Romance ao vivo

Ciberescritas
Isabel.Coutinho@publico.pt

Um romance que se vai construindo à frente dos nossos olhos? Não é a primeira vez que alguém tem esta ideia. Há muitos, muitos anos, já se escreveu nesta crónica sobre a experiência do escritor brasileiro Mário Prata, que permitiu que os seus leitores espiassem o seu computador ao mesmo tempo que ia escrevendo um novo romance mais tarde editado em papel. Foi em 2000, era o policial “Os Anjos de Badaró” (Editora Objetiva), escrito inteiramente online; uma média de 4000 pessoas assistiam diariamente ao autor a escrever.

Agora, como se costuma dizer: “the plot thickens”.

Nas próximas semanas, 36 autores de língua inglesa vão juntar-se para escrever um romance de 60 mil palavras em seis dias. O projecto chama-se “The Novel: Live!”, que é uma maneira de dizer que vamos ver ao vivo como se faz um romance.

A maratona começa no dia 11 de Outubro, no âmbito do Arts Crush, um festival que durante um mês acontece na área de Seattle, EUA. O plano já está traçado. Na véspera, às 18h, na festa de lançamento da Arts Crush Literary Week, serão lançadas as pistas da história: os temas, as personagens e os locais onde se desenrola a acção. Às 10h de dia 11, o primeiro autor vai sentar-se ao computador no palco do Hugo House’s Cabaret. De duas em duas horas, sentar-se-á naquela cadeira um novo autor para “assumir o controlo” do computador e da história que está a ser escrita. Vai ser assim até o romance estar completo, na noite de 16 de Outubro.

Entre os autores escolhidos para este projecto estão Garth Stein, Jennie Shortridge e “best-sellers” como Jamie Ford e Elizabeth George. Estes poderão ter o apoio dos seus agentes ou editores e ainda da famosa bibliotecária de Seattle, Nancy Pearl, que tem um “site” e é a autora de “Book Lust”. Garth Stein, um dos organizadores e participantes, conta que, quando tiveram esta ideia, pensaram: “É impossível, é demasiado maluco!” Mas depois aperceberam-se de que todos sentiam a mesma coisa quando começavam um novo livro: “Não vamos conseguir levar isto até ao fim”.

E, depois, conseguiam sempre. Decidiram arriscar.

Além de se poder ver tudo num ecrã que estará na Hugo House (a assistência poderá dar sugestões), vai ser possível seguir em directo na Internet o que se passa na sala, e estão autorizados comentários online e sugestões para a capa. Os autores irão regularmente actualizar as páginas no Facebook e no Twitter. No final, o e-book estará à venda (em vários formatos, o projecto tem o apoio da Amazon).

Livros escritos a várias mãos e em tempo recorde deixam qualquer pessoa com dúvidas, mas todos parecem estar muito animados. Na última Feira do Livro Internacional de Paraty, o CEO da Penguin, John Makinson, falou do projecto “A Million Penguins”, outra experiência de romance colaborativo. Surpresa: o produto final era ainda pior do que o inicial. “Era mesmo terrível”, disse John Mackinson. Mas serviu para alguma coisa: os editores da Penguin perceberam que as pessoas querem envolver-se no processo criativo.

The Novel: Live!

http://www.thenovellive.org

Festival Arts Crush
http://www.artscrush.org/

Nancy Pearl
http://www.nancypearl.com

(crónica publicada no suplemento ípsilon de 24 de Setembro de 2010)

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Um comentário a Romance ao vivo

  1. Interessante essa ideia e, mesmo sendo um ato puramente mercadológico ( o que, de fato, não é nada ruim), pode gerar um impulso e curiosidada aos leitores. Por outro lado, acredito que cobrar qualidade literária, nesse caso, é pedir muito.

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