Fiama, a poeta que gostava de andar por aí




Durante dois dias recordou-se a escritora Fiama Hasse Pais Brandão num colóquio na Casa Fernando Pessoa. Académicos e amigos fizeram o retrato da sua obra e partilharam momentos da sua vida.
Por Isabel Coutinho

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007) está a ler poesia e tem sentado a seu lado o poeta Eugénio de Andrade (1923-2005). Este encontro, que aconteceu há muitos anos no Porto, foi filmado e exibido no colóquio dedicado à escritora que, durante sexta e sábado, decorreu na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. Académicos portugueses e brasileiros especialistas na sua obra, amigos e poetas recordaram a sua personalidade.
No vídeo, Eugénio de Andrade começa a fazer perguntas à poeta que gostava de “andar por aí”. Quer saber como é que a poesia lhe apareceu. Fiama Hasse Pais Brandão, com o seu ar sereno, óculos quase na ponta do nariz e o cabelo com franja, está a contar-lhe que reunia a família com bilhetes pagos. Ela e a avó “poetavam” as duas em conjunto.
Diz a Eugénio de Andrade que o primeiro poeta que leu foi Sophia, o livro Coral. O poeta estranha: “Coral?! Ou primeiro algum livro infantil?” “Não”, continua Fiama, “os livros infantis foram os de Aquilino Ribeiro, O Romance da Raposa, que eu não entendia mas ficava admirada com as palavras. Adorava aquelas palavras que não entendia.”
O Coral (terceiro livro de poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, ed. Caminho) apareceu-lhe quando Fiama tinha 14 ou 15 anos, também oferecido por essa avó. “Foi uma maravilha, foi uma sorte”, diz ela nesse encontro gravado em vídeo. “Curiosamente um livro que Sophia destruiu”, acrescenta à conversa Eugénio de Andrade. E conta que um amigo muito dedicado o apanhou, reconstituiu e colou pedacinho a pedacinho. Enviou-o a Sophia, que reconsiderou. “Assim se salvou o livro”, afirma Eugénio de Andrade, que sabia que Coral era o nome do gato de Sophia. Lembra o poema -“Ia e vinha/ E a cada coisa perguntava/ Que nome tinha” -, exactamente como fazem os gatos, diz, e conta que numa ocasião defendeu essa teoria e Sophia não gostou nada. “Parecia-lhe que o poema assim ficava diminuído. Não sei porquê”, conta o poeta a rir-se.
É mais tarde, já no antigo sétimo ano do liceu, que Fiama Pais Brandão descobre a obra de José Régio e se interessa pelo teatro, chegando a fundar o grupo Teatro Hoje, em 1974, com o poeta Gastão Cruz, que foi casado com ela. Esta avó, de que Fiama falava a Eugénio, foi lembrada por diversas vezes nas sessões na Casa Pessoa.

Ao som de Camões
A tia Carolina, irmã do pai de Fiama, esteve os dois dias do colóquio muito atenta na segunda fila da plateia. Conta que a sua mãe, Emília, cultivou a imaginação de Fiama. Numa altura em que viviam na mesma casa, em Coimbra, levantavam-se e vestiam-se todos os dias ao som das poesias de Camões e outras que essa avó de Fiama declamava. “Foi uma preceptora. Já sabem onde vão procurar todo o rigor e toda a cultura que a Fiama levou antes de entrar na universidade. Não estou a diminuí-la, estou só a procurar dar uma solução ao vosso espanto”, defende tia Carolina perante os académicos que se encontravam na sala. Gastão Cruz, que foi um dos organizadores deste colóquio, lembrou que a relação de Fiama com os pais nem sempre era a melhor, ela tinha um “espírito indomável” perante um pai superprotector, e a avó, de que falava a tia Carolina, “era de uma grande cultura e sensibilidade” e foi muito importante na sua formação. A poeta Maria Teresa Horta, que, com Fiama Pais Brandão e Luíza Neto Jorge, foi uma das três mulheres publicadas nos cadernos Poesia 61, que integrava também Casimiro de Brito e Gastão Cruz, recordou os tempos em que as três mulheres se conheceram. A co-autora das Novas Cartas Portuguesas juntava os amigos em sua casa (os cineastas João César Monteiro e Seixas Santos viviam no mesmo prédio) naquilo a que chamam agora “sarau literário” e de onde nasceu a ideia de fazerem uma revista de poesia que acabou por ser um conjunto de cinco pequenos cadernos, publicados simultaneamente, envolvidos por uma capa comum, ilustrada pelo Manuel Baptista. Teresa conheceu Fiama por causa de António Ramos Rosa e é a ele que se deve o encontro desses poetas da mesma geração, que acabaram por criar um movimento.Tal como aconteceu a Gastão Cruz, o poeta Nuno Júdice também conheceu Fiama na Faculdade de Letras de Lisboa, onde ela era uma “figura mítica”. Mas só depois do 25 de Abril, quando morava no Saldanha e era vizinho de Carlos de Oliveira, é que passou a vê-la mais frequentemente. “Dia sim dia não, depois do almoço eu ia ter com Carlos de Oliveira e por essa mesa de café passou quase toda a literatura portuguesa da segunda metade do século XX: Herberto Hélder, José Cardoso Pires, Eugénio de Andrade, Mário Castrim, Augusto Abelaira, diga-se um nome e ele passou por lá”, afirma.

Tudo serve a poesia
Fiama começou a aparecer regularmente nessa tertúlia. Era uma pessoa fascinante pela maneira como falava da poesia, dos livros e da literatura, e também pela selecção que fazia desses livros. “Quando ela falava de um livro, era uma maneira de eu encontrar pistas de leitura”, continua a contar Júdice. Das sessões de leitura que teve com ela em festivais de poesia, em Portugal e no estrangeiro, Nuno Júdice lembra-se de uma viagem que fizeram à Roménia. Conta que a importância que ela dava à palavra, quando lia os seus poemas, tocava as pessoas mesmo quando ouviam um poema numa língua que não conheciam. “O que ela dizia até prescindia do sentido, a voz dela, de certo modo, era já a expressão de qualquer coisa a que se podia dar o nome de poesia”, afirma.
Nessa viagem foram um dia ao delta do Danúbio. No regresso a Constança, na Roménia, estava marcada uma visita a umas ruínas românicas. Quando lá chegaram era praticamente noite cerrada e os guias insistiram que se cumprisse o programa. Alguns dos poetas ficaram na camioneta, mas Fiama quis ir, mesmo sem se ver absolutamente nada, ouvir a explicação do guia. “Quando volta à camioneta, ela, que também tinha humor, disse: “Estive numa peça do Ionescu.”” Isto confirma que Fiama tinha uma enorme curiosidade por tudo porque tudo lhe podia servir, de certo modo, para a poesia.
Houve um tempo em que Nuno Júdice andava muito interessado em doutrinas herméticas e se enfiou na Biblioteca da Ajuda à procura de textos dos séculos XVI e XVII. “No meio disso encontrei um manuscrito, e não estou a inventar, com um poema atribuído ao Camões. Copiei-o, não dei grande importância àquilo, mas quando Fiama publicou O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (1985) mostrei-lhe o poema em que se comparava o sangue de Cristo ao leite da virgem. A Fiama leu-o e disse: “Mas isto é Camões, vai ao encontro da minha tese do Camões hermético””, conta o escritor para quem a poesia de Fiama, à primeira vista, parece que está nas nuvens mas para quem a amiga era uma pessoa extremamente atenta ao real. “Quando ela fala da natureza, das plantas, ela conhecia o que falava”, diz. E isso fá-lo recordar outro episódio. Um dia, Nuno Júdice estava num colóquio com Eugénio de Andrade e havia flores pousadas na mesa. Eugénio olhava para as flores e perguntava intrigado: “Como é que estas flores se chamam?” No final da conferência, disseram-lhe o nome das flores e Eugénio respondeu: “Ah, mas eu passo a vida nos meus poemas a falar destas flores!” Isto nunca aconteceria com Fiama, ela própria era jardineira e cultivava flores no seu jardim.

Sempre desarmante
Quem conheceu mais tarde, nos anos 80, a autora de Barcas Novas foi o poeta Fernando Pinto de Amaral. Na Casa Fernando Pessoa lembrou a tradutora que Fiama também foi e que ficava transtornada ao ver certas traduções demasiado literais, que tinham resultados muito pobres, “muito rasteiros em português”. Fernando costumava dar-lhe boleia de carro para os seminários de tradução de poesia que se realizavam na Casa de Mateus, em Vila Real. “A conversa dela ao longo da viagem era realmente fascinante. Para lá das referências todas que tinha, a sua conversa não era intelectualizada no mau sentido. Era desarmante em certas coisas e muito engraçada. Tinha um fino sentido de humor. Provavelmente quem não a conheceu poderá, eventualmente, lendo a poesia dela, ficar com essa dúvida. Mas tinha-o de facto.”
Um dia estavam os dois a regressar da Casa de Mateus e a entrar na auto-estrada. Antes da máquina para se retirar o bilhete, apareceu o aviso onde se lia: “Retire o título.” A primeira coisa que Fiama lhe disse foi. “Olhe, se passar aqui o conde, já não é conde. Têm que lhe tirar o título, é uma auto-estrada democrática.” Tinha comentários destes a propósito de tudo e de nada, conta Pinto do Amaral, o que contrastava com o tom de voz dela e a sua figura física.
Quem quiser conhecer melhor Fiama Hasse Pais Brandão tem agora mais uma oportunidade. Durante o colóquio foi lançada a antologia poética Âmago, coordenada por Gastão Cruz, com as colaborações de Carlos Mendes de Sousa, Jorge Fernandes da Silveira, Maria de Lourdes Ferraz e Rosa Maria Martelo, e que tem por missão ser mais manuseável que a anterior obra completa da autora, Obra Breve, de 1991, também editada na Assírio & Alvim.

(artigo publicado no P2 de 2 de Novembro de 2010)

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