Elogio às mulheres

9789722120623

Em “Jesusalém” aparecem temas recorrentes na obra do moçambicano Mia Couto mas há algo de novo.

O escritor vem dizendo que se quer surpreender a si próprio e reinventar a sua escrita. Até agora, esta será a obra onde mais se terá aproximado desse desejo. Quando na segunda parte do livro se começa a ler, na pág. 139 – “Sou mulher, sou Marta e só posso escrever. Afinal talvez seja oportuna a tua ausência” -, temos a sensação de que entramos num outro livro. Se não soubéssemos que se trata de Mia Couto, nunca o adivinharíamos. O escritor quis construir este romance como uma cebola que é preciso descascar. E é camada após camada, já próximo do fim, que tudo, neste universo mágico e poético, começa a fazer sentido.

Ficamos perplexos com o título. “Jesusalém”, à primeira vista, parece ser “Jerusalém” [título de um romance de Gonçalo M. Tavares também publicado na Caminho]. Não é. Mia Couto sabia que o título podia ser complicado e hesitou – por alguma razão no Brasil a Companhia das Letras mudou o título para “Antes de Nascer o Mundo”. E o livro, que numa primeira versão terminava com a frase “Aqui está Jesusalém” (pág. 293), acabou por crescer. Mia Couto acrescentou parágrafos a partir dessa frase e deu ao romance um final mais optimista.

Entramos num mundo estranho que nos é contado por Mwanito, o afinador de silêncios, um rapaz que tinha “inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios”. O menino vive num ermo habitado apenas por cinco homens e a que deram o nome de Jesus-além: “Simplesmente chamado assim: ‘Jesusalém”. Aquela terra onde Jesus haveria de se descrucificar.” (pág. 13)

A Mwanito e ao irmão, Ntunzi, o pai Silvestre Vitalício, que tinha “perdido os Nortes”, explicou que o mundo terminara e que eles eram os únicos sobreviventes. Por isso acompanhamos o amadurecimento de Mwanito, criança que cresce sem mãe e sem mulher por perto. Aos 11 anos, conta Mwanito, vê pela primeira vez uma mulher e chora. Naquele lugar que “é tão longe, que Deus se perde no caminho” vivem Silvestre Vitalício, o viúvo de Dordalma, que se manteve fiel à decisão de “emigrar para sempre da própria vida”, Mwanito, o irmão Ntunzi (que “vivia num só sonho: escapar de Jesusalém”) e Zacaria Kalash, o militar. O Tio Aproximado, que não vive naquele acampamento, traz notícias e mantimentos. Existe ainda a jumenta Jezibela e, a determinada altura, Marta, a portuguesa que vem alterar tudo. Embora o pai tivesse proibido naquele lugar os cadernos, o menino Mwanito aprende a ler: foi a guerra que o ensinou a ler as palavras. “As primeiras letras eu as decifrei nos rótulos que vinham colados nas caixas de material bélico.” (pág. 44).

Neste território só de homens, as mulheres estão, apesar disso, sempre presentes. Mia Couto criou um romance em que a ausência das mulheres faz com que a sua presença ainda seja mais forte – o poder de Dordalma, Marta e Noci. É um elogio às mulheres e às vozes femininas (através dos poemas escritos por mulheres em epígrafe em cada capítulo). É também um livro onde se reflecte sobre a culpa, a memória, o esquecimento. E sobre o que é isto da vida.
Um dia o pai diz a Mwanito que Jesusalém é um lugar “cheio de milagres”. “Nunca vi nenhum”, responde-lhe o filho. “São milagres tão pequenitos que nem damos conta da sua ocorrência.” Esta é a lição deste romance: “a vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado.”

Jesusalém
Autor: Mia Couto
Editor: Caminho
4 estrelas

(publicado no suplemento ípsilon de 7 de Agosto de 2009)

Esta entrada foi publicada em Ficção, Ípsilon, Livros com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/ciberescritas/2009/08/14/elogio-as-mulheres/" title="Endereço para Elogio às mulheres" rel="bookmark">endereço permamente.

2 comentários a Elogio às mulheres

  1. Difícil escolher livros neste país de literatura ”light”aplicada às mulheres…-D)Adoro MIA COUTO &fico com água na boca para ler ”Jerusalém” Obrigada

  2. Ai, Isabel… como consegues estimular os meus neurórios leitores! Que vontade de conhecer o menino que afinava os silêncios… (Oh! quantos sons esta imagem me sugere..!) Quero entrar já nessa Jerusalém dos pequenitos milagres e das mulheres invisíveis que me fazem lembrar as mulheres de Atenas.
    É assim que gosto de escolher os livros…

Deixar um comentário