Atacado pelas costas por um romance

Todo o livro é, de certo modo, uma ferida e a sua cicatriz ao mesmo tempo. E em “O Mundo” Juan José Millás foi atropelado por um romance quando pensava fazer uma reportagem sobre si próprio. Por Isabel Coutinho

Juan José Millás nunca quis ser escritor.
Queria ser leitor. Queria ler (para sempre) porque foi com a leitura que descobriu “um outro mundo”. Descobriu-o através da revista das Selecções do Reader’s Digest e da enciclopédia espanhola Espasa que existia em casa dos seus pais.

Deliciou-se na infância. “Com mais de 100 volumes, a Espasa editou-se em 1917. É um monumento, não fica a dever nada à enciclopédia britânica. Está muito bem escrita e eu passava a vida a lê-la”, conta Juan José Millás, sentado num dos sofás de um hotel da Póvoa de Varzim, onde esteve a participar nas Correntes d’Escritas, encontros de escritores de expressão ibérica.

Recorda-se da entrada sobre a morte. “Era fabulosa para uma criança porque explicava como é que se podia averiguar se uma pessoa estava mesmo morta. Através do tradicional espelho colocado à frente da sua boca, mas também através de um método mais eficaz: o de aproximar um fósforo aceso do dedo grande do pé do cadáver. A entrada dizia: ‘Se o dedo estalar, está vivo.'” A enciclopédia foi uma fonte de riqueza para o escritor e jornalista espanhol que se lembra também muito bem da entrada da enciclopédia sobre o mimetismo. Aí, Millás aprendeu que existiam insectos que ficavam com a aparência do meio em que se encontravam – podiam parecer folhas – e ficou a saber uma coisa que o impressionou muito.

“Que existia uma larva que parecia um excremento de pássaro. Ficava com essa aparência para evitar ser comida pelos pássaros. E depois de ler aquilo, ficava sempre a pensar se valia a pena viver assim, pagando esse preço, o preço de passar por uma merda!” Esse “outro mundo” que ele foi descobrindo com a leitura está todo dentro do seu mais recente romance, “O Mundo”, uma autobiografia romanceada que acaba de ser publicada (ed. Planeta). E como há “livros que fazem parte de um plano e livros que, tal como um carro que passa no semáforo encarnado, se atravessam violentamente na nossa existência”, este foi para Juan José Millás um dos livros que passaram o semáforo encarnado.

O escritor andava a fazer há algum tempo uma série de reportagens para a revista do “El País” -o Projecto Sombra -quando o editor lhe pediu para fazer uma reportagem consigo próprio. “Acompanhava uma pessoa durante um tempo determinado como se fosse a sua sombra. Andávamos sempre juntos e, a seguir, contava essa experiência. Mas contava-a a partir de mim, na primeira pessoa.

Não era uma reportagem objectiva, como aquelas que se chamam às vezes ’24 horas com’. Não. Eu vivia com uma pessoa, sendo a sua sombra durante um tempo e depois contava a minha experiência. Não tentava ser objectivo. O protagonista era eu”, explica.

Era uma fórmula que funcionava muito bem. A ideia ao princípio era que fosse feita com gente comum, mas teve tanto êxito que os políticos e artistas quiseram entrar no projecto.

“Começámos com um rapaz que tinha síndroma de Down, funcionou muito bem, foi capa. E quando já tínhamos feito umas 15 ou 20 reportagens, disse a um responsável do jornal que devíamos encerrar o assunto e começar outra coisa. Respondeu-me que estava bem mas com uma condição: ‘Tens que terminar com uma sombra tua. Feita por ti.’ E aquilo pareceu-me uma brincadeira.” Mas o escritor começou às voltas com a ideia e quanto mais pensava nisso, mais lhe agradava. De maneira que começou a seguir-se, a perseguir-se, a observar-se como havia observado e perseguido os protagonistas das suas anteriores reportagens.

“Comecei a tomar notas e, num momento determinado, compreendi que aquilo não era uma reportagem.
Aquilo era um romance que acabava de me atacar pelas costas.”

Uma fenda na caixa da memória

Tudo aquilo fez com que ele pensasse na sua própria vida. Nas suas reportagens do Projecto Sombra Juan José Millás fazia sempre uma pergunta: “Como é que este personagem chegou a isto?” A ideia era ir buscar ao seu passado remoto algo que explicasse porque é que tinha chegado ao que tinha chegado. Por exemplo, investigando uma mulher que era médica legista, que fazia autópsias.

Ela contou-lhe que o seu pai também era médico e que quando tinha 15 anos a tinha levado a assistir a uma autópsia. Isso marcou-a para sempre.

“Pois, houve um momento em que me estava a observar e perguntei: ‘Como é que cheguei aqui?’ Apareceu então involuntariamente na minha cabeça uma frase que não fui eu a formular e que é a primeira do livro: ‘O meu pai tinha uma oficina de aparelhos eléctricos de medicina.'” Quando lhe apareceu esta frase, Millás, lembra-se perfeitamente, estava num quarto de hotel em Barcelona.

Abriu-se “uma fenda na caixa da memória e começou a sair material”.

Sentou-se à secretária do seu quarto e começou a escrever um ditado em estado de transe. “Escrevi umas dez ou doze páginas. Compreendi que não era uma reportagem, era outra coisa. Continuei a escrever nos dias seguintes e todo o romance escrevi-o numa espécie de estado de transe, sem colocar nele nenhuma vontade minha. Era um romance que me estava a ser dado, era uma prenda, porque não tinha que fazer nenhum esforço. De tal maneira aconteceu assim que não me recordo de o estar a escrever. Não tenho memória. Não sei como o escrevi. Escreveu-se.”
Foi a primeira vez que isto lhe aconteceu de uma forma tão constante. Já lhe tinha acontecido parcialmente, mas nunca desta maneira.

Millás passou três anos no divã (muito tempo antes de escrever este romance). Estava a acontecer-lhe algo parecido com as sessões de psicanálise, em que se começa a fazer associações livres. Quando terminou o romance, tinha o dobro das páginas.

Editar e ordenar todo o material deu-lhe mais trabalho do que escrever porque foi obrigado a sacrificar muito do que gostava, mas queria que fosse um romance “mais intenso do que extenso”.

“O Mundo” é uma autobiografia romanceada e o que no livro não obedece a uma verdade literal mistura-se com o que aconteceu na realidade.

De tal maneira que até ao escritor lhe custaria dizer o que foi aquilo que aconteceu e aquilo que não aconteceu.

“Porque o que não aconteceu, ocorreu-me. Por outro lado, há coisas que não são verdade na sua literalidade, mas são-no na sua profundidade. E, as coisas que não são verdade na sua literalidade são mais verdadeiras do que as outras.” Muitas pessoas colocaram em causa esta exposição pessoal e perguntaram-lhe se lhe tinha custado fazê-lo. Respondeu sempre que não.

Acha que o pudor para um escritor é nefasto. É um modo de autocensura.

“Por isso curei-me do pudor logo nos meus primeiros romances. Actualmente não tenho nenhum pudor”, afirma.

O facto de ser em “O Mundo” a personagem principal não lhe importava, porque sabe que “a primeira matéria literária para um escritor é ele próprio. E não se pode renunciar a esse material porque é um material precioso”, acredita.

Entre o sonho e o delírio

As drogas e os mundos artificiais estão muito presentes ao longo de todo este livro. “O Mundo” é quase um romance onírico. “Essa carga onírica que contamina todo o romance quis mantê-la porque é real. A percepção que tenho da minha infância, aquilo que mais recordo é a estranheza. A estranheza frente a tudo, frente a um mundo que eu não entendia.” Essa estranheza tem muito a ver com um mundo onírico, onde sucedem continuamente coisas fora do normal e para as quais se olha com perplexidade. E, diz, essa carga onírica que contamina todo o romance é consciente. “Sei que era assim e que está metaforizada com momentos como o do éter, a utilização do haxixe, os comprimidos de Optalidom”, explica.

Este livro é também, de certo modo, um produto de delírio. Tal como todas as grandes obras na história da literatura. A “Divina Comédia”, por exemplo, é a descrição de um sonho. O “Dom Quixote” está cheio de momentos de delírio. “Se pensarmos em grande parte da história da literatura, as grandes obras dão sempre a impressão de que são produto de um sonho ou de um delírio”, recorda o escritor.

Quando escreveu as primeiras páginas deste livro naquele hotel de Barcelona, Millás viu-se a si próprio na oficina de instrumentos eléctricos de medicina do seu pai. Estava fascinado a olhar para o pai a fazer cortes num pedaço de carne de vaca, a experimentar um bisturi eléctrico, quando ele lhe disse: “Repara, Juanjo, cauteriza a ferida ao mesmo tempo que a causa.” Essa frase nunca a esqueceu. Na altura não a compreendeu muito bem -“havia na frase uma palavra complicada que era cauterizar, mas ficou-me gravado porque de alguma maneira compreendi que aquela frase continha um paradoxo, uma contradição.”
É por isso que na literatura o que mais lhe interessa é o paradoxo. E no hotel, naquela espécie de transe, viu aquela cena. Lembrou-se então que, de certo modo, a escrita é um bisturi e a literatura abre feridas ao mesmo tempo que as fecha. “Todo o livro é, de certo modo, uma ferida e a sua cicatriz ao mesmo tempo.”

(Entrevista publicada no suplemento Ípsilon do Jornal PÚBLICO no dia 20 de Fevereiro de 2009)

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