“Quando um escritor morre, é um mundo que desaparece”

(fotografia de Nuno Ferreira Santos)

No velório de José Saramago, Portugal foi prestar-lhe homenagem com cravos e rosas. Por Isabel Coutinho, com Cláudia Sobral

D. Mariana Amália chega à rua e respira fundo. Acaba de descer a escadaria dos Paços do Concelho, no Largo do Município, em Lisboa, onde se foi despedir de José Saramago que morreu sexta-feira, aos 87 anos, em Lanzarote.
De repente, ali, em frente a um cartaz com o rosto dele a sorrir e onde se lê “Obrigado, Saramago”, recorda o ano de 1977, quando o escritor almoçava e jantava em sua casa, no Lavre, Alentejo. Saramago chegou à aldeia em plena reforma agrária, dormia na cooperativa e quis evitar o restaurante e fazer as refeições numa casa de família enquanto trabalhava no que seria o livro Levantado do Chão.

“Comia tudo, menos favas”, diz Mariana Amélia, 79 anos, que viria a ser o primeiro nome dado a Blimunda, personagem da obra (segundo Isabel da Nóbrega, uma das ex-mulheres de Saramago). “[Quando José se tornou Saramago], nunca esqueceu aquilo que fiz, e daí para cá ficou sempre indo lá por casa.” Na última vez que passou pelo Lavre, Saramago não almoçou, mas sentou-se no seu sofá. Conversaram. E é por essa e por outras conversas que Mariana Amélia sente “uma saudade muito grande que fica”.

É por essa “saudade” que centenas de pessoas esperaram ontem durante horas, debaixo de um sol escaldante, para entrarem no Salão Nobre e prestarem homenagem ao Nobel da Literatura. Muitos militantes comunistas. Ou nem tantos. Ainda ao final da manhã, Augusto Marques, 74 anos, assistiu ao bater de palmas à entrada do caixão no Salão Nobre dos Paços do Concelho. Este militante do Partido Comunista lamentava: “Está pouca gente para o que ele merecia. Devia estar aqui mais gente.”

Intelectuais entre anónimos

Mas, ao longo do dia, as dezenas de pessoas da manhã tornaram-se centenas e a fila para entrar na Câmara Municipal de Lisboa tornou-se contínua (ao princípio da noite, a Lusa falou em milhares de pessoas). Entre anónimos, encontravam-se o maestro Victorino de Almeida (“uma daquelas figuras que fazem com que Portugal entre na história no mundo”), o crítico e programador Augusto M. Seabra (que lhe fez uma grande entrevista por ocasião do lançamento do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis e lembrou uma frase que Saramago gostava de dizer: “Dantes diziam de mim: “É bom mas é comunista.” Agora dizem: “É comunista mas é bom.””), a cineasta Teresa Villaverde, a apresentadora Bárbara Guimarães, o músico Luís Cília, o poeta e candidato à Presidência da República Manuel Alegre (“Ele nunca esteve de costas voltadas e a mostra disso está no facto de ter querido vir para Portugal. Aqui é que era a raiz dele e a raiz dele era a língua”) e, ao final do dia, o ex-Presidente da República Jorge Sampaio.

A meio da tarde, o primeiro-ministro, José Sócrates, prestou homenagem ao escritor, e causou agitação entre jornalistas, “câmaras” e fotógrafos ao sair por uma porta lateral. Nesse momento surgiu Dilma Rousseff, a candidata à Presidência do Brasil e à saída do velório, perseguida pelos jornalistas brasileiros, afirmou: “Temos Eça de Queirós, temos Machado de Assis e Saramago está entre esses escritores que imortalizaram a língua portuguesa.” A ministra da Cultura espanhola, Ángeles González-Sinde, que também esteve presente, explicou que o escritor uniu dois países que habitualmente vivem de costas voltadas. “Uniu-os mesmo depois da morte”, disse a ministra, que durante a manhã esteve também no aeroporto de Figo Maduro.

Os restos mortais do escritor chegaram a Lisboa, vindos de Lanzarote, em Espanha, no C-295 da Força Aérea portuguesa que aterrou às 13h35 no aeroporto de Figo Maduro. Primeiro um helicóptero no céu, depois o barulho ensurdecedor e o avião a avançar pela pista. Por fim, as portas a abrir e três mulheres a sair: a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, e a viúva de Saramago, Pilar del Río, imponente, vestida de negro, seguida pela filha do escritor, Violante Matos. Foram cumprimentadas pelo secretário de Estado da Defesa, Marcos Perestrello, em representação do Governo português. No avião, vinham também os dois irmãos de Pilar e o filho.

O professor universitário Manuel Gusmão foi um dos primeiros a entrar no velório durante a tarde, onde considerou que estava muita gente. “Estão a entrar por grupos de pessoas, mas o fluxo é constante. Para além das pessoas que reconhecemos, estão muitas pessoas de origem popular.” O poeta Nuno Júdice lembrou que, “quando um escritor morre, é um mundo que desaparece, mas do Saramago ficará sempre a sua imaginação, a sua vida. Ele e os seus livros nunca deixarão de ser um exemplo”.

Na sala, que tem o retrato de Almeida Garrett pintado no tecto, estava o caixão, aberto, como já tinha estado em Lanzarote. Aos pés, uma fotografia do escritor coberta de cravos e orquídeas. O corpo de José Saramago tinha os óculos postos, e, por cima, um pano branco deixava a descoberto o nó da gravata. Alguém pousara dois cravos vermelhos no seu peito. À direita estavam a família e os amigos próximos. A mulher de Saramago, Pilar del Río, recebia as personalidades que entravam.

À esquerda, duas gigantescas coroas de flores onde se lia “Sentida homenagem do comandante Fidel Castro para José Saramago” e “Sentida homenagem do presidente Raul Castro”.

Rostos anónimos iam passando em frente ao caixão. Havia quem parasse, se benzesse e seguisse. Uns agarravam-se a livros do Nobel da Literatura. Outros levavam flores que deixavam aos seus pés. Havia quem tivesse pouca vontade de sair e fosse ficando.

Lágrimas e cravos

Houve lágrimas. Uma adolescente vestida de preto – talvez uma das pessoas mais novas que ontem passaram por aquele salão – chorava. A mãe, também de luto, pousava a mão no ombro da filha.

Um senhor de meia-idade, com grandes óculos de massa – parecidos com os que Saramago usou em tempos – soltou, alto o suficiente para se ouvir a vários metros de distância, um “adeus camarada”. E logo voltou as costas, deixando o salão. João Santos, desempregado, de Lisboa, saiu da sala da urna com o amigo António Velhas que vestiu fato para a ocasião. “É um homem com cultura, formado e merece a última homenagem”, diz, explicando por que passou por ali. E quando chegam à rua comentaram que nunca tinham visto um morto de óculos. “Não se podia dizer que não era ele. Era ele mesmo.”

De repente, as atenções voltaram-se para um homem que chegou à praça. De bóina vermelha na cabeça, Augusto Ramos, militante do PCP, segurava uma bandeira do partido que, bem esticada, era do comprimento dos dois braços estendidos. Conta já com umas boas dezenas de anos – as suficientes para ser do tempo em que muita gente não estudava. Confessou que não conhece a obra de Saramago. porque não sabe ler. “Eu gostava do Saramago como militante e como pessoa”, disse sem nunca largar a bandeira. Numa das mãos segurava também um ramo de flores, com uma rosa, uma gerbéria e cravos vermelhos. Quando saiu do edifício, já só trazia a bandeira. E, num gesto de despedida, ergueu o punho cerrado. Dobrou a bandeira vermelha e deixou a praça.

(reportagem publicada no jornal PÚBLICO no dia 20 de Junho de 2010)

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