Tudo por Chico Buarque


Muito divertida foi a conversa entre os dois escritores brasileiros Chico Buarque e Milton Hatoum, sexta-feira à noite, na Festa Literária Internacional de Paraty.

Já há vários dias que as conversas que se ouviam nos restaurantes, ao pequeno-almoço, nos encontros pelas ruas de Paraty onde está a decorrer até domingo a 7.ª Festa Literária de Paraty (Flip), iam sempre parar ao “genial” Chico Buarque. Aos 65 anos, o compositor e escritor brasileiro provoca um verdadeiro “frisson” ou “frenesi”, como dizem aqui. “Em mulheres e homens”, explicava uma senhora de São Paulo que, sexta-feira à noite, aguardava na Tenda do Telão (onde é transmitido num ecrã o que se passa na Tenda dos Autores, onde decorrem as sessões), o início da mesa “Sequências brasileiras”. Esteve nas edições anteriores da Flip, onde o escritor também participou, e, apesar da gripe, ali estava outra vez. “Só vim porque era o Chico. Senão a esta hora já estaria na pousada. Ele é brilhante.”

Com bilhetes a 30 reais para a Tenda dos Autores ou de 10 reais para a Tenda do Telão, a mesa onde participava Chico Buarque e o escritor Milton Hatoum esgotou meia hora depois de os bilhetes estarem à venda em Junho. Como a Tenda do Telão é um espaço aberto, uma multidão ficou de pé a assistir à conferência. Houve até quem se pendurasse nas estruturas metálicas (esse fã acabou na esquadra), pessoas sentadas no chão, mas a maior confusão foi no caminho que no final Chico Buarque fez a pé para chegar à mesa onde daria um número limitado de autógrafos. Muitas mulheres acotovelavam-se em filas gigantescas. Chegaram até a cair no momento em que o escritor subiu para o estrado. Houve quem subisse para cima de árvores.

A conversa entre o carioca Chico Buarque e o escritor nascido em Manaus Milton Hatoum foi moderada por Samuel Titan Jr.. Buarque leu um excerto do seu mais recente romance, “Leite Derramado” (editado em Portugal pela Dom Quixote), e Milton Hatoum leu umas páginas do romance “Órfãos do Eldorado” (editado em Portugal pela Teorema). Os dois romances falam sobre a história do Brasil e ambos são romances curtos. No entanto, o de Milton Hatoum resultou de uma encomenda da editora britânica Canongate para a sua colecção sobre os mitos (projecto em que participam escritores de todo o mundo). E depois da experiência, em que acabou por ter que reescrever o livro porque a primeira versão estava a ficar longa de mais e a ir noutra direcção, o escritor diz: “Essa coisa de encomenda é horrível. Nunca mais vou fazer nada por encomenda, nem um bilhete.”

O autor de “Leite Derramado” não deu entrevistas quando este foi publicado e, por isso, a curiosidade de saber o que o levou a escrever este romance era grande. “Não sei exactamente quando encontrei o meu romance. Eu termino um livro e não quero mais saber de literatura”, explicou. Quando Chico regressa à literatura – ele quando compõe música não escreve livros – sente que já não sabe como se escreve um livro. Mas o que ele sabia é que não podia escrever nada que se parecesse com “Budapeste”. “Achei que podia escrever sobre um tempo onde nunca estive (na década de 20). Tal como em Budapeste escrevi sobre uma cidade que nunca vi.”

Depois, como ele disse, “um dos pés deste romance está na música”. Foi ao ouvir uma versão da canção “O Velho Francisco” que encontrou o seu narrador, “um velho de cem anos de idade com aquela memória remota”. Não é um romance histórico, disse Buarque, “mas é um homem centenário e tem memórias dos seus pais”. “Chego até ao Brasil império, até ao Brasil colónia.” E por fim ficou “fixado” na história do navio francês “Lutétia”.

Entre o romance de Milton Hatoun e o de Chico Buarque existem algumas semelhanças. Ambos são concisos e reúnem muitas coisas em poucas páginas. Têm velhos e por ambos passa a história do Brasil e há uma mulher misteriosa. “Eu li o livro do Milton [Hatoum, publicado em 2008] recentemente”, contou Buarque, que quando está a escrever não lê outros romances. “Só fui ler o ‘Órfãos’ quando terminei o ‘Leite’. E aí pensei: Mas esse cara me copiou! E ele ainda me copiou mais rápido porque terminou antes de mim”, brincou o escritor, desatando a rir. E contou que o editor da Companhia das Letras chegou a brincar com os autores: “Alguém copiou de alguém ou vocês estavam escrevendo a mesma coisa.”

Chico Buarque confessou que escreve muito devagar e que escreve para ler. “Escrever é uma chatice!”, disse a determinada altura. Até mais de metade da escrita deste livro, Buarque lia alto aquilo que tinha escrito nos dias anteriores. Antes de voltar à escrita, “lia o livro todo desde o começo”. “Eu pegava atrás na história, estava tudo ali, o livro estava na minha mão.” E referindo-se ao discurso repetitivo e delirante da sua personagem principal nas 200 páginas do livro, acrescentou: “Se você descontar as vezes que o sujeito repete essas coisas, o livro vai ficar com 10 páginas!”

“Não sei se Guimarães Rosa é mais importante que João Gilberto”, disse Buarque, ao responder a uma pergunta do público. “Mas a música que eu gosto tem influência na minha escrita. Quando estou escrevendo, não mexo com música. Às vezes ouço música de fundo, por isso mesmo tenho a sensação que a literatura resulta musical.”

Aos 65 anos, o autor de “Estorvo” tem “lembranças claras” de coisas que se passaram em 1950. “Sessenta anos atrás parece que foi agora. Com a idade temos mais intimidade com o passado.” E referiu o seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, graças a quem tem essas lembranças de família e de outros tempos. “Meu pai era um homem sério, mas gostava de fofocas nas reuniões com os amigos.”

A propósito da pesquisa histórica que fizeram ou não para os livros, os dois autores enredaram-se na história de uma família e do Porto de Manaus que ambos referem nos romances e a meio da discussão Buarque disse que tinha pesquisado a família no Google e saiu-se com a frase: “Na imaginação não existe tudo. Já estava no Google, no seu e no meu!” Gargalhadas na plateia. E foi assim divertido até ao fim. Ou quase, porque ainda não tinha terminado e avisaram que Chico iria dar autógrafos e as pessoas começaram, irrequietas, a levantar-se e a correr para as filas dos autógrafos. Uma histeria para chegarem perto do escritor com olhos de “cor de ardósia”.

Texto publicado no P2

(Nota: depois de já ter escrito este texto, em conversa com Chico Buarque percebi que ele lia o livro todos os dias, mas não o lia alto. Fica aqui a rectificação)

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