Um documentário que é uma espécie de Big Brother da vida de Saramago

Foto de Walter Craveiro/FLIP

Na 8ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, que hoje termina no Brasil e por onde passaram entre outros, Salman Rushdie, Isabel Allende e os cartoonistas Robert Crumb e Gilbert Shelton, a noite de sábado foi de homenagem a José Saramago. Com a apresentação mundial de excertos do documentário José & Pilar e uma conversa com o realizador português Miguel Gonçalves Mendes. Por Isabel Coutinho, em Paraty

“Não queria estar na pele da Pilar quando eu desaparecer, mas de toda a maneira vamos ficar perto um do outro – as minhas cinzas vão ficar debaixo da pedra do jardim”, ouve-se José Saramago dizer no vídeo que o realizador português Miguel Gonçalves Mendes preparou para apresentar na 8.ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), onde o escritor foi homenageado na noite de sábado.

“Medo? Não. A morte para mim é a diferença entre estar e já não estar.” José Saramago, que morreu no dia 18 de Junho, vira-se para a câmara e diz: “Pilar, encontramo-nos noutro sítio”, e apaga uma luz.

Os 40 minutos apresentados mundialmente pela primeira vez na FLIP, com cenas que estão incluídas no documentário José & Pilar e outras que não estarão, fazem crer que Miguel Gonçalves Mendes quis fazer “um filme sobre a intimidade de duas pessoas extraordinárias”, como notou o jornalista e escritor brasileiro Arthur Dapieve, que conduziu a conversa com o realizador que, durante três anos, filmou a vida do Prémio Nobel. Miguel Gonçalves Mendes falou sobre as últimas polémicas à volta de Saramago em Portugal (as discussões por causa do romance Caim e a ausência do presidente Cavaco Silva no funeral).

A estreia nos cinemas portugueses está marcada para Novembro, mas haverá uma apresentação a 14 de Outubro no DocLisboa.

A Tenda dos Autores, um dos locais onde se realizam as sessões com os escritores e convidados da FLIP, estava cheia. Ao longo do dia, Flávio Moura, o director de programação da FLIP, tinha avisado que ainda podiam ser comprados bilhetes para aquela sessão que não estava esgotada e à noite, agradeceu ao público por este ter enchido o auditório.

“Pilar, vou para casa”, diz Saramago. E vai. Em seguida vê-se o escritor sentado à sua secretária na casa de Lanzarote, em Espanha, depois de ter colocado um disco de música clássica no leitor de CD. Olha para o computador, encosta-se para trás na cadeira como se estivesse a pensar, como se fosse difícil o processo de escrita. O espectador ainda não viu o ecrã. Ele pega no rato, clica: “Este para aqui e este para ali.”

Uma vida inteira nos livros

De repente, o público que assiste desata às gargalhadas. Saramago não está a escrever um novo livro, José está a jogar paciências no computador.

“Está ganho. As cartas fazem uma espécie de dança” e são boas para afugentar o Alzheimer, diz. Pouco depois, Pilar aparece, tem que ligar alguma coisa na secretária onde o escritor está sentado, e ele, com ar de garoto maroto, dá-lhe uma palmada no rabo. Também os vemos de mão dada, à noite, sentados no sofá a ver televisão.

Assistimos à rotina do dia-a-dia, ao casamento, à entrega das páginas que José Saramago vai escrevendo a Pilar, e a seguir, vemos a espanhola a traduzi-los para castelhano. A determinada altura as vozes dos dois sobrepõem-se, lêem os mesmos excertos dos livros em línguas diferentes (português e castelhano).

Momentos interessantes são também aqueles que se passam no Brasil, quando o autor de Memorial do Convento esteve aqui a lançar A Viagem do Elefante. Há a conferência de imprensa em que José se queixa que os jornalistas lhe fazem sempre as mesmas perguntas onde quer que vá. Os leitores pedem-lhe autógrafos, mas também beijos. Um rapaz quer que ele desenhe um hipopótamo (era o lançamento de um livro que conta a história de um elefante, gargalhada geral ) e mais tarde, durante a conversa que se seguiu na FLIP, Miguel Gonçalves Mendes explicou que este rapaz pedia a pessoas famosas que desenhassem hipopótamos e colocava os desenhos num site. Saramago não desenhou, não tinha tempo, a fila para os autógrafos era enorme.
Uma jovem aproxima-se do escritor e repete várias vezes algo que o escritor não percebe (“Saramago, eu te amo”) acabando por lhe segredar ao ouvido: “Você sabe que eu te amo, né?”. O escritor português desmancha-se a rir. As pessoas na Tenda dos Autores também.

Ao contrário de escritores que viveram a boémia, “a minha vida não tem qualquer espécie de interesse”, diz Saramago. “Onde eu ponho as coisas que são verdadeiramente importantes é nos meus livros”, afirma, lembrando que “o tempo aperta” e que quando o tempo aperta há um sentimento de urgência.

Nos excertos de José & Pilar, assistimos ao momento em que dentro de um avião, algures entre a Europa e a cidade brasileira de São Paulo, Saramago se vira para a mulher e lhe diz: “Tive uma ideia sobre Caim.” Pilar chama a hospedeira e pede: “Por favor uma cerveja, uma cerveja. Estou a ter um ataque de pânico.” Bebe a cerveja de um trago. Saramago teve a ideia daquele que acabou por ser o seu último livro.

Miguel Gonçalves Mendes, que é também o realizador do documentário Autografia/ Um retrato de Mário Cesariny , sobre Mário Cesariny, que recebeu o Prémio de Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004, tem mais de 230 horas filmadas.

Fez uma primeira montagem do filme com seis horas e agora tem uma versão final de duas horas.

“O que acabámos de ver”, explica o realizador, “não tem a ver com o filme. O documentário não tem uma única entrevista. No filme, Saramago não aparece como aqui, a falar para a câmara. É mesmo só o dia-a-dia.

Sem ser pejorativo, o filme é uma espécie de Big Brother da vida de José Saramago. Desde a ideia que ele teve para o livro A Viagem do Elefante [2008] até ao final, acompanhando uma fase muito má da vida dele, que foi quando adoeceu.”

Meirelles e Almodóvar

Mas, assegura, o filme, apesar de triste, é também muito optimista – passa por lá a “vontade de viver e de amar”, sem “rodriguinhos”. “Para dizer a verdade, não tenho o filme que queria. Precisava de mais seis meses de edição e não tenho dinheiro para o fazer. Já estou a montar há um ano e meio e, portanto, é uma loucura continuar a trabalhar” nele, diz Miguel Mendes.

José & Pilar é co-produzido pela produtora 02, do realizador brasileiro Fernando Meirelles, e pela produtora de Pedro Almodóvar, El Deseo.

Apesar disso, Mendes, que também é um dos produtores do filme, disse na FLIP que o filme foi muito caro, pois teve três anos de filmagens com viagens por várias partes do mundo.

“Estou com dívidas de 100 mil euros e a reformular o empréstimo da minha casa. É assim, é a vida. Vivendo e aprendendo.” O realizador teve a ideia para este projecto depois de ter filmado José Saramago para um documentário que fez sobre a relação de Portugal com a Galiza. Quando o autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo viu o documentário premiado de Miguel Mendes sobre o poeta e pintor surrealista Mário Cesariny, disse-lhe: “Ah, Miguel, eu aceito que faças o documentário sobre mim. Tenho é medo de não ser tão interessante como o Cesariny.” José & Pilar termina com José Saramago a declarar a Pilar del Río que se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, teria morrido muito mais velho do que quando chegasse a sua hora. O único Prémio Nobel da Literatura português esperava “morrer lúcido e de olhos abertos”. Pelo menos gostaria que fosse assim. E foi.

(reportagem publicada no jornal PÚBLICO no dia 9 de Agosto de 2010)

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