Histórias de família dos Lobos e dos Antunes

António Lobo Antunes foi aplaudido de pé, emocionou e divertiu a multidão sábado à noite na Festa Literária Internacional de Paraty. “Deus vos pague!”, disse o escritor no fim, para a plateia, emocionado. [ver vídeos num post anterior]

Isabel Coutinho, em Paraty

“A amizade é como o amor. A gente encontra um homem e fica amigo de infância. Descobre um passado comum e há um princípio de vasos comunicantes que começa ali.” Foi assim que António Lobo Antunes iniciou a sua conversa com o jornalista e escritor brasileiro Humberto Werneck, no sábado à noite, na 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Primeiro ouviu sem dizer palavra a apresentação do jornalista – ignorando algumas perguntas que este lhe ia fazendo – mas quando resolveu começar a falar nunca mais parou. De tal maneira que, no final, nem houve espaço para perguntas do público.
“Nós almoçámos juntos ontem e foi um encontro maravilhoso”, disse o escritor português acerca do autor do livro ‘O Santo Sujo – A vida de Jayme Ovalle’ que ali estava com a função de o apresentar e de lhe fazer perguntas. Talvez por isso foi um António Lobo Antunes em estado de graça – divertido, bem-disposto, a fazer piadas, a contar histórias de infância, a aconselhar livros – aquele que em Paraty conquistou a multidão que o aplaudiu de pé no final da palestra que decorreu na Tenda dos Autores e tinha como título Escrever é preciso. Lá fora, na Tenda do Telão, os bilhetes para a sessão também estavam esgotados. E, tal como aconteceu já em outras conferências, havia gente de pé que não conseguiu bilhete. A meio da conferência, o escritor disse para a plateia: “Se vocês continuarem aplaudindo, não vamos sair daqui nunca”.
O escritor português tinha começado a ler o livro sobre Jayme Ovalle escrito pelo seu companheiro de palestra no dia anterior e isso fez com que voltasse atrás no tempo. A leitura das primeiras páginas desse livro lembraram-lhe a descrição da Belém do Pará do século XIX que o seu avô fazia. E serviu de mote para início de conversa.
“Para mim, o Brasil não é um país. São os cheiros, os sabores, os doces da minha avó e das minhas tias, a comida, uma maneira de viver e de falar e é sobretudo o meu avô, que está aqui presente em toda a parte. É a terra dele, é a terra da minha família. É a terra de onde vêm os meus nomes Lobo e Antunes”, e por isso para o escritor é “muito comovente” estar de novo no Brasil, onde – apesar de ainda aqui ter família – já não vinha desde 1983.
“Os meus bisavós [que viviam em Belém do Pará] mandavam engomar a roupa à Europa e iam todos os anos a águas a Vichy. Viviam como nababos. E uma vez passaram em Lisboa e deixaram o meu avô no Colégio Militar.” Era o seu avô António Lobo Antunes, que era oficial de cavalaria e depois entrou na revolução monárquica em 1918. Foi preso, desterrado para África e acabou depois por ficar em Portugal. Este avô de Lobo Antunes falava com sotaque de Belém do Pará.
Os livros que havia em casa deste avô de António eram só livros brasileiros. Machado de Assis, José de Alencar, Azevedo, Monteiro Lobato, toda essa geração. Embora o avô de Lobo Antunes lesse pouco. “Um dia, quando eu tinha doze anos, o meu avó mandou-me chamar ao escritório. Estava com um ar muito severo, muito zangado. Mandou-me sentar em frente dele e disse-me: ‘Ouvi dizer que você escreve versos’. Fez-se um silêncio. ‘Você é veado?'”, conta Lobo Antunes enquanto a plateia se ri às gargalhadas. “Para o meu avô, oficial de cavalaria, quem escrevia versos tinha que ser veado [homossexual]. Eu não sabia o que era ser veado mas disse logo que não. ‘Não, não, não’. Então fui tirar informação. E aquilo que me disseram ainda me tornou mais confuso.”

Sonetos a Cristo

António Lobo Antunes começou a escrever versos “por necessidade material”. O seu outro avô tinha morrido e a sua avó era uma mulher “muito piedosa, tinha um oratório em casa, estava sempre rezando”. Então, António Lobo Antunes fazia “sonetos a Cristo” que depois vendia à sua avó. “Isso foi muito bom porque me salvou de andar a pedir esmolas nas esquinas. Entregava-lhe um soneto, fazia um ar triste, ela tinha um oratório muito grande – a minha avó portuguesa – e, à frente do oratório, não sei porquê, é uma relação curiosa, tinha o cofre do dinheiro, mesmo em frente dos santos. Santos, santos, santos e por baixo, o dinheiro. Eu entregava-lhe o soneto a Cristo, que ela punha no oratório, ficava a olhar para ela com olhos de cão batido, até que ela dizia: ‘Quanto queres, filho?’.” Risos por toda a plateia.
O Prémio Camões 2007 tem seis irmãos, todos homens, e entre ele e o quarto irmão existem cinco anos de diferença. A avó do autor de “Os Cus de Judas”, a determinada altura, tinha uma cozinheira “muito bonita”. Os rapazes iam à missa com a avó ao domingo. A seguir, corriam para casa antes que a avó chegasse para andarem à volta da cozinheira. E, contou António Lobo Antunes, a senhora resolveu “o problema” de uma maneira muito diplomática. “Disse-nos: ‘A partir de agora, vocês têm conta aberta na pastelaria, podem comer todos os bolos que quiserem. E, como os bolos da pastelaria eram melhores que o ‘bumbum’ da criada, nós, em vez de irmos para casa, passámos a ir comer bolos para a pastelaria.”
Como eram muitos irmãos com a mesma idade, quando adoecia um, adoeciam todos. “O meu pai, que era médico, era muito severo. O meu pai não queria ter filhos, queria ter campeões de karaté. Tínhamos que ser bons em tudo.” Mas foi graças ao pai que aprendeu a gostar de ler poesia, era o pai que lhes lia poesia (Manuel Bandeira, por exemplo, que está a ser homenageado nesta FLIP) quando estava doente. Ao longo de toda a conversa, António Lobo Antunes teve alguns problemas com o microfone e chegaram mesmo a enviar um bilhete aos oradores a pedir que ele aproximasse o micro da boca. Isso serviu para o escritor, durante a conferência, ir fazendo piadas sobre a sua “má relação com aqueles objectos”. E dizer: “Se o meu avô estivesse aqui, perguntaria…”, a propósito da conotação fálica do microfone. Por vezes, apesar do aparelho que tinha no ouvido, pedia a Humberto que repetisse a pergunta. Aconteceu quando o entrevistador lhe perguntou se era verdade que ele “era bom de briga”? António contou que, quando chegava a casa e estava a explicar ao pai que quem lhe tinha batido era maior do que ele, este aconselhava: “Mordias-lhes os ovos!”.
Humberto Werneck, na sua apresentação, lembrou que alguns críticos consideram que a Academia sueca “cometeu um erro grave de português”, numa referência à atribuição do Prémio Nobel a José Saramago. A meio, disse que “o outro” vinha ao Brasil mais vezes. Lobo Antunes nunca se desmanchou, ficou impávido e sereno.
Por fim, Humberto lembrou que, numa entrevista que os pais de Lobo Antunes deram à jornalista espanhola Maria Luísa Blanco, o pai do escritor disse que não lia os seus livros e a mãe disse que lia mas que ficava um pouco contrariada.
“Eu também pensava que ele não tinha lido. Mas depois da morte dele encontrei os meus livros todos anotados e uma carta que ele me deixou de 600 páginas. Deve ter levado uns dois anos a escrever aquela carta”, revelou o escritor, emocionando a plateia, de onde se ouviu uma exclamação de surpresa. “A minha família era engraçada. Eu acho que nós nascemos todos por causa da Alemanha. O meu pai, para se especializar na sua área da Medicina, teve que ir para a Alemanha, onde havia a escola de Anatomia Patológica e então vinha uma vez por ano a Lisboa e ficava uma semana. Cada vez que ele vinha, e, depois, quando se ia embora, a barriga da minha mãe começava a crescer. E quando ele deixou de ir para a Alemanha a barriga da minha mãe deixou de crescer. Ainda hoje não sei o que há na Alemanha que faz crescer a barriga. Pelo menos a da minha mãe.”

Regresso à escrita?

Lobo Antunes, que escreveu 21 romances em 30 anos, contou como os seus primeiros livros foram recusados por várias editoras e o que passou para chegar ao reconhecimento internacional que tem agora. O seu trabalho foi elogiado pelos académicos e críticos George Steiner e Harold Bloom. “Tive a infinita sorte de ter os elogios dos dois”, disse.
Lembrou a sua amizade por Jorge Amado e por João Ubaldo Ribeiro, de quem se tornou amigo quando o escritor brasileiro viveu em Lisboa. E quem chateava por não escrever, por considerar que era preguiçoso. “Íamos a casa de João às duas da manhã e lá estava ele fazendo feijoada de chinelo e calção. Ele vivia o Inverno de Lisboa, que é frio, como se estivesse no Verão da Baía. E às quatro da manhã se comia a feijoada. Depois, não escrevia. Então deu uma entrevista a um jornal, em que lhe perguntavam: ‘João Ubaldo Ribeiro, você já não escreve?’ E ele respondeu: ‘Escrevo. Meu pseudónimo é António Lobo Antunes.'”
E vendo toda a paixão de Lobo Antunes a falar sobre como escreve os seus romances, Humberto disse-lhe que não percebia como é que, com toda essa paixão de artista que transparecia na sua conversa, ele estava a anunciar que ia deixar de escrever. António Lobo Antunes respondeu: “É que, às vezes, eu tenho caprichos de cocotte. Você lembra daquela bailarina francesa cheia de plumas no ‘bumbum’, Zizi Jeanmaire?! Às vezes gosto de dar uma de Zizi a abanar as plumas do ‘bumbum’. Há alturas em que se fica desesperado e se pensa que não se vai ser mais capaz. E se pensa: ‘Para quê escrever? Vou deixar de escrever’. É a nossa alegria e o nosso tormento”.
No entanto, na Pousada da Marquesa onde está hospedado em Paraty, António Lobo Antunes tem escrito todos os dias.

Texto publicado no P2 de 7 de julho de 2009
(Obrigada aos leitores que chamaram a atenção para o erro ortográfico -má conjugação do verbo – que saiu no meu texto impresso, peço desculpa por isso. Aqui já está o texto emendado)

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