Manuel Alegre soltou a memória e o livro fez-se

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O regresso de Manuel Alegre à prosa, com “O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua” (Dom Quixote), faz-se com uma escrita que puxa pela memória – e a memória puxa pela palavra. Isabel Coutinho

Quando Manuel Alegre escrevia “O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua”, um amigo perguntou-lhe se era uma história. Na altura não soube responder-lhe. Agora já sabe. É isso que conta ao Ípsilon, numa poltrona da sala de sua casa, em Lisboa. A pergunta foi feita pelo editor João Rodrigues, num jantar no Algarve. “Matutei, reli algumas coisas e achei que sim.” Esta é a história de um miúdo que pregava pregos numa tábua e depois começou a contar as sílabas pelos dedos. “A pergunta foi boa, porque resolveu um problema que tinha comigo e com este livro, feito de vários fragmentos que têm uma certa coerência interna.”

Trata-se, aqui, de uma escrita sobre a escrita. “No fundo, é uma escrita que puxa pela memória. A palavra puxa palavra, a memória puxa palavra. É uma escrita sobre o processo que leva à escrita, sobre os muitos ritmos do mundo que fazem parte do meu ritmo de escrita, na poesia e na prosa”, explica o autor de “Trova do vento que passa”.

Por impulso

Esta novela começou mesmo pelo princípio e por aquelas que são as suas primeiras frases: “É difícil escrever um livro. Não se sabe por onde começar nem por onde seguir.” No processo de criação de Alegre, um livro começa sempre por uma cadência (mesmo a prosa tem um ritmo próprio). “Não escrevo de maneira programada, escrevo por impulso e, às vezes, das maneiras mais inesperadas. Começa pela cadência e por uma frase”, explica. E depois soltou a caneta, soltou a memória e o livro fez-se. Na escrita, tal como na vida, diz, “anda-se para a frente, anda-se para trás, escreve-se em ziguezague”. E, sobretudo, “a memória anda muito aos saltos. Há grandes buracos negros na memória. É muito selectiva”. Apesar disso, neste processo, que para Alegre está muito próximo do processo da escrita poética, despertam-se coisas adormecidas. “Às vezes, já não sabemos se aquilo é realidade ou se é ficção. Ou onde acaba uma coisa e começa a outra.”

No entanto, o livro começa com a memória mais antiga que Alegre tem de si mesmo: a de estar sentado num pátio, a pregar pregos numa tábua. “De certa maneira todos os livros começam por aí, pela primeira memória que se tem. Depois há as histórias que nos contam e que nós contamos a nós próprios. Há coisas que não tenho a certeza de se terem passado exactamente assim: se as sonhei ou imaginei. Nem isso é importante.” Por isso, “O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua” (ed. Dom Quixote) não é uma autobiografia, nem uma biografia, nem historiografia. Mas tem muito da vivência do poeta. Aliás, o escritor já tinha contado muitas das histórias deste livro. Mas tinha-as contado de outra maneira. “Não as tinha contado bem assim, nem eram bem as mesmas histórias. O clima, a vivência, a infância, não propriamente as histórias.”

Por isso não só lhe deu prazer escrever este livro, como tinha necessidade de o fazer. Para que as coisas não se percam? “Ou para que eu não as perdesse para mim mesmo, para as transmitir a alguém”, talvez aos netos que acabam por aparecer em vários capítulos da história. Manuel Alegre quis também perceber por que escreve assim, por que é que certas coisas o marcaram e de onde é que vem a sonoridade, a estrutura rítmica que sempre marcou a sua poesia.

Lembrou-se do pai a cantar fado, voz bonita e rouca; da tia-avó que lhe revelou a poesia; outra vez do pai, que lhe lia Camões, mas também António Nobre; das lengalengas que as criadas lhe contavam. E descobriu que sem tudo isso não escrevia como escreve. Ou nem escreveria. Lembrou-se da rua da sua infância e do que por lá se passava. Do circo que um dia se foi embora, dos ciganos com quem comia ouriços, das idas à pesca, dos robalos, do rio, das feiras. “Naquela altura, numa vila quase aldeia, em Águeda, naquela rua com muitos ofícios (o marceneiro, o sapateiro, a padeira) havia também os cegos que cantavam ‘rimances’ que distribuíam em folhas. Tudo isso ficava: a toada, as histórias das pessoas da terra, as criadas que contavam histórias de feiticeiras, de bruxas, de lobisomens. A história da Carmencita, a cigana mais bonita que havia na caravana, ouvia-a ali, na rua, antes de se ter transformado num fado cantado.”

Os tambores cá dentro

Aos sábados, em Águeda, havia uma feira que “parecia saída de um poema de António Nobre”, onde mendigos e doentes expunham as suas chagas. “Gente muito pobre, descalça, vendedores de banha da cobra que também tinham a sua toada e muitos cantadores. Traziam os seus ‘rimances’ e histórias, às vezes de factos acontecidos, mortes matadas. Tudo isso fica a fazer parte de nós. São a música da língua e fazem parte da nossa estrutura rítmica dentro dessa música da língua. Isso marcou-me muito: a sonoridade.” De tal maneira que, quando começou a fazer versos, Alegre tinha necessidade de os ler imediatamente a alguém. Se não houvesse ninguém, lia-os em voz alta, e fez isso mesmo quando estava na prisão. “Escrevi alguns poemas da ‘Praça da Canção’ [1965] na prisão, sem papel, e dizia-os em voz alta. Mesmo depois quando tinha papel, ia lá o Pide ver o que se passava e estava eu a dizer os poemas em voz alta. Isso depois passou-me.” Porquê? Consequência da maturidade? “Não sei, talvez venha de uma maior confiança na escrita. Talvez eu murmure aquilo silenciosamente para mim mesmo”, diz o poeta que contava as sílabas pelos dedos. “Tenho realmente a coisa dos dedos, mas a Sophia [de Mello Breyner]} também tinha e outros que eu conheço também têm. Não quer dizer que se esteja a marcar o compasso das sete sílabas. São os tambores, os tambores cá dentro.” Mas, a determinada altura da sua vida, este miúdo perdeu o ritmo.

“Numa fase inicial, fazia uns poemas horríveis mas que tinham ritmo, tinham essa toada das coisas de que falámos. Depois comecei a ler Rilke, Pessoa, os poetas modernos. Ficou uma grande salgalhada dentro de mim e aconteceu-me como ao violino do João, foi-se o ritmo, foi-se a toada. Não tinha o meu próprio ritmo. Levou o seu tempo até que um dia me aparecesse um verso que sentisse que era meu, que era novo. Por acaso lembro-me desse verso mas não digo. É segredo”, ri-se. Não quer mesmo deixar uma pista aos estudiosos da sua obra? “Aparece num grupo de cinco poemas meus que foram publicados na revista Via Latina.”

A intervenção na História

A verdade é que já não há muitos interlocutores com quem pode conversar sobre estas coisas. As pessoas vão desaparecendo. “Morreram os amigos, morreram os pais, morreu a tia, morreram as criadas, toda essa gente. Já não há muito com quem relembrar esses episódios e essas vivências. Mesmo às vezes quando conto certas histórias, os meus filhos já as sabem… Então há uma vontade de as contar de outra maneira. Contá-las a mim mesmo e contá-las aos outros, escrevendo-as.”

A determinada altura deste livro Alegre conta o seu encontro surrealista em Paris com Daniel Cohn-Bendit, fala de Che Guevara que conheceu em Argel e de “ter vivido na ilusão de que a intervenção na História poderia ser uma forma de poema em acto”. Esses tempos de utopia foram uma desilusão? “Não, não é isso. Naquela altura toda a gente estava convencida de que ia mudar o mundo. Cada um ia fazer a revolução mais perfeita que as outras. Era um período de utopia. Existiam os Beatles, os hippies, os guerrilheiros. Toda a gente tinha a nostalgia da guerrilha da Bolívia ou de outra parte do mundo. Se não se fazia na Bolívia, fazia-se dentro de si mesmo, no Quartier Latin ou num café de Argel. Tínhamos a sensação ou a ilusão de que estávamos a mudar a História. Bem, alguns de nós – os portugueses, os angolanos, os cabo-verdianos, os moçambicanos – acabamos mesmo por contribuir para mudar a História. Não há dúvida. Mas não propriamente naquela perspectiva – e aí é que está a ilusão lírica da utopia – de acreditarmos que finalmente iríamos fazer a revolução que nem russos, cubanos ou chineses foram capazes de fazer. Não foi assim por causa das lógicas da Guerra Fria, mas fizemos o essencial: a liberdade, a paz, a independência das colónias portuguesas.”

Em tempos, escreveu uma crónica em que dizia “Portugal é difícil, é difícil ser português.” E a identidade de Portugal está presente neste livro, um Portugal tradicional, do fado, dos touros. Mas quando se pensa na Esquerda não se pensa habitualmente nesse país… “A minha Esquerda, a da minha geração, pensava. Está na música do Carlos Paredes, no Zeca Afonso, nas canções do Adriano também. Pensava por oposição até à mitificação que o Salazar fez e à maneira como o salazarismo se apropriou e deformou alguns dos mitos fundadores. Acredito que um dos segredos do êxito de ‘A Praça da Canção’ é a estrutura rítmica dos poemas, as trovas, e o ter virado esses mitos do avesso.”

Repete ao longo do livro a ideia de que a poesia está aquém e além da literatura. Fala também de uma certa literatice? “Eram os movimentos literários, os compadrios literários, as revistas literárias. Para nós, a poesia era algo mais mágico, mais sagrado. Talvez fosse – como dizer? – uma atitude arrogante ou sobranceira em relação a outros poetas, mas acontece em todas as jovens gerações.” Mesmo depois de crescido, o miúdo que pregava pregos numa tábua está convencido de que a poesia é um processo mágico.

(publicado no suplemento Ípsilon, do jornal PÚBLICO de 2 de Abril de 2010)

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