O medo do domingo à tarde

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Os contos do novo livro de Juan José Millás surpreendem sempre o leitor, que pode ficar em pânico mergulhado numa atmosfera que vagueia entre o real e o onírico.

Os Objectos Chamam-nos
Juan José Millás
(tradução de Luísa Diogo e Carlos Torres)
Planeta, € 17,5
4 estrelas e meia

Os editores evitam publicar livros de contos porque estes não funcionam tão bem em termos de vendas. O conto não tem a mesma consideração social que o romance. No entanto Juan José Millás não se tem deixado vencer. Luta contra essa ideia de que já que se gasta 20 euros num livro, é melhor gastá-los num romance do que em contos. Considera que, por esse critério, Borges desapareceria da História da literatura bem como autores como Juan Rulfo. E é por isso que participa num programa de rádio em que se pede aos ouvintes que enviem contos de cinco linhas. Não há muito tempo Millás propôs que fizessem contos de terror e chegou uma obra-prima, um conto de uma linha escrito por um rapaz muito jovem: “Fecha os olhos. Tudo o que vês é meu.”
Em Portugal já estava editado “Contos de Adúlteros Desorientados” (Temas & Debates) e surge agora “Os Objectos Chamam-nos”. Nesta obra estão reunidos 75 contos divididos em duas partes: as origens e a vida. Na primeira parte, a maioria das personagens são crianças, adolescentes e vivem rodeados de pais, tios e irmãos. Na segunda, são adultas, solitárias, com casamentos em perigo, obcecadas. Todas com a mesma atitude de perplexidade perante a vida. Fechadas em espaços e vidas claustrofóbicas de que a única forma de escapar é a fantasia. Quem leu os livros anteriores de Millás editados em Portugal na Temas & Debates (os romances “Assim era a Solidão”, “Tonto, Morto, Bastardo e Invisível”, “A Ordem Alfabética”, “Duas Mulheres em Praga”), na Quetzal (“Laura e Júlio”), na Presença (“A Desordem do Teu Nome”) e na Planeta (“O Mundo”) revê agora todo o seu universo.
É como se as suas obsessões literárias (identidade, assimetrias, psicanálise, as misteriosas ligações entre as coisas) estivessem concentradas, depuradas. Cada um destes contos é uma pequena obra-prima. Lidos no seu conjunto, mexem com o leitor, que se vê levado para um mundo onde o fantástico se mistura com o quotidiano. Perturbam e podem até levar a uma leve depressão se forem lidos a eito. Quando contámos isto a Millás, ele percebeu. “É como se todas as histórias acontecessem a um domingo à tarde. Por isso ficaste deprimida. É como se se passassem todos sempre ao domingo à tarde.” Ai o medo que todos sentimos nos domingos à tarde…

(crítica publicada no suplemento Ípsilon do jornal PÚBLICO de 12 de Fevereiro de 2010)

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