Ele lá arrebitou as orelhas

Ciberescritas

Isabel.Coutinho@publico.pt

É lá para a página 143 que José, o Especialista, vai ao restaurante do “seu João” e este começa a explicar-lhe como preparou o bacalhau à Gomes de Sá. A coisa começou na noite anterior com o bacalhau de molho, que depois foi desfeito em lascas e coberto de leite, até à fase de o alourar com cebolas, alho e azeite. E ir ao forno. Uma pessoa começa a ler “O Seminarista” e não consegue parar.
É uma noite perdida (para o sono). Literalmente: não se tiram os olhos do novo romance de Rubem Fonseca, Prémio Camões e Juan Rulfo (no ano de 2003), que acaba de ser publicado no Brasil pela Agir, do grupo Ediouro.

No final de Abril o escritor, 84 anos, deixou a editora Companhia das Letras onde estava há mais de 20 anos e não deu explicações – aliás, explicações é coisa que Rubem Fonseca raramente dá; é conhecido por não dar entrevistas (pelo menos no Brasil) e por raramente se deixar fotografar (só por familiares).

Depois de um leilão disputadíssimo (em que até a editora Leya participou) os direitos das obras do escritor foram para a Ediouro, que acaba de lançar este novo livro numa edição especial – dois em um. Ganha-se o conto “A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro” com fotos de Zeca Fonseca (filho de Rubem) quando se compra a edição em papel.

Este romance “O Seminarista” está a ser lançado também em versão digital. O “e-book” pode ser lido no Kindle, da Amazon, e no iPhone ou iPod Touch, da Apple. A versão para o Kindle está disponível através da loja on-line Singular (que faz parte da Ediouro e se dedica às novas tecnologias) mas só para brasileiros (é necessário ter CPF). E a versão para ser lida nos aparelhos da Apple irá ficar disponível no iTunes.

A editora Agir, do grupo Ediouro, vai também reeditar a obra completa de Rubem Fonseca e nas livrarias brasileiras já estão novas edições de “Os prisioneiros” (o seu primeiro romance) e “Lúcia McCartney”. É uma colecção organizada pelo jornalista Sérgio Augusto.

Em “O Seminarista”, José (personagem que já aparecia nos contos de “Ela e Outras Mulheres”, editado em Portugal na Campo das Letras) é um ex-seminarista que deu em “matador profissional” a quem chamam o Especialista. Vive no Rio, faz trabalhos para o Despachante e apaixona-se por uma rapariga alemã, que traduz livros brasileiros e é magra “com peitos pequenos que nem necessitam de sutiã”. O que ele realmente ama são os livros, filmes e mulheres.

Este é o 11º romance de Rubem Fonseca, que já recebeu cinco vezes o Prémio Jabuti e o grupo Ediouro está a apostar na sua divulgação de forma diferente. Abriu um “site” dedicado ao “O Seminarista”.
Está lá um excerto do romance em PDF e um “trailer” para promover o novo livro onde a voz do narrador é a voz de Rubem Fonseca. Há ainda um ficheiro áudio onde o escritor lê um excerto do seu conto “A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro” e “links” para o que já se escreveu sobre este livro e para o site oficial de Rubem Fonseca.

O jornalista Ubiratan Brasil escreveu no jornal “O Estado de São Paulo” que há uma “saudável competição” entre Rubem Fonseca e o escritor João Ubaldo Ribeiro a propósito de novidades tecnológicas. Ubaldo terá brincado dizendo ao jornal que estava “ligeiramente” à frente de Rubem Fonseca porque recentemente comprou um monitor enorme, que lhe permite “enxergar melhor as letras”.

O que tem graça nesta história é que em Fevereiro, Rubem Fonseca publicou uma crónica no Portal Literal onde perguntava se o Kindle iria dar certo e escrevia: “O significado da palavra inglesa Kindle é ‘arder, acender, incendiar.’ Querem saber de uma coisa, aqui entre nós? Esse Kindle me parece fogo de palha.” O escritor parece ter mudado de ideias ou estará a querer colocar o Kindle à prova com este seu livro.
Ou talvez alguém lhe tenha dito, como diz uma das personagens neste seu novo romance: “Arrebita-me essas orelhas, como dizia a minha mãe.”

O Seminarista

http://www.oseminaristaolivro.com.br

Rubem Fonseca

http://literal.terra.com.br/rubem_fonseca/

Loja Singular

http://www.lojasingular.com.br/

(crónica publicada no suplemento Ípsilon de 27 de Novembro de 2009)

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