Virinha e Comissão das Lágrimas andam na cabeça de António Lobo Antunes

lobo

Comissão das Lágrimas é o título provisório do romance que António Lobo Antunes começou a escrever há semanas e que tem como personagem Virinha, que foi dirigente do destacamento feminino das FAPLA (antigas Forças Armadas Angolanas) na parte final da Guerra Colonial.

Numa entrevista que deu ao caderno Sabático, do jornal brasileiro O Estado de São Paulo, porque está a ser lançado no Brasil O Arquipélago da Insónia, Lobo Antunes explicou que “um doloroso canto de uma mulher torturada” habita o seu pensamento. “É a voz de Elvira, conhecida como Virinha, que foi presa em Angola em 1977, quando o país, recém-independente de Portugal, enfrentava problemas internos”, disse o escritor ao jornalista Ubiratan Brasil.

Elvira, que esteve à frente do batalhão feminino do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), foi uma das 80 mil pessoas mortas sob suspeita de contestar Agostinho Neto. Lobo Antunes conta na entrevista que os pulsos de Elvira foram amarrados com arame e os tornozelos atados nas costas, que a levantaram a uma altura de dois metros e a soltaram repentinamente tendo o seu corpo batido no chão: “Mas, mesmo torturada, Elvira não parou de cantar, só quando morreu.”

Quando o jornalista lhe pergunta “se foi essa Comissão das Lágrimas, espécie de tribunal que apenas determinava a forma da pena, a decidir o futuro de Elvira”, Lobo Antunes confirma que sim e diz: “É um nome espantoso, carregado de poesia para determinar algo tão cruel. Isso faz-me lembrar o povo da Roménia que, antes da queda do comunismo em 1989, perguntava se haveria vida antes da morte.”
Sobre este assunto, Lobo Antunes diz não ter feito pesquisa quase nenhuma porque seria “esmagado pela documentação”. E acrescenta: “Nesse caso, o melhor seria fazer um livro-reportagem. Prefiro confiar na minha sensibilidade. Mas não sei ainda se terei um livro, pois vivo agora o momento mais terrível, aquele das falsas partidas: um caminho aponta, mas não é esse. Surge outro, também não
é. Portanto, é um trabalho para, no mínimo, dois anos, que pode resultar em nada.”
O próximo romance de António Lobo Antunes já está escrito. Chama- se Sôbolos Rios que vão e sairá na Dom Quixote em Outubro.

(Publicado no caderno P2 do Jornal PÚBLICO de 1 de Maio de 2010)

Deixar um comentário