por outros processos fotográficos dos anos 30.

Ficaram admirados por alguma coisa que Paula Rego não escolheu? “Fiquei admirada por uma que escolheu. Uma obra de pequenas dimensões de Chris Ofili (ganhou o Prémio Turner em 1998 e representou a Grã-Bretanha na Bienal de Veneza em 2003). E pela obra de Jake and Dinos Chapman, os irmãos que trabalham em Londres, que faz parte de uma série de retratos que pintaram durante a Frieze Contemporary Art Fair, de 2006”, conta Diana. Mediante o pagamento de determinada quantia, dedicavam 30 minutos a cada pessoa que quisesse ser pintada, o retrato escolhido é de Andrea Rose, directora do Departamento de Artes Visuais do BC. “Quando Paula o viu, lembrou-se da nossa directora e isso fê-la rir.” Andrea Rose estava renitente, mas a capacidade de persuasão de Paula Rego autorizou a sua inclusão. A pintora tem uma grande simpatia pelos artistas jovens e mantém contacto com a arte contemporânea.

Acompanhar Paula Rego nesta escolha foi para Diana Eccles uma enorme revelação, a pintora falava de cada peça de arte que escolhia de uma “forma tão bonita… Ela conseguia ver a história por trás do quadro, falava das janelas, das portas, das paisagens que ficavam para lá das casas. Foi maravilhoso. Absolutamente maravilhoso”.

(reportagem publicada no PÚBLICO de 9 de Fevereiro de 2011)

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