Livro impresso em Portugal ainda vai prevalecer

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A Portugal chega tudo mais tarde e nem sempre o que funciona lá fora, funciona aqui. Veja-se o caso dos audiolivros e dos livros de bolso.

Isabel Coutinho

Na sessão de lançamento do livro com os posts do seu blogue, O Caderno, ficou a saber-se que nos contratos que José Saramago assinou para os EUA estão já previstas edições dos seus livros em versão electrónica.

Apesar de ter tomado essa decisão, o escritor não deixou de se indignar contra a pirataria: “Como é que as pessoas que defendem as edições de livros online esperam que nós, escritores, vivamos?” Também por isso, o Nobel da Literatura português disse esperar que “o livro feito de papel, com palavras impressas, tenha ainda uma longa vida”.

O escritor e editor da Quetzal, Francisco José Viegas, não crê que um autor se possa recusar a ser publicado em e-book ou em qualquer formato digital, se bem que tenha todo o direito em preocupar-se com a pirataria, tal como antes se preocupava com as fotocópias. “Aliás, creio que a percentagem de direitos para e-book ou qualquer outro formato digital deveria ser mais alta, de modo a que a economia de meios editoriais se reflicta nos ‘números do autor’.” De todos os escritores com quem falámos, Viegas era o único que já tinha experimentado ler num leitor de livros electrónicos. “Experimentei o Sony Reader e não me satisfez. Como leitor, acho bastante incómodo. É um jogo, uma brincadeira.”

Sistema de dígitos

Lembra que há uma barafunda nos suportes informáticos e no tipo de linguagem usada pelos diversos gadgets. Sabe que daqui a 20 anos estaremos a ler e-books, “o que vai criar um gravíssimo problema à indústria editorial, ao modo de trabalho e ao emprego dos actuais editores e impressores”.
Se isso acontecer, diz, altera-se o nosso modelo civilizacional, em que um livro deixa de ser visto como um todo e passa a ser um sistema de dígitos, modificável e adaptável. “Não é apenas uma mudança de plataforma: é um mundo que termina, uma economia que muda radicalmente e um sistema de produção que se altera para sempre. O problema é que isso é inevitável, razão porque vou saboreando os livros enquanto posso.” Miguel Sousa Tavares, por sua vez, não percebe que alguém queira ler um livro em formato electrónico. “O livro é um objecto que contém um texto, não é apenas um texto”, diz.
Se o seu editor, António Lobato Faria, lhe pedisse para publicar os seus livros em formato electrónico, teria que o “convencer”.

Mas Sousa Tavares não tem que se preocupar. Na Oficina do Livro, que há cinco anos tem uma cláusula que permite colocar essa pergunta aos autores, “é um assunto que ainda está numa fase embrionária”. Mas há, diz Lobato Faria, margem de crescimento editorial em Portugal temos índices de leitura baixos e o crescimento vai acontecer em todos os formatos.
“Vai obrigar os editores a pensar em novas formas de vender o livro.” Vários editores lembraram que o mercado do audiolivro, forte no estrangeiro, nunca vingou cá. Tal como o livro de bolso, que só agora começa a ter expressão. A Portugal, tudo chega mais tarde. “Ainda é cedo para se colocar esse problema em termos portugueses”, diz Manuel Alberto Valente, da Porto Editora. Nos contratos que assina com autores portugueses, porém, já contempla a utilização digital, o que não acontece com os estrangeiros. É difícil prever se a evolução vai ser rápida ou lenta, diz, mas há estudos internacionais que dizem que em Portugal o formato impresso ainda vai prevalecer por algum tempo.

Isso é claro na reacção de outros escritores. José Rodrigues dos Santos tem “apenas curiosidade” em relação aos e-books, mas se a sua editora considerar viável a publicação dos seus livros em formato electrónico, não se oporá. Inês Pedrosa nunca usou um aparelho para ler e-books, mas se isso facilita a leitura, não é contra. “Pessoalmente não me interessa.
Gosto de ler com um lápis e de escrever nos livros.” Miguel Esteves Cardoso parece ser a excepção. Tem um leitor de e-books, um BeBook, há um ano e desde o segundo dia já não passava sem ele.

(publicado no jornal PÚBLICO no dia 22 de Julho de 2009)

3 comentários a Livro impresso em Portugal ainda vai prevalecer

  1. A questão não é “aparecer” o ebook e “acabar” o papel.
    A experiencia em todos os dominios prova que pela utilização da informática não desapareceu o A4(incostestavelmente o formato mais ergonomico que existe);antes pelo contrário, aumentou exponencialmente a utilização do papel.
    Qual o problema em permitir ao mercado a escolha?
    O argumento,algo estafado, da pirataria tanto acontece no papel como no digital.
    Os Srs. Ecritores , na sua maioria, antes de opinarem deveriam utilizar o ebook, e só posteriormente opinar. Não podem confundir o que são as suas preferencias pessoais, com o que os leitores pretendem.
    Caros Editores permitam a multiplicidade da escolha!!!!

  2. Quando um jornalista perguntou ao pintor brasileiro Portinari o que pensava sobre a pintura a revólver, técnica que estava a surgir; justo a ele que era um mestre do pincel; respondeu que era a favor de qualquer nova técnica.
    Portanto Isabel: vida longa aos e.books!
    Vida longuíssima ao livro de papel!
    Preferimos só tudo!!!

  3. “A Portugal chega tudo mais tarde e nem sempre o que funciona lá fora, funciona aqui.”

    Este é um lugar comum miserabilista que ataca tudo o que se faz em Portugal, partindo do princípio que tudo o que vem de fora é bom e só nós é que somos uns asnos. “Só neste País!” Além de ser mentira, é uma tremenda injustiça para os que fazem as coisas. Desde as navegações de quinhentos, ao uso do multibanco e da via verde, passando pelo software original que vendemos até para a NASA, há muita coisa de valor feita em Portugal antes dos outros, ou que fazemos melhor que outros! Vá lá, levantem o moral!

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