“A literatura não é feita de papel”

 

Chris Meade, director do if:book london, está zangado consigo próprio por causa dos anos em que andou a promover a página, o papel, e não as palavras, que é o que realmente importa. Por Isabel Coutinho

Chris Meade costumava trabalhar com poetas antes de se ter dedicado ao futuro do livro. Este britânico que é o director do if:book london, uma organização britânica que explora as potencialidades criativas dos novos media para leitores e escritores e está ligada ao Institute for The Future of the Book de Nova Iorque, já foi director da Sociedade de Poesia britânica. Na palestra The amplified author and the creative reader (qualquer coisa entre o autor amplificado e o leitor criativo) que veio dar à IV Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura dedicada ao tema Ler no século XXI – Livros, Leituras e Tecnologias, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, contou que de alguma maneira continua a trabalhar com poesia.

“A Web parece-me ser a casa natural para a poesia. O local certo para se porem textos, para se fazerem apresentações ao vivo, animações ou tudo isto ao mesmo tempo”, disse em cima do palco, Chris Meade, com um tablet na mão.

Este britânico que foi também director do Booktrust, uma organização não lucrativa que promove o livro e a leitura, sabe que com a World Wide Web se podem resolver problemas fundamentais como o do acesso aos livros. Basta um computador para acedermos a livros sem precisarmos de entrar em lojas ou instituições assustadoras.

O autor amplificado

Por outro lado, agora, qualquer pessoa pode colocar o seu trabalho num blogue e apresentálo ao mundo sem precisar de passar por um editor tradicional. Chris Meade fala do “autor amplificado”. O poeta William Blake encaixar-se-ia nesse conceito. Nada parecido com um escritor sentado, sozinho, fechado ao mundo a escrever.

“Finalmente, aquilo de que falávamos quase como uma metáfora, de que ler era uma actividade criativa em que estávamos empenhados, passou a ser uma realidade. Mas os amantes dos livros não tinham a mesma opinião. Achavam que eu me tinha mudado para o lado negro e que tinha passado a odiar livros”, continua a contar.

Temos vindo a perder algumas das batalhas pela leitura. Falamos dos livros como sendo a leitura óptima para nos ajudar a adormecer ou para levar para férias… Alguém disse a Chris Meade que adorava ler porque a leitura ajudava a desligar. “Mas se ler realmente importa, a leitura tem de nos ligar!”, quase grita e dá o exemplo da sua mãe de 80 anos, que é da geração que se identifica com o livro impresso mas vê televisão, navega na Internet e gosta de ver os filmes que adaptam os seus livros preferidos.

“Somos todos mais transversais e mais multimédia do que gostamos de pensar que somos”, afirma. “A primeira vez que se lê um livro num ecrã, como o de um iPad, percebemos intensamente que o livro não é um objecto. É uma experiência, acontece na nossa cabeça e acontece no nosso coração. A literatura não é feita de papel.” Ficou zangado consigo mesmo por ter andado tantos anos a promover a página, o papel, e não as palavras, que é o que realmente importa.

Para ele, os livros impressos são apenas recordações da nossa visita. Quando viaja para um país onde não percebe a língua, olha para os livros, certamente interessantes, como se fossem pedaços de madeira que não consegue descodificar.

Mas aquilo que realmente entusiasmou este especialista foi o aparecimento do iPad, o tablet da Apple com as suas diversas aplicações. “O momento do iPad parece-me muito mais importante do que a chegada dos e-readers que só permitem ler livros electrónicos num ecrã.
De repente, a literatura ocupa o palco principal. Se queremos chegar às gerações mais novas, em qualquer parte do mundo, temos de perceber que elas estão a olhar para um ecrã: têm um telemóvel nas mãos e estão a olhar para ele. Se queremos chegar às pessoas, é no telemóvel que devemos colocar os conteúdos.”

A revolução do iPad

É verdade que os tablets andam por aí há anos, mas, diz Chris Meade à Pública depois da conferência, a diferença é que agora as pessoas pensam neles quando querem ler livros. “É possível ler, agradavelmente, num ecrã de um aparelho que também serve para navegar na Internet e para ver filmes. De repente, parece-me óbvio que devemos juntar tudo isto. É o local certo para se publicar desta nova maneira”, explica.

“Subitamente, percebemos que escrevemos e criamos em aparelhos digitais onde é mais natural publicar. As aplicações com potencialidades multimédia são muito mais interessantes para publicar um livro do que o papel, que reduziria todas essas possibilidades tecnológicas.”

O que é um livro?

Voltamos ao mesmo tema. O que é um livro? Tem havido uma evolução ao longo dos séculos mas a verdade é que os livros são um símbolo de liberdade, diz Chris e acrescenta: “E agora chegou a altura de criarmos novos livros.” Na verdade, eles já estão por aí. Já existem livros com texto tradicional a que se juntam ficheiros áudio, notas, vídeos, etc. “Isso parece-me ser muito chato, é só um primeiro passo, acredito que vão aparecer por aí uns Beatles com novas ideias”, diz Chris Meade, para quem a verdadeira revolução são os conteúdos.

Este é um momento tal como quando se inventou a rádio e se esperava que alguma coisa brilhante fosse feita. “Acontece sempre assim. Primeiro, transportamos para o novo meio aquilo que já conhecemos. Colocamos um texto de Charles Dickens e um vídeo, mas o momento verdadeiramente emocionante vai ser quando alguém, um génio, inventar alguma coisa que nunca foi feita. Acredito que é possível fazê-lo agora, não se trata só de termos disponível a tecnologia, tratase também da nossa relação com a obra”, acrescenta.

As pessoas costumavam escrever ficção porque tinham o controlo, uma pessoa podia criar um mundo inteiro sentada à sua secretária. Pelo contrário, um filme já envolvia um realizador, uma equipa, um grande orçamento. Há muitos anos, para se fazer um CD-ROM, era necessário um grande investimento, agora um escritor pode fazer vídeos muito baratos, pode misturar uma data de coisas sempre com o seu ponto de vista autoral utilizado em diferentes media.

A qualidade de um livro

“Também agora podemos ver um vídeo deitados na cama, cada noite um bocadinho, podemos carregar no stop e no replay. As séries de televisão e os filmes podem ser agora vistos como se fossem romances, lidos, aos poucos, na cama. A maneira como lemos e escrevemos o mundo, como criamos e recebemos as coisas, mudou.” Estes livros digitais, animados e multimédia podem ter o mesmo efeito que um livro impresso. Podemos sentarnos com os nossos filhos mais pequenos e interagir com eles nesse livro digital. Os pais podem falar sobre o que vão lendo, ajudar o filho a preparar-se para dormir em vez de acordá-lo com um jogo num computador. “É assim que definimos a qualidade de um livro. Um jogo de computador tem de ser excitante e dinâmico. Um livro é talvez mais refl ectivo, contemplativo, inteligente. Por isso, como fazemos uma coisa digital que tenha estas qualidades? E como é que o analisamos para termos a certeza de que o tem?” É nisto que Chris e a sua equipa têm estado a trabalhar. Dá como exemplo o trabalho desenvolvido pela editora britânica Winged Chariot, que tem um director português, e publica livros online para crianças muito pequenas.

Criaram uma aplicação para o iPad de um livro em que os pequenos leitores vão pressionando num botão e lêem a obra em diferentes línguas. “É uma forma fantástica de mostrar às crianças como funcionam as outras línguas” e o Instituto para o Futuro do Livro e o if:book london está a preparar um projecto com eles para ser seguido nas escolas britânicas.

Mas e se o iPad não for o aparelho que vai vingar no futuro e sim aparelhos como os telemóveis, que andam sempre connosco no bolso e onde também se podem ler livros? “Se o iPad não for o instrumento que vá vingar no futuro, talvez isso não seja um problema. A grande descoberta são as aplicações que ocupam todo o ecrã. Sempre assumimos que o computador nos bombardeava com coisas, líamos o nosso e-mail e olhávamos para um web site ao mesmo tempo e as pessoas apareciam-nos de surpresa a quererem falar connosco no Skype. É caótico. A aplicação significa que podemos entrar profundamente na leitura de um livro ou ver um filme e isso tem a qualidade da leitura de um livro em papel. Isso é importante, esta coisa da atenção que damos a uma série de coisas diferentes ao mesmo tempo, as pessoas estão a discutir muito isso hoje em dia. Tradicionalmente, as pessoas sempre disseram que não podíamos deitarnos confortavelmente com um computador portátil nas mãos, mas podemos deitar-nos confortavelmente na cama com um iPad ou outro tablet nas mãos. E isso faz uma grande diferença.”

(artigo publicado na revista Pública, do jornal PÚBLICO de 24 de Outubro de 2010)

Esta entrada foi publicada em Bibliotecas, Desarrumados, Entrevista, Internet com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/ciberescritas/2010/11/01/a-literatura-nao-e-feita-de-papel/" title="Endereço para “A literatura não é feita de papel”" rel="bookmark">endereço permamente.

3 comentários a “A literatura não é feita de papel”

  1. Estamos a entrar no novo tempo de que fala Eduardo Lourenço?
    É que no conceito de livro ainda está a relação que temos com ele. O “cheiro do papel”ainda faz parte da sua essência. O livro ainda é mais do que a informação que veicula. A literatura também é feita de papel.
    Isso não significa que as palavras não tenham valor para além do seu suporte, que não se encontrem ou desenvolvam novas relações e se constituam novos significados. Não podemos negar o “novo tempo”.

  2. Interessante; mas a despeito dos avanços tecnológicos que estimulam a difusão literária em diversas mídias, penso que este não é um processo excludente, porque há uma dimensão física – o livro de papel – que ocupa um lugar insubstituível. Neste caso diria que a literatura não é feita – apenas – de papel.

  3. Muito interessante. Como sempre tenho defendido, para muita gente, mais do que um fetiche, um livro é um conteúdo informacional que pode ser independente do suporte físico. Já se escreveram livros em tijolos e placas de argila, na pedra de paredes, em papiro, em pergaminho, em papel, houve a revolução do livro impresso, agora vivemos a do e-book, ainda sem saber como se vai posicionar relativamente ao mano em papel. Persistem muitas interrogações a par de uma quase certeza: o e-book está aí para ficar. Seria bom que os nossos editores o vissem com olhos mais simpáticos: comprei um e-book à Mediabooks para testar o sistema, não recebi o ficheiro epub, e querem que instale tralha da Adobe que nada me interessa para o poder ler, sem nenhuma garantia de que tal seja possível no meu Kindle. Pior, nem respondem aos meus mails. É assim que se perdem clientes e leitores.

Deixar um comentário