Hitchens também está disposto a morrer

12399

(Fotografia de Raquel Esperança)

Depois de Caetano Veloso e Antonio Cicero foi a vez de Christopher Hitchens falar na Casa Fernando Pessoa.

Não é a primeira vez que Christopher Hitchens, jornalista e escritor que estudou em Oxford e vive nos EUA, está em Portugal. Ontem, na conferência sobre “A Urgência do Ateísmo”, que deu ao final da tarde em Lisboa, como convidado do Ciclo Livres Pensadores, contou que era para ele um prazer estar a falar na Casa Fernando Pessoa apesar de o seu “herói pessoal” ser Eça de Queirós. De tal maneira que quando esteve em Portugal, nos anos da revolução, passou ao lado das manifestações no Rossio, por uns momentos, para ir a Sintra.

Recordou António de Figueiredo, jornalista e militante antifascista, e Palma Inácio, mas não era para falar desses tempos que ali estava mas como autor de “Deus Não É Grande – Como as Religiões Envenenam Tudo” (ed. D. Quixote). O colaborador regular da revista “Vanity Fair”, antigo esquerdista que apoiou a guerra do Iraque, começou por falar de Marx e da citação tantas vezes repetida “a religião é o ópio do povo” para explicar que, afinal, o que Marx realmente disse era “muito mais belo e muito mais dialéctico”. O título da sua conferência foi inspirado no poeta Shelley (“The Necessity of Atheism”) e durante mais de uma hora Hitchens deu uma lição de história, filosofia, biologia e política. Mostrou que os ateístas também têm princípios honráveis pelos quais estão dispostos a morrer. Lembrou a teoria da evolução, o material genético que todos partilhamos, o que a ciência nos trouxe. Falou da sua experiência como jornalista (no Iraque, Irão e na Coreia do Norte). Alertou para a ambição da Rússia de Putin, para o perigo do Irão com armas nucleares.

Falou dos seus amigos nos EUA e na Europa que não podem viver sem ser escoltados. Lembrou o cartoonista dinamarquês que não pôde passar o final do ano com a sua neta. “Isto está a acontecer no vosso continente, na vossa cultura, no vosso tempo”, disse. Contou que quando era pequeno e o padre lhe falava do céu e do inferno ele conseguia ter uma ideia muito precisa do inferno mas não lhe acontecia a mesma coisa com o céu. “Não sabia da existência das 72 virgens nessa altura… e seria demasiado novo para apreciar “, brincou, e a sala gargalhou. Quando perguntava o que se fazia no céu e lhe respondiam que se louvava a Deus o dia inteiro e para sempre eternamente parecia-lhe que isso é que era o inferno.

(Publicado no jornal PÚBLICO de 19 de Fevereiro de 2010)

Esta entrada foi publicada em Escritor com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/ciberescritas/2010/02/19/hitchens-tambem-esta-disposto-a-morrer/" title="Endereço para Hitchens também está disposto a morrer" rel="bookmark">endereço permamente.

3 comentários a Hitchens também está disposto a morrer

  1. Pingback: Ciberescritas » Christopher Hitchens, 1949-2011

  2. Quando alguém se dispõe a falar de Deus (seja contra ou a favor) é porque admite que Deus existe. De outro modo que interesse teria falar de algo que não existe? E se abordássemos a influência de Zodyzen na vida dos portugueses?

  3. Ele esteve no meio de nós .
    Em relação aos mots d’esprit sobre o seu pregresso esquerdismo soixante-huitard, podemos citar Pascal Bruckner e escrever: «Sempre detestei os apóstatas desse período: eles querem-nos envergonhar por não termos partilhado as suas ilusões, e também por não as termos perdido.»
    Sobre a derrisão voltairiana da sua crítica à religião, que transformou “GOD IS NOT GREAT-The Case Against Religion” no equivalente hodierno do “Porque não sou Cristão” (em alguns aspectos), de Bertrand Russell, podemos escrever: não, não, Deus não é um caso de absenteísmo! “God is not Great” é um livro sobre a demasiada omnipresença de Deus.

Deixar um comentário