À espera da pergunta certa

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Ciberescritas

Isabel.Coutinho@publico.pt

No Brasil há uma nova maluqueira: Formspring.me. Chamam-lhe o “novo auê” nas redes sociais. Começou a “estoirar” a semana passada e o Brasil já é a segunda maior fonte de tráfego deste “site”, a seguir aos Estados Unidos. O escritor João Paulo Cuenca durante sete dias foi escravo desta coisa. Ficou em frente ao computador à espera que lhe chegasse a “pergunta certa”.

Tal como acontece no Twitter, no Formspring também é possível seguirmos pessoas que nos interessam. Mas elas não nos enviam pequenas mensagens, elas estão a responder às nossas perguntas. Quem abre um perfil no “site” pode fazer as questões que sempre quis a alguém e fâ-las anonimamente ou não. E depois essa pessoa, se quiser responde.

O brasileiro João Paulo Cuenca resolveu usar esta ferramenta para “fazer uma performance literária” (à falta de um nome melhor para definir). No blogue que mantém no “site” do jornal “O Globo”, onde a sua crónica semanal é publicada no suplemento “Megazine”, Cuenca colocou o aviso para este Pergunte qualquer coisa: “Durante sete dias (15-22 dez 2009) responderei TODAS as perguntas anónimas que me forem feitas no formspring (não responderei perguntas que envolvam terceiros). Antes de escrever, saiba que está sendo usado. Isso aqui é um experimento ficcional. Dele somos cobaias.”

Quando esta crónica for publicada no Ípsilon, João Paulo Cuenca já não estará agarrado ao seu computador portátil a responder a questões. A experiência já terá terminado. Mas vocês, poderão ler as respostas às perguntas que lhe foram colocando online. O autor do romance “O Dia Mastroianni” (ed. Caminho) começou a escrever na Internet e agora voltou ao local do crime.

Ele quer investigar “a relação passional das pessoas com um escritor de 31 anos”. Que no caso dele tem presença regular nos media pois além de escrever a crónica no aparece regularmente num programa de televisão como comentador.

No primeiro dia, ele já tinha recebido centenas de perguntas e dizia sempre aos seus leitores que ia responder a todas. Estoicamente João Paulo Cuenca aguentou todas as questões, desde as mais parvas, às mais inconvenientes e às super-interessantes e inteligentes.

“¿Felicidad eterna o un dólar? ¿Por qué?”, perguntava alguém. “Um dólar existe”, respondia Cuenca. “O que você está fazendo em Alphaville?” E o escritor respondia: “Agora estamos chegando em algum lugar.” Ser escritor é uma maldição? “Dos males, o menor.” Mulheres com cabelo curto ou longo? “Cabelo sempre pode crescer e eu tenho paciência.” Um verso de um poema que você nunca esqueceu… “Decorar poema é coisa de gente que não tem o que fazer. Eles estão nos livros justamente para serem lidos. E em voz baixa.” Quem é você? O que você quer? Aonde você está indo? A quem você serve? Em quem você confia? “Não sei. não sei. não sei. não sei. e não sei.” Quem é você? “Se eu soubesse, não te contava.” E por aí adiante.

João Paulo Cuenca ainda não sabe o que vai fazer com isto. “Talvez um livro”, diz. “Acho que o resultado pode ser interessante, nem que seja como recorte e diagnóstico desses tempos draconianos. Um leitor pescou, aliás, a referência óbvia : “‘Alphaville’, de Jean-Luc Godard. Na verdade, como escrevi lá, eu estou é procurando a pergunta certa.”

Formspring.me João Paulo Cuenca

http://www.formspring.me/jpcuenca

Blog de anotações

http://oglobo.globo.com/blogs/cuenca

(crónica publicada no suplemento Ípsilon do jornal PÚBLICO de 24 de Dezembro de 2009)

Um comentário a À espera da pergunta certa

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