O regresso de Jorge de Sena

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(foto de Enric Vives-Rubio)

Jorge de Sena (1919-1978) partiu para o exílio há 50 anos por causa da ditadura e nunca mais regressou. Foi estando em Portugal de visita. Foi publicando livros e colaborando em revistas. Morreu no dia 4 de Junho de 1978, em Santa Bárbara, na Califórnia, EUA, onde ficou sepultado no cemitério do Calvário. Hoje, a partir das 10h, na Basílica da Estrela, em Lisboa, decorrerá uma cerimónia de homenagem ao poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico e tradutor. Um representante da sua família, o ensaísta Eduardo Lourenço, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, e o ex-Presidente da República António Ramalho Eanes, que era seu amigo, irão evocar o poeta. Segue-se a trasladação dos seus restos mortais para o Cemitério dos Prazeres.

Mécia de Sena, a viúva do escritor, não virá a Lisboa “por causa do impacto” que lhe causa a cerimónia. Mas a partir da sua casa em Santa Bárbara, na Califórnia, disse que o regresso de Jorge de Sena à sua pátria tem um significado muito importante para ela bem, como teria tido para ele. “Espero que seja o passo decisivo para o reconhecimento do meu marido como escritor e como cidadão”, afirmou, lembrando que a iniciativa da trasladação foi do ministro da Cultura, com a qual concordou imediatamente. “Quando o meu marido morreu, eu tive o desejo de o mandar para Lisboa, mas à última hora, apesar do empenho do general Ramalho Eanes, o Presidente da República na altura, não se processou a trasladação.”

Jorge de Sena partiu em 1959 para o exílio, porque estava “coarctado” na sua liberdade. “Saímos para ele escrever sem pensar nos limites que lhe eram impostos”, explica a sua mulher. O poeta publicou As Evidências (Poema em 21 Sonetos) em Janeiro de 1955. O livro foi apreendido pela polícia política PIDE sob a acusação de “subversivo” e “pornográfico”, conta-se numa cronologia na exposição sobre o espólio de Jorge de Sena, que pode ser visitada até hoje, na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP). Antes de partir, em 1959, o escritor envolveu-se no Golpe da Sé, uma intentona que se propunha derrubar o Governo de Salazar (Sena ocuparia o cargo de ministro das Obras Públicas, já que era licenciado em Engenharia Civil).

Jorge de Sena exilou-se então voluntariamente no Brasil, onde chegou a 7 de Agosto. “Passou a ter condições de vida e de trabalho que potenciaram a sua criatividade”, diz Jorge Fazenda Lourenço, especialista na obra deste autor. Escreveu no Brasil muitos dos poemas de Metamorfoses, uma boa parte dos poemas de Arte de Música, quase todo o romance Sinais de Fogo e o O Físico Prodigioso, além dos ensaios académicos sobre Camões. “Publicava sempre as obras em Portugal e a obra dele foi fazendo caminho”, afirma Jorge Fazenda Lourenço, sublinhado que o autor articulou o carácter ético da poesia e a preocupação estética, num tempo em que estas duas vertentes estavam dissociadas.
Nos anos seguintes, “ir a Portugal era um jogo”, porque entre 1959 e 1968 “tinha ordem de prisão”, conta Mécia de Sena. Saíram do Brasil por causa do golpe militar em 1964. “Tínhamos alergia às ditaduras. Saímos do Brasil também por causa da ditadura”, explica Mécia.

Uma cruz muito triste

Chegaram aos Estados Unidos em 1965, onde Sena começou a dar aulas na Universidade de Wisconsin. Anos depois, já era director do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Literatura Comparada, na Universidade da Califórnia. “(…) De Portugal chegam-me elogios e um silêncio de morte, de todos os lados – como essa pátria, tirando o povo e uns raros, é vil canalha, e mesquinha… (e a minha amargura de erudito é a descoberta de que realmente o foi sempre – pelo menos do século XVII em diante, quando realmente não merecíamos senão ter continuado espanhóis). E, tudo isto, sem estímulos e sem calor humano é uma cruz muito triste de carregar”, escreveu no dia 9 de Janeiro de 1968, numa carta à sua amiga Sophia de Mello Breyner e que faz parte da correspondência entre os dois poetas editada pela Guerra & Paz.
Nesse ano, Jorge de Sena veio à Europa com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, mas a 22 de Dezembro foi detido pela PIDE, durante 24 horas, quando tentava entrar em Portugal pela fronteira espanhola. Marcelo Caetano acabou por conceder-lhe um visto de entrada.
Depois do 25 de Abril de 1974, Sena regressou à pátria já em liberdade, mas ficou apenas dois meses. “O país na verdade nunca o reconheceu. E se no tempo da ditadura podíamos achar isso natural, já não o achávamos depois do 25 de Abril. Ele gostava de ter regressado”, lamenta Mécia de Sena.

Na opinião de Fazenda Lourenço, essa ideia da incompreensão existe mais do ponto de vista do cidadão, porque como poeta sempre foi reconhecido. “Embora sempre restritamente, mas isso é o que acontece com todos os escritores portugueses.” O facto de Sena não ter sido muito acarinhado depois do 25 de Abril está, na sua opinião, relacionado com a sua independência política. “As pessoas nas universidades portuguesas nunca acharam muito bem que Jorge de Sena viesse. Às vezes pelas razões mais estúpidas!” Lembra que o poeta Joaquim Manuel Magalhães foi testemunha de uma assembleia na Faculdade de Letras onde chegou a argumentar-se que ele não merecia regressar porque já não era português e porque nunca tinha sido antifascista. “Ele sempre foi inconveniente numa altura em que as pessoas não reconheciam esse tipo de autonomia crítica. Era uma altura em que se pensava pôr nos lugares as pessoas que poderiam de algum modo ser fiéis partidariamente.”

A ditosa pátria

Para o académico Fernando Cabral Martins, o facto de Jorge de Sena ter partido para o exílio, “muito cedo”, aos 40 anos, tê-lo-á marcado com “alguma amargura”, disse à agência Lusa. A relação de Sena “com Portugal, com a cultura portuguesa e mesmo com a intelectualidade portuguesa foi difícil, desde o princípio até ao fim, foi uma relação que nunca se resolveu”. Basta lembrar o poema: “Esta é a ditosa pátria minha amada. Não./Nem é ditosa, porque o não merece./ Nem minha amada, porque é só madrasta/ Nem pátria minha, porque eu não mereço/ a pouca sorte de ter nascido nela.//”
O poeta Vasco Graça Moura diz que a trasladação é mais do que justa. “Jorge de Sena é uma figura quer da criação cultural portuguesa, quer da cidadania do mais alto gabarito e nesse sentido justifica-se plenamente que os seus restos mortais regressem ao país que esteve sempre no centro das suas preocupações: Portugal. Eu preferia tê-lo no panteão, mas de qualquer maneira já tem um grande significado simbólico que ele tenha regressado a Portugal.”

Jorge de Sena como poeta é “gigantesco e torrencial”. “É evidente que a percepção do país a partir quer do exílio brasileiro, quer do exílio norte-americano contribuiu para um enorme coeficiente de amargura em relação à maneira como via Portugal. Voltou cá, em 1977, para fazer o discurso da Guarda, a que chamava ‘o sermão da Guarda’. Foi com certeza uma grande satisfação para ele e, para nós, uma grande lição.”
Nesse discurso, no Dia de Portugal, por onde passava Camões, Sena afirmou que “os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha” e que a nossa história esteve “sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião”.

O texto deste discurso faz parte do espólio de Jorge de Sena doado pela família à Biblioteca Nacional. Do que já está em Lisboa, o mais significativo é o manuscrito de Sinais de Fogo e o epistolário que integra correspondência familiar e com Alberto de Serpa, Guilherme de Castilho, Vergílio Ferreira, Ruy Belo, Ruy Cinatti, Eugénio de Andrade e José Régio.
“Haverá muito mais coisas para mandar”, afirma ao telefone, a partir da Califórnia, Mécia de Sena. “Ainda falta ir o resto da biblioteca que cobre as paredes da casa. De inéditos haverá muito pouca coisa que esteja sem publicação em jornal ou em revistas. Quase não há. Ainda há manuscritos e há muita correspondência. São gavetas cheias de cartas de gente o mais incrível que possa imaginar.”

“Este espólio foge ao tradicional”, explica Fátima Lopes, do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da BNP. “Nota-se na organização e selecção de documentos uma mão feminina, uma mão de mulher. Mécia de Sena fez um grande serviço à investigação.”
Para a Biblioteca Nacional foram também objectos. “Isso era uma das minhas exigências”, afirma Mécia de Sena. “O escritor não é um boneco de palha. É gente. Tem que se ter no espólio o que ele era como pessoa. Como não há uma casa-museu, que haja uma sala-museu, ou melhor, uma biblioteca-museu, porque os livros não estão separados da pessoa que os escreveu. A pessoa viveu, sofreu e morreu e tudo isso tem que estar dado.” Está lá a primeira camisinha que o escritor usou bordada pela mãe, as alianças de casamento, os chinelos… Enfim, não está na exposição, mas Mécia também mandou um ursinho de peluche. “O meu marido não mudava de casa sem levar a Dona Ursa, era a sua mascote. Perguntava-me sempre onde estava a Dona Ursa.” Mécia de Sena era a guardiã de Dona Ursa e tem sido também da divulgação da obra do marido.
A Guimarães Editores irá publicar sistematicamente toda a obra de Jorge de Sena.

(publicado no suplemento P2 de dia 10 de Setembro de 2009)

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4 comentários a O regresso de Jorge de Sena

  1. José: estar no Panteão Nacional implica, na minha opinião, ter-se altas qualidades não só profissionais, ou artísticas, mas também, e principalmente, de carácter, de cidadania. É por isso que eu considero que um cúmplice (no mínimo…) de terrorismo, de regicídio, não merece estar no mesmo sítio onde, entre outros, repousa Humberto Delgado… e eu diria que o «General sem Medo» é uma boa «vizinhança».

  2. Octávio: se vê o “estar no Panteão Nacional” como dependente da superioridade da obra literária, discordo completamente. Sem querer apoucar o mérito de Sena, ou fazer comparações entre ambos, lembro apenas o Romance da Raposa e O Malhadinhas.
    O meu juízo de valor despreza por completo opiniões políticas e, que eu saiba, Aqulino não pediu para ir para lá nem escolheu a vizinhança.

  3. De Sena, gosto sobretudo de O Físico Prodigioso. A transladação nada me diz, a ele nenhuma diferença fará, e à família pouco parece interessar. O que se compreende: “Não dormes sob os ciprestes / Pois não há sono no mundo…” E faleceu há muito tempo. Aguardo com expectativa a republicação da sua obra.

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