O homem do cachimbo

Ciberescritas

Isabel.Coutinho@publico.pt

Quando, há 17 anos, Pierre Assouline escreveu a biografia sobre Georges Simenon (“Simenon”, colecção de livros de bolso Folio) ficou saturado. Já não podia ouvir falar mais do escritor belga que é autor de 400 romances, viveu em 33 casas e teve inúmeras mulheres. É que os três ou quatro anos que passou obcecado pelo criador do “commissaire Maigret” foram tão opressivos que nos anos seguintes Assouline nem conseguia abrir um romance de Simenon (1903- 1989).

O regresso à obra do belga foi progressivo e agora o ex-director da revista “Lire” voltou a ter prazer a ler os seus livros. Releu “Quand j’étais vieux” e achou que estas memórias têm páginas apaixonantes, um tom, uma violência e uma tensão de que só agora, mais velho, se apercebeu.

No ano em que se assinalam os 20 anos da morte deste escritor, o jornalista e escritor está a lançar em França “Autodictionnaire Simenon” (ed. Omnibus), dicionário de A a Z para se perceber o universo de Georges Simenon. Pode ser visto página a página (só até à 11, é um excerto…) no “site” Tout Simenon.

Quando estava a reler as provas deste livro Assouline percebeu que tinha redescoberto coisas de que se tinha esquecido, explica no vídeo que a editora fez para promover o livro e que está no “site” Tout Simenon onde também se podem ver as fotografias feitas pelo escritor belga, onde se podem ler testemunhos, ter acesso a uma lista de “links” para os lugares de Simenon na Internet.

Este projecto começou quando a editora Omnibus procurou um inédito para assinalar os vinte anos da morte de Simenon (4 de Setembro de 1989). Inéditos não havia e Pierre Assouline, que mantém no “site” do “Le Monde” o blogue La République des Livres, lembrou-se de um livro de homenagem com contribuições de pessoas que lhe deviam muito. A editora não aceitou o projecto, e o ponto de compromisso foi um dicionário que não fosse um dicionário clássico porque todas as entradas seriam retiradas do próprio Simenon, quer de coisas que ele tivesse escrito quer de coisas que tivesse dito. Só o ensaio- prefácio e a escolha dos termos são de Assouline.

Para concretizar a ideia, Assouline mergulhou nos 400 romances que Simenon escreveu (200 sob pseudónimo, obras de juventude, 70 livros com Maigret, etc). Para o fazer, contou à revista “Le Nouvel Observateur”, andou sempre com uma caneta USB e releu toda a obra no ecrã do computador. O facto de estar tudo em formato digital ajudou-o a fazer as buscas por palavra-chave. Mas isto foi só uma parte do trabalho. Tudo o que tinha a ver com decifração de cartas em fotocópias e de entrevistas áudio foi mais complicado.

Simenon, segundo Assouline, escrevia cinco livros por ano e emagrecia cinco quilos por livro (escrevia um livro em três meses). Quando falava não se calava durante horas. Quando enviava cartas eram às dezenas. Sofria de priapismo e quando o médico lhe deu três anos de vida deixou de beber e de fumar. Mas anos depois quando um outro médico lhe disse que o diagnóstico estava errado voltou a fumar. O seu cachimbo, é claro

Tout Simenon

http://www.toutsimenon.com/

La République des Livres

http://passouline.blog.lemonde.fr/

(crónica publicada no suplemento Ípsilon de dia 18 de Setembro de 200)

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