Dá que falar


Ciberescritas

Isabel.Coutinho@publico.pt

Buala significa “casa, aldeia, a comunidade onde se dá o encontro”. Não podia haver nome mais bonito para um portal que “celebra a língua portuguesa, na diversidade de Portugal, Brasil e Áfricas”.
O Buala tem pouco mais de um mês de existência e começou muito bem, com uma pré-publicação de “Milagrário Pessoal”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, com ilustrações de Tiago Lança.
O romance, que será publicado pela Dom Quixote, é uma “apologia das varandas, dos quintais e da língua portuguesa”. Escreve Agualusa: “(…) Os descendentes dos angolenses, hão-de um dia falar um português próspero, redondo e musical, e quem os ouvir talvez consiga escutar no eco de certas palavras o largo rumor do Quanza passeando-se em direcção ao mar, o colorido piar de suas muitas aves, o zunir dos insectos, o cair das chuvas, o ribombar dos trovões, o silvo do vento soprando húmido por entre o capinzal”.

O portal pertence à Associação Cultural Buala, é editado por Marta Lança, e tem concepção dela e de Marta Mestre. Quer ser interdisciplinar e inclui artigos de reflexão, crítica e documentação das culturas africanas contemporâneas em língua portuguesa, com traduções em francês e inglês. “A geografia do projecto responde ao desenho da proveniência das contribuições, certamente mais nómada que estanque”, explicam. “No fundo, desejamos criar novos olhares, despretensiosos e descolonizados, a partir de vários pontos de enunciação da África contemporânea.” “Vou lá visitar”, “Cara a Cara”, “Afroscreen”, “A Ler”, “Mukanda”, “Galeria” são os nomes das secções do portal onde está também alojado o blogue Dá Fala (onde o que se escreve ficará na língua em que foi escrito).

A professora de literatura na Faculdade de Letras do Rio de Janeiro, Cláudia Fabiana, que mantém o blogue Sararau, com o objectivo de promover debates sobre as literaturas em língua portuguesa, é especialista em literaturas africanas e entrevistou Pepetela a propósito do romance “O Quase Fim do Mundo”. “Um amigo leu antes de ser publicado e disse que o livro era muito erótico. Mas tem que ser, ora, está a tratar da vida”, diz-lhe o escritor angolano.

Também em Buala está um artigo sobre Germano de Almeida escrito por Ana Cordeiro, que dirige o Centro Cultural de Cabo Verde. Conta-se que Germano Almeida começou a escrever aos 16 anos “como forma de exorcizar os seus medos”. Tudo aconteceu depois de um dramático naufrágio nos mares da Boa Vista e de o escritor ter começado a ser perseguido pelos defuntos que lhe assombravam as noites. “Passava o tempo a imaginá-los morrendo no mar e um dia comecei a escrever o que via. Escrevi uma longa estórea. Durante esse tempo convivi com eles, tu cá tu lá, acompanhando-os no alto mar lutando com a angústia da morte. Vinguei-me transferindo para eles o medo que vinha sentindo e terei mesmo tido a maldade de deixar que um ou outro fosse comido por tubarões no meio de gritos de cortar o coração. O certo é que no fim estava completamente liberto.”

Portal de cultura contemporânea africana
http://www.buala.org/

Dá Fala, blogue de cultura
http://www.buala.org/pt/da-fala

Sararau
http://www.sararau.com.br/

(Crónica publicada no suplemento Ípsilon, do jornal PÚBLICO, no dia 25 de Junho de 2010)

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