Livros que eles descobriram

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Fotografia de Luís Ramos (arquivo do PÚBLICO)

Nós perguntámos: lembra-se de algum livro no qual tenha pegado sem expectativa e que se tenha revelado uma surpresa? Eis as respostas, ainda a tempo para a Feira do Livro. Por Isabel Coutinho e Luís Miguel Queirós

MANUEL ANTÓNIO PINA, poeta, cronista, ficcionista

O visconde e os pobres

Lembra-se de algum livro no qual tenha pegado sem particulares expectativas e que tenha acabado por se revelar uma boa surpresa? O poeta Manuel António Pina lembrava-se. E poucos terão para contar um episódio ao qual o termo “surpresa” se aplique de modo tão literal.
“Tinha eu 17 ou 18 anos e, não podendo comprá-lo, trouxe da biblioteca da JUC [Juventude Universitária Católica] o volume Poesia e Teatro, de Almeida Garrett, editado pela Civilização, para estudar para a disciplina de Literatura”. Chegado a casa, sentou-se e abriu-o, “disposto (tinha teste no dia seguinte) a dedicar umas horas a Garrett”.
Mas, e eis a surpresa, a página de rosto não condizia com a capa. “Por algum acaso objectivo ou misterioso desígnio do encadernador ou do destino, no interior, a poesia e o teatro de Garrett haviam sido afortunadamente substituídos por Os pobres são malucos, reunião de três breves obras (contos?, romances?) de Cesare Zavattini, nome que conhecia como argumentista do divertido O juízo universal, de Vittorio de Sica.
“Na verdade, já não me lembro bem se vi O juízo universal antes ou depois de ter encontrado Os pobres são malucos (ou de me ter ele encontrado a mim)”, diz Pina. “Mas vira decerto Ladrões de bicicletas, Milagre em Milão, Umberto D…. A associação que faço do livro com O juízo universal resulta talvez das semelhanças de ambos; acho que nunca li um livro, ou vi um filme, com tantas histórias (ternas e cruéis, reais e surreais, terríveis e divertidas, nocturnas e diurnas, sólitas e insólitas, como a Lanterna mágica de Picasso) por centímetro quadrado ou por fotograma quadrado”.
Ainda hoje conserva esse exemplar de Os pobres são malucos. “Não devolvi o livro à biblioteca da JUC (já posso confessá-lo, pois o crime deve estar prescrito). Por algum motivo ele viera ter comigo oculto sob a capa (literalmente) do penoso poeta e visconde. Denunciá-lo seria um acto de traição que eu não me perdoaria. E agrada-me falar dele aos meus amigos e nenhum o conhecer. A nossa relação, tantos anos depois, continua a ser impartilhável e clandestina”. L.M.Q.

VASCO GRAÇA MOURA, poeta, tradutor, ficcionista, ensaísta

Surpresa em curso

Vasco Graça Moura não teve, propriamente, de puxar pela cabeça. O livro fora uma surpresa tão recente, que, na verdade, ainda durava. “Li umas duzentas páginas”. O bastante para se confessar impressionado. Tendo “uma secção bastante completa sobre as invasões francesas” na sua biblioteca, foi quase por automatismo que comprou, na livraria e alfarrabista Esquina, no Porto, Memória das Invasões Francesas em Portugal, de uma autora de quem nunca ouvira falar: Tereza Caillaux de Almeida. “Segundo a badana, é professora do Departamento de Português na Universidade d’Aix en Provence”. Abriu o livro à espera de mais um estudo sobre a guerra peninsular, a juntar aos muitos que já lera, mas, afinal, esta tese de doutoramento, agora editada pela Ésquilo, revelou-se um objecto singular. “É que é muito mais sobre a memória do que sobre a factualidade histórica”, explica Graça Moura, cuja tradução das poesias castelhanas de Camões foi ontem apresentada na Feira do Livro de Lisboa pelo camonista Vítor Aguiar e Silva.
O que Vasco Graça Moura não sabe é que a autora cuja obra lhe pareceu tão singular tem um percurso igualmente atípico. Nascida em Lisboa em 1955, casou-se aos 17 anos com um francês, teve filhos – hoje até já tem quatro netos –, e só aos 36 anos decidiu matricular-se na Universidade d’Aix en provence, onde hoje dá aulas. L.M.Q.

ANA LUÍSA AMARAL, poeta, ensaísta, tradutora

O outro Darwin

Ana Luísa Amaral estava no Brasil, onde ia dar uma conferência centrada no poema Isto, de Fernando Pessoa, que abre com a célebre estrofe “Dizem que finjo ou minto/ Tudo que escrevo. Não/ Eu simplesmente sinto/ Com a imaginação./ Não uso o coração”. No texto que preparara, tentava discutir “a questão do fingimento” e introduzia o conceito de “sentimento lógico”, algo que, explica, “não existe, mas que pudera “pensar a partir do António Damásio e da diferença que ele estabelece entre emoções e sentimento”.
Antes do colóquio, que lhe caberia abrir, foi com uma amiga visitar um museu de arte moderna em S. Paulo. Na livraria do museu, chamou-lhe a atenção um livro intitulado A expressão das emoções no homem e nos animais, de Charles Darwin, publicado pela Companhia de Bolso. “Só conhecia A origem das espécies e nunca tinha ouvido falar deste livro”. Comprou-o, abriu-o, e percebeu que não podia tê-lo “encontrado em melhor altura”, porque a tese nele defendida por Darwin – que “as emoções são corporais e que se podem detectar emoções comuns nos seres humanos e nos animais” – vinha estranhamente ao encontro do assunto da sua palestra.
No pouco tempo de que ainda dispunha antes da sessão, acabou mesmo por mexer no texto; e aqueles que a seguir assistiram à sua intervenção, e a ouviram citar, tão a-propósito, esse “outro” Darwin, decerto não terão imaginado que a relação da conferencista com a obra citada se resumia, naquele momento, a um fortuito encontro de ocasião. L.M.Q.

VALTER HUGO MÃE, escritor e poeta

A conspiração

A primeira vez que valter hugo mãe foi surpreendido por um livro – “sem estar à espera de o ser” – foi com “o primeiro livro de letras” que comprou. Ele tinha dez anos, o livro chamava-se “qualquer coisa como O Mistério da Mansão Assombrada, era de Alfred Hitchcock e foi por causa do título que o comprou. “O meu irmão ensinou-me a cismar que a nossa casa estava assombrada, aquele livro chamou-me a atenção e achei que precisava de o ler. Foi a primeira vez que comprei um livro com o meu dinheiro. Encontrei-o por acaso e mudou muita coisa em mim”, explica o autor de A Máquina de Fazer Espanhóis que a partir daí não parou de comprar livros.
Um dia, num alfarrabista de Lisboa, numas escadas atrás da estação do Rossio, valter hugo mãe encontrou Como alguém disse, o livro de Luís Miguel Nava na primeira edição, capa azul veludo. “Na altura, não tinha lido nada dele e fiquei demolido com a aparente simplicidade dos versos. Havia ali uma espécie de leveza, de limpidez, que eu ainda não tinha visto”. Mais tarde dedicou-lhe um dos seus livros de poesia.
Também num alfarrabista, mas no Brasil, teve “um acaso”: descobriu a primeira edição de Geografia, de Sophia de Mello Breyner, no Rio de Janeiro. Mas o engraçado é que o escritor tinha conversado com o professor de literatura brasileiro, Eucanãa Ferraz, que lhe contou que tinha feito um estudo sobre Sophia e que andava desalmadamente à procura da primeira edição de Geografia porque constava que ali havia um poema dedicado a Cecília Meireles que não aparece nas edições posteriores. “Quando encontrei o livro num sebo, caído do céu, no momento certo, pude oferecê-lo a Eucanãa”, conta o escritor.
“Não posso dizer o nome do poeta”, continua valter hugo mãe, enquanto está a dar autógrafos na Feira do Livro de Lisboa. “Mas encontrei num alfarrabista um livro de um poeta conhecido assinado para o Mário Cesariny. Como tinha uma visita marcada a casa do Cesariny e levei-lhe o livro.” Disse então ao autor de Pena Capital: “Mário, provavelmente alguém lho roubou.” E entregou-lhe o livro. “Perfeitamente ingénuo. E ele disse-me: ‘Mas voltas a entregar-me esta merda? Eu que fiz um esforço para me livrar de duas toneladas de esterco que tinha dentro de casa. Quanto pagaste por isto, rapaz?’ Disse-lhe que tinha pago 25 euros e Cesariny respondeu-me: ‘Como é possível pagar-se 25 euros por um pedaço de esterco que eu tive tanta dificuldade em remover da minha casa?!’” Nessa altura, valter hugo mãe explicou a Mário de Cesariny que estava à espera de o fazer feliz: “Gastei até um dinheiro que achei que o livro não merecia – não é propriamente uma raridade – mas estava assinado para si, foi por uma questão de respeito.” E Cesariny disse-lhe: “Como é que é possível, isto é uma conspiração.”
Mário Cesariny entendeu a “ingenuidade” de valter e assinou-lhe um livro desenhando uma boneca a andar num skate que tinha muitas rodinhas porque imitava os patins em linha. “Já ganhei o dia, já fiquei com um desenho de Mário Cesariny”, disse-lhe valter. Mário respondeu: “Ai rapaz! Tu tens umas ideias tão burras.” O escritor valter hugo mãe diz que esta era uma maneira de Cesariny ver se ele acordava. “Mas acho que levei muito tempo a acordar e ainda não sei se acordei. Ele morreu cedo demais, precisava dele mais uns anos.” I.C.

PEDRO VIEIRA, ilustrador e livreiro

Às cegas

“O primeiro caso que quero contar é do Luiz Pacheco”, vai avisando Pedro Vieira, sentado numa das esplanadas da Feira do Livro de Lisboa num dos dias em que está de folga na livraria lisboeta onde trabalha. “Comprei um livro dele às cegas e foi uma revelação”. Este ilustrador da revista “Ler” foi à feira do livro do Centro Cultural de Lagos que tem sempre sobras de edições e livros muito baratos. “Vi um livro com uma capa muito psicadélica de um autor português editado pela Estampa intitulado Exercícios de Estilo. Era do Luiz Pacheco e eu não fazia ideia de quem era aquele tipo. A capa tinha qualquer coisa de insólito, ainda por cima era ao desbarato, em escudos, e comprei o livro.”
Não o leu logo. “Vão-se amontoando, como é prática comum”. Mas passado uns meses de ter comprado esse livro Pedro Vieira foi “introduzido ao personagem Luiz Pacheco numa entrevista fabulosa que ele deu ao DNA, em que dizia que tinha sete filhos e meio porque não sabia se o último tinha tido participação dele ou não”. Fez-se luz. Foi uma revelação absoluta. Ficou maravilhado com a personagem. E Pedro Vieira lembrou-se: “Tenho um livro deste tipo. Tenho que pegar nisto.”
Logo de seguida assistiu a uma peça no Teatro Taborda, uma interpretação de O Libertino Passeia por Braga… texto de Luiz Pacheco. “Finalmente fui agarrar no tal livro, onde está O Libertino… e também A Comunidade. Gosto muito do universo dele, um misto de marialva e instruído, e a partir daí fui acompanhando sempre.”
Pedro Vieira, autor do blogue Irmão Lúcia, há uma dúzia de anos descobriu na Feira do Livro de Lisboa, o livro Sombras de sombras do mexicano Ignacio Padilla (foi editado pela Gótica). “A capa tem umas alusões à Segunda Guerra Mundial, o livro é pequenito e era barato. Comprei e é maravilhoso. É sobre a identidade: põe-se a hipótese, ficcionada, de que tenha havido uma troca de identidades de Adolf Eichmann, o responsável pela carga logística dos campos de concentração nazis que fugiu para a Argentina e foi raptado pela Mossad, levado para Jerusalém, julgado e enforcado. O romance coloca a hipótese de que este Eichmann seria uma outra pessoa com quem o verdadeiro teria trocado de identidade. É uma história muito rocambolesca. Gostei muito do livro, é muito intrigante, e fiquei alerta em relação a essa figura: o Eichmann. E mais tarde vim a ler o livro da Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém: uma reportagem sobre a banalidade do mal.” I.C.

JOÃO TORDO, escritor

A literatura ‘noir’

O autor de Três Vidas que venceu o Prémio José Saramago 2009 recorda-se de dois livros que comprou sem saber do que se tratava e, mais tarde, se vieram a revelar autênticas surpresas. O primeiro foi O Inquilino, de Javier Cercas. “Foi o primeiro que li do escritor espanhol – hoje um dos meus favoritos – e comprei-o numa livraria em Serpa, onde estava perdido debaixo de outras coisas certamente menos interessantes. É um romance (uma novela) de cem páginas que, soube mais tarde, para meu grande espanto, não vendeu como devia em Portugal.”, explica por e-mail o escritor que está fora de Portugal. “Embora Cercas fosse já sobejamente conhecido em Espanha por causa de Os Soldados de Salamina, em Portugal era ainda um ilustre desconhecido (estávamos em 2004, creio). Comecei a ler O Inquilino sem qualquer expectativa, porque não conhecia o autor e porque, a bem dizer, a novela nunca tinha sido um género que me interessasse explorar (estava numa época de grandes narrativas). Acabou por entrar imediatamente para a minha lista dos 10 livros favoritos: é difícil de descrever a vertiginosa história de Mario, um professor universitário, que vê a sua vida virada do avesso quando, uma manhã, torce o joelho e surge em cena Berckowicz, o novo professor que tem tudo aquilo que falta ao protagonista. Depois dessa descoberta acidental tornei-me o fã número 1 de Javier Cercas em Portugal – estou razoavelmente seguro desta afirmação.”
O segundo livro a deixar João Tordo surpreendido foi: Irei Cuspir-vos nos Túmulos, de Vernon Sullivan (ed. Europa-América). “A verdade é que comprei este livro quando tinha dezasseis ou dezassete anos convencido de que estava a comprar mais um policial para acrescentar à colecção, não fazia ideia alguma de que Sullivan era, na verdade, Boris Vian – e que me preparava para ler uma história violenta, obscena e amoral passada no sul dos Estados Unidos (não me recordo dos pormenores, mas recordo o protagonista, um negro que se fazia passar por branco com desejos de vingança), escrita por um autor de que nunca ouvira falar.” João conta que foi a sua introdução a um género mais denso e brutal do policial / crime: “Quando descobri que Sullivan era Boris Vian (e que era francês!), fiquei perplexo, mas compreendi então porque lhe chamavam literatura noir…” I.C.

NUNO SEABRA LOPES, consultor editorial dos Booktailors

A ida aos alfarrabistas

Durante alguns anos, ainda no Porto, “com tempo para gastar”, Nuno Seabra Lopes, consultor editorial, frequentava algumas livrarias e alfarrabistas da cidade. Dos primeiros tempos em que entrava e vasculhava os espaços em busca de autores, temas ou títulos conhecidos, passou a dirigir-se “mais ao balcão e conversar com os alfarrabistas, ouvindo as suas histórias e os seus ‘segredos’ sem segredos.” Vários foram os livros que Nuno comprou assim, “muitos deles de pouca memória ou interesse – alguns abandonados ou oferecidos depois – após conselhos que de valia tinham muito, de interesse para mim pouco.”
Foi então que deixou de querer só ouvir aquilo que eles diziam, e passou a falar daquilo que ele queria dizer, e então, conta, começaram a surgir os livros interessantes.
“Uma das mais interessantes descobertas que fiz em alfarrabistas foram as obras da [editora italiana] Franco Maria Ricci, na colecção coordenada por Jorge Luis Borges (Biblioteca de Babel), nomeadamente pela compra acidental de um livro extraordinário chamado O Golem, de Gustav Meyrink ( pseudónimo de G. Meyer).”
Outra das descobertas de Nuno Seabra Lopes ocorreu com os velhos guias Baedeker: encontrou uma edição de Londres antes da II Guerra, com a descrição pormenorizada de cafés, estalagens e sítios então existentes. Mas a mais importante descoberta foi um pequeno livro em inglês que o remeteu para uma grande obra, o resumo de parte das Viagens de Ibn Battuta (o viajante e explorador berbere).
As conversas em torno dos livros também lhe trouxeram pessoas interessantes, como uma vez, ainda novo (16 anos) e algo fascinado com o fenómeno da II Guerra Mundial, acabou por ir a casa de uma amiga, cujo avô tinha uma grande colecção de obras sobre o tema. “A verdade é que fiquei a conhecer o homem e saber a sua história – ele fazia parte dessa história −, sendo alemão refugiado em Portugal depois da guerra, ele tinha sido um dos soldados do Erwin Rommel (a Raposa do deserto), tendo feito parte dos Afrikakorps e combatido em El Alamein.” I.C.


PEDRO ROSA MENDES, escritor e jornalista

Peregrinação no Sena

Este é um encontro inesperado com Fernão Mendes Pinto em Paris. Na quarta-feira – a três dias da “largada” nas livrarias em Portugal do novo livro de Pedro Rosa Mendes (Peregrinação de Enmanuel Jhesus) o escritor e jornalista regressava de um trabalho com um colega. “Saí em Saint Michel, no sítio onde calhou ele poder parar o carro por um momento, no Quai des Grands Augustins. Há uma fila de quiosques de alfarrabistas, os típicos ‘bouquinistes’ dos cais do Sena, que eu aliás não frequento. Um deles abria nesse momento, levantando a portada que serve também de ‘toldo’. Captei um dos títulos na primeira fila: La Pérégrination, e mais de perto, La Chine et le Japon au XVIéme Siècle, e em letras mais pequenas, ‘Vus par Un Portugais FERNÃO MENDES PINTO’, e cereja em rodapé, quando peguei no livro: ‘Présentation de AJ. Saraiva’.”
Comprou o livro, claro. “Na hipotética presença de sinais divinos, é pior o desprezo do que a falta de fé neles… São Francisco Xavier nos Grandes Agostinhos, quand-même“…
Foi já em casa que reparei que, no verso do embrulho de acetato, estava escrito à mão ‘1968’, o ano da edição desta Pérégrination da Calmann-Lévy. O ano em que nasci.” I.C.

(Versão longa do artigo publicado no caderno P2, do jornal PÚBLICO de 15 de Maio de 2010)

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