O “estranhamento” de Divina Cleo

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Cleonice Berardinelli, especialista em Camões e Fernando Pessoa está em Lisboa a participar no colóquio “Literatura Portuguesa e a Construção do Passado e do Futuro”, que termina amanhã. Na quinta-feira, às 18h30, a professora brasileira vai à Casa Fernando Pessoa falar de um autor que conhece como ninguém: Fernando Pessoa. Por Isabel Coutinho

A voz de Cleonice Berardinelli ecoou na sala. “Prezados amigos”, disse a professora brasileira especialista em Camões e Fernando Pessoa na sessão que hoje abriu o segundo dia do colóquio organizado pela Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, a decorrer no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa.

“‘A Presença do Mar em Camões e Fernando Pessoa’ – o título [da conferência] me foi imposto. Gostei! Tendo dedicado boa parte da minha vida ao estudo destes dois poetas, nunca me havia deles acercado estabelecendo entre ambos esta espécie de ponte que talvez os aproxime, talvez não.” E estava dado o mote para uma “aula” sobre o modo como estes dois grandes poetas olham o mar e vêem neles “descobridores e descobertas”.

“Dona Cleo”, como lhe chamam aqueles que foram seus alunos, ou “Divina Cleo”, a alcunha que lhe foi dada pelo escritor Zuenir Ventura que também foi seu aluno, é considerada a maior especialista brasileira em literatura portuguesa. Desde o ano passado que ocupa a cadeira número oito da Academia Brasileira de Letras. E, aos 93 anos, a professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro que fazia papos de anjo para o seu amigo Manuel Bandeira e a quem Carlos Drummond de Andrade homenageou num poema continua a dar aulas a mestrandos e doutorandos. Até utiliza o Skype para dar aulas virtuais quando é preciso.

Neste regresso a Lisboa e à universidade que a fez doutora honoris causa, Cleonice Berardinelli contou que por causa desta palestra foi investigar a presença do mar em Camões: no lírico e no épico. “Pela primeira vez percebi que nunca havia pensado na presença do mar na lírica camoniana”, disse. E contou que encontrou uma “bem pequena e inexpressiva” presença do mar na lírica. Coisa diferente lhe aconteceu quando foi à procura do mar no Camões épico, “cuja obra é um poema que canta o acontecimento máximo da pátria: o desbravamento do caminho marítimo para as Índias, considerado até então a realização do sonho maior dos portugueses”, explicou.

“Falar do mar na literatura portuguesa suscita, em primeiro lugar, a lembrança do maior poeta da língua, Luís de Camões” afirmou. Por isso dedicou menos tempo nesta palestra a Fernando Pessoa, mas partilhou com a assistência, onde se encontravam o professor Eduardo Lourenço e a escritora Lídia Jorge, um enigma que lhe tem provocado “estranhamento”.

Distribuiu então pela plateia dois poemas de Fernando Pessoa publicados na “Mensagem”: “A Cabeça do Grypho – O Infante D. Henrique” e “Uma Asa do Grypho – D. João o Segundo”. Estes serviram para que Dona Cleo explicasse que as atribuições destes dois poemas (o primeiro ao infante navegador, o segundo ao rei dos grandes descobrimentos) sempre lhe pareceram estranhas. Não tinha dúvidas de que estariam trocadas.

Para ela, o homem que estaria na mente do poeta ao escrever os versos “Braços cruzados, fita além do mar. / Parece em promontório uma alta serra – / O limite da terra a dominar/ O mar que possa haver além da terra.” foi sempre o Infante e nunca D. João II, como se lê no único livro de Fernando Pessoa publicado em vida. A especialista sempre considerou que os poemas deviam ser trocados de lugar. “E depois que fui a Sagres, isso se tornou uma certeza quase que inabalável.”

E citando o verso “Seu formidável vulto solitário”, explicou que quem ficava solitário em Sagres a olhar, a indagar o mar era o Infante e nunca D. João II. O rei estará mais próximo da descrição que Pessoa faz no outro poema: “Em seu throno entre o brilho das espheras/ Com seu manto de noite e solidão, /Tem aos pés o mar novo e as mortas eras -/O único imperador que tem, deveras,/ O globo mundo em sua mão.”

Foi ao ler as notas da obra “Mensagem – Poemas esotéricos”, coordenada por José Augusto Seabra, que encontrou alguns esclarecimentos “com que nem contava”. Apoiavam a sua certeza de que teria havido uma troca de atribuições, não se sabe se por lapso de Fernando Pessoa ou se do editor da “Mensagem”.

A professora encontrou então no Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro um exemplar de “Mundo Português”, a revista onde teria saído a informação de que Seabra falava nas notas do seu livro. E qual não foi a sua surpresa quando a professora viu que nessa revista os dois poemas aparecem na mesma ordem em que estão na “Mensagem” e com as mesmas atribuições. “Foi uma decepção terrível”, contou hoje Cleonice Berardinelli. “Teria havido algum momento em que o próprio poeta se desse conta de que cometera tais lapsos? Por quê em tal caso não os teria operado? Eis uma resposta que não vos sei dar. Afinal, o mago, o astrólogo era Fernando Pessoa. Eu não.” E a sala toda aplaudiu.

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