Juan José Millás na cidade dos homenzinhos

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Recebeu o Ípsilon numa caverna de Ali Babá: o sotão da sua casa em Madrid. É aí que o espanhol fantasia, constrói personagens perplexas perante o quotidiano. Conversa sobre “Os Objectos Chamam-nos”, livro de contos Por Isabel Coutinho, em Madrid

É num bairro residencial de Madrid, no sótão da sua casa onde se chega depois de subir vários degraus estreitos, que o espanhol Juan José Millás trabalha. Ali é o seu território cheio de pilhas de livros e jornais.

Quando se senta no sofá, é ao pé do candeeiro antigo que lê com as pernas estendidas. Os mais recentes livros de Lorrie Moore e Patrícia Cornwell estão abandonados na poltrona do autor do romance autobiográfico “O Mundo”, junto a obras de colegas espanhóis. Na sala ao lado está o computador de onde saiu há pouco o romance “Lo que se de los hombrecillos”, que será publicado em Espanha em Setembro. Pelas paredes, fotografias coabitam com lagartixas de vários materiais. Por lá andam também colecções de insectos, chapas de santinhos em metal e pedras que parecem dedos (com unhas bem definidas).

“O que mais me encanta na natureza é como ela produz dedos. Dou-me conta que é o que mais produz…”, vai dizendo o jornalista e cronista (do “El País” e de outros meios), que recebeu o Prémio Don Quijote de Periodismo. Entretanto desencanta de cima da secretária pedra atrás de pedra, cada uma mais perfeita do que a anterior.

Não é por acaso, percebe-se ao entrar nesta caverna de Ali Babá, que chamou ao seu mais recente livro “Os Objectos Chamam-nos” (ed. Planeta). É um livro de contos em que as personagens se movem no mesmo bairro onde se moviam as de “O Mundo”, o madrileno Prosperidad e a sua Rua Canillas. [ver Ípsilon de 20 de Fevereiro de 2009]

“É um bairro onde fiquei preso, de alguma maneira. Passei muitas horas da minha infância, ali, naquela rua, jogando, brincando. De algum modo perdi-me ali e ali continuo.”

O fantástico no quotidiano

Como muitos escritores num momento da sua vida José Juan Millás, 64 anos, pensou na possibilidade de construir um território mítico, tal como o de William Faulkner ou de Juan Carlos Onetti. Até que se deu conta que esse território era Madrid.

“É um lugar muito plástico, muito maleável. Pode-se fazer com Madrid o que se quiser que ninguém nos dirá nada. Invento ruas e nunca me chamam a atenção. Se o tivesse feito com Barcelona ou com qualquer outra cidade, nunca mo teriam permitido. Madrid é inexistente: uma cidade em que todos vieram de fora e ninguém pergunta de onde somos. Dei-me conta que Madrid tinha as características de um território mítico e passei a utilizá-la como o meu próprio território.”

É um mistério mas Millás sonhou com “Os Objectos Chamam-nos”, livro onde reuniu 75 contos. Nesse sonho associou urbanismo e literatura. O mais certo é que tivesse acabado de chegar de Córdova ou de Milão, cidades com centros históricos fascinantes.

“Sonhei que conseguia escrever um livro de contos em que estes se relacionavam entre si, como as ruas da parte antiga de uma cidade europeia. Sempre gostei de me perder nesses centros históricos labirínticos, cheios de surpresas, que nos conduzem sempre a um ponto de saída.”

Imaginou um livro em que os contos fossem como ruas que se cruzam; em que se chega ao fim de uma viela e se tem a surpresa de encontrar outra, que parece igual mas é diferente. Esse conjunto de ruas seria como um mapa da sua infância.

Por isso foi, ao longo de anos, guardando dentro de uma pasta contos que considerava estarem nesse registo. Para os seleccionar obedecia ao seu olfacto.

“De vez em quando, plaff! aparecia-me uma ideia e escrevia. Queria fazer contos breves. Interessa-me a economia da linguagem. O meu sonho é fazer um romance e uma crónica de jornal onde não sobre, nem falte uma só palavra. Estes contos foram um campo de experimentação nesse sentido.”

Passados oito anos foi lê-los e ficou surpreendido. Achou-os divididos em duas partes: as origens e a vida. Uma de juventude, infância e adolescência, e outra de maturidade. Reparou num dado curioso: os protagonistas da segunda parte eram os mesmos da primeira parte, só que adultos. Tinham a mesma perplexidade perante a vida.

A determinada altura, chegou a pensar se o protagonista não seria sempre o mesmo. “Decidi que não. Mas em última instância, apesar de as personagens dos contos serem sempre distintos acabam por ser sempre os mesmos. O que me fascinava é que todos os contos fossem o mesmo e, ao mesmo tempo, diferentes.”

Os contos de “Os Objectos Chamam-nos” são atravessados por crianças que vão pela rua a dar pontapés nas pedras e vêem mulheres dentro de bolhas com paredes invisíveis; jovens que reparam em círculos de suor debaixo das axilas dos manequins nas montras; mães que gostam de histórias de homenzinhos que cabem na palma da mão e que não se casam com mulheres do mesmo tamanho porque estão “apaixonados pelas mulheres grandes”. Mortos-vivos, obsessões por roupa interior feminina, pactos com o Diabo e escritores que encontram raparigas com livros de Paulo Coelho debaixo do braço, para quem o mundo está cheio de sinais. Coxos que não sabiam que eram coxos, médicos que acham que não têm dedos, taxistas para quem na rádio só se dizem parvoíces e passageiros de comboio que se arrependem de tudo, seja lá do que for.

“A perplexidade destas personagens está em não entenderem a vida. Fazem esforços para parecer que entendem, dissimulam como se entendessem. São personagens que são marcianos, como se os tivessem colocado na Terra, onde têm que imitar os movimentos e as formas das pessoas para que não se perceba que são marcianos. Vivem permanentemente perante a ameaça de que os descubram.”

Ao autor de “Laura e Júlio” (ed. Quetzal) sempre interessou trabalhar a assimetria. Nestes contos volta a ela. “A assimetria produz muita estranheza e a estranheza produz saber. Quando vemos tudo no seu lugar, não nos diz nada. Se estivermos numa esplanada a tomar um copo, passa muita gente e não olhamos. Se passar um coxo, reparamos. Tomamos atenção. No entanto, é como todos os outros, mas olhamos para ele. Gosto muito de tudo aquilo que é capaz de provocar estranheza porque é um modo de encontrar o fantástico no quotidiano. Estes contos acontecem sempre em atmosferas muito domésticas, muito familiares, muito quotidianas, onde sem dúvida existe um grande mistério.”

Apesar de se passarem nestes contos coisas que são pura fantasia, a sensação que o leitor tem é que tudo é possível. “É tudo possível, claro”, contrapõe Millás. “Nós, os escritores, trabalhamos com a fantasia e com a realidade, misturamos. Essa mistura é o que produz o desconcerto no leitor. Achamos que no quotidiano não podem acontecer coisas fantásticas e a vida está cheia de coisas fantásticas. Digo mais: o fantástico acontece na vida quotidiana.”

“Os manequins não suam”, dizemos enquanto fixamos os olhos do escritor por trás dos óculos. “Bem, isso ainda está por demonstrar”, responde imediatamente [risos] “Eu vi quando era pequeno um manequim suar por isso o conto. Diz que não suam, mas eu vi. Quando ia para o colégio o manequim estava limpo. Quando vinha do colégio o manequim tinha um pouco de suor debaixo da axila. Escrevi o conto porque me aconteceu. Há neste livro contos autobiográficos.”

Os espaços fechados

Achámos melhor não insistir. E a conversa divagou para os taxistas que povoam alguns contos do livro. Millás foi, um dia, fazer uma reportagem a Múrcia. Apanhou um táxi e pediu ao taxista para lhe mostrar a cidade. “Ele ligou o carro, arrancou, brummm, parou e disse: ‘Aqui vive o meu cunhado.’ Seguiu, brummm, parou: ‘Aqui fica El Corte Inglés.’ De repente passámos por uma fachada barroca, muito bonita e ele seguiu. Eu perguntei-lhe: ‘O que era isso?’. Ele respondeu: ‘Bah, um museu.'”

Muitos dos contos de “Os Objectos Chamam-nos” são conversas com taxistas. “O táxi é um espaço fechado onde estão duas pessoas que não se conhecem e que não vão voltar a encontrar-se. Estão numa posição estranhíssima: um está sentado de costas e fala para quem está atrás através de um espelho. Não há situação mais estranha do que isso. Alguém que se dirige a nós através de um espelho. Claro que se nos pomos a pensar nisto é uma situação tão rara que merece ser explorada.”

Está tudo ligado

Num dos contos surge a referência a um tal Pierre Clausaut que terá escrito “Os objectos me chamam”. Numa crónica no “El País”, em 2001, Millás já se referia a ele. Pierre existe? “Inventei-o, pareceu-me que soava bem, a escritor francês.”

A obra de Millás está cheia destas coisas. Cenas ou pormenores que passam de uns livros para os outros. “Não é consciente. Não me lembrava de ter colocado Pierre Clausaut nessa outra história publicada no ‘El País’. Costumo esquecer-me das coisas que escrevo e às vezes aparecem de novo porque as esqueci.”

As personagens passam muito tempo dentro de casa, sempre em sítios fechados. “Sempre disse – e foi algo que elaborei posteriormente – que os espaços físicos dos meus romances e contos se convertem num território moral. A atmosfera dessas casas onde as personagens se movem, desses táxis, desses lugares fechados, dão ao relato uma atmosfera moral que me satisfaz. Quero com isto dizer que esses espaços são uma metáfora de um espaço moral. Enquanto fechados, asfixiantes, representam um olhar de carácter filosófico ou moral sobre a realidade.”

A meio da conversa naquele sótão, depois do café, de conversas sobre sapatos MBT que imitam o andar dos masai e o escritor não tira dos pés, depois de Millás ter andado à procura de alguns dos seus livros e exclamar que estes lhe vão desaparecendo das estantes, voltámos às personagens, espanholas, muito locais, mas com uma universalidade que levam leitores de todo o mundo a acreditar que aquilo lhes podia acontecer.

“Creio que o universal é o local. Falo de coisas que são próximas de mim e portanto próximas de todo o mundo. Porque somos muito parecidos. Se falamos com sinceridade e honestidade das nossas obsessões ligamo-nos às obsessões dos outros. Com o passar dos anos dou-me conta que cada vez mais nos parecemos uns com os outros e por isso tentamos ser originais. Por isso, um dos temas recorrentes da minha obra é a identidade.”

Quando terminou “O Mundo”, Millás não sabia se ia conseguir escrever outro romance mas acaba de entregar ao seu editor espanhol “O que sei dos homenzinhos”. A personagem principal é um catedrático de Economia que se acaba de jubilar. A mulher ainda trabalha, é reitora na Universidade. Ele, em casa, escreve artigos de Economia para um jornal. E vê homenzinhos. “Homenzinhos que gostam das mulheres grandes?”, perguntámos. “Bem, por aí. Tudo se liga. São como vielas que formam um mapa, uma cidade.”

Quando olha para essa cidade, para a sua obra, vê-a muito unitária. “Quando se vê a obra de um autor com uma certa perspectiva damo-nos conta que é um erro falar de obras menores. Por vezes as obras menores foram fundamentais para uma escrever uma obra maior. Quando se vê em perspectiva a obra de um autor forma um puzzle. E cada romance ou cada conto é uma peça. Se tiramos um romance porque pensamos que é menos importante, o puzzle fica incompleto. Há autores cuja obra é mais coerente do que em outros, no meu caso, na minha obra está tudo entrelaçado. Há mensagens dirigidas de uns romances para os outros, acho que é uma obra muito unitária.”

“O Mundo” (Prémio Planeta 2007, Prémio Nacional de Narrativa 2008) é um dos dez finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa a ser atribuído dia 24 no encontro literário Correntes d’Escritas. Como vê este romance na sua obra? “Vejo como um objecto nuclear, faz parte do núcleo da minha obra. Nunca pensei que isso acontecesse. Podem começar a ler-me por aí.”

O PÚBLICO viajou a convite da editora Planeta.

(entrevista publicada no suplemento Ípsilon de 12 de Fevereiro de 2010)

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