Lobo, o filhote de Jorge Amado

Até domingo Paraty, no Brasil, está em festa. Vinte e cinco mil pessoas são esperadas na 7ª Festa Literária Internacional onde António Lobo Antunes é um dos convidados e Chico Buarque o autor mais aguardado.

Isabel Coutinho, em Paraty

No dia em que António Lobo Antunes chegou a Paraty, no Brasil, choveu. O escritor, que no sábado participará na 7ª Festa Literária Internacional de Paraty numa mesa cujo tema é “Escrever é preciso” e que tem os bilhetes há muito já esgotados, está desde quinta-feira hospedado na Pousada do Ouro juntamente com os outros autores convidados.

Já estão em Paraty o norte-americano Gay Talese (que tem passeado pelas ruas da cidade impecável com o seu chapéu), o biólogo inglês Richard Dawkins (que chegou do Pantanal com a sua camisa havaiana e na quinta-feira à noite deu uma conferência interessantíssima), o historiador britânico Simon Schama (que escreveu sobre o futuro da América) e o mexicano Mario Bellatin (que tem uma prótese no braço onde às vezes coloca uma flor).

Chico Buarque é o autor mais aguardado (por Paraty só se vêem grupos de mulheres que estão aqui para o ver e ouvir falar sobre o romance “Leite Derramado”). Ao final da tarde de quinta-feira, a editora brasileira de Lobo Antunes, a Objetiva/Alfaguara, que em Junho publicou o romance “O Meu Nome é Legião”, organizou uma conferência de imprensa.

O Prémio Camões 2007 – visivelmente bem disposto e já queimado pelo sol – não vinha ao Brasil desde os anos 80, há mais de vinte anos. Contou histórias da sua família, falou da guerra (apesar de dizer que não ia falar dela), lembrou autores brasileiros hoje esquecidos (Jorge de Lima, Paulo Mendes Campos) e fez rir às gargalhadas todos os jornalistas na sala quando à pergunta “na sua opinião quais são os grandes romancistas da língua portuguesa da actualidade”, respondeu: “Eu”.

A jornalista brasileira que fez a pergunta insistiu: “nem aquele que ganhou o Nobel, não?!”. E então António Lobo Antunes explicou que o que não gostava era da palavra “romancista” que só se pode aplicar a Balzac e a poucos mais. “Estamos noutro tempo. Eu julgo que a nossa língua produziu sobretudo grandes poetas. Sou capaz de dizer o nome de 15 ou 20 grandes poetas que escrevem em língua portuguesa. Na ficção é outra conversa.”

O autor de “Memória de Elefante” acrescentou que isto poderá ter que ver com “o nosso temperamento” e que aquilo que faz, um livro (“não sei como classificá-lo”, disse), exige um esforço diário “muito grande” durante dois, três anos. Quanto à poesia, contou que as suas tentativas aconteceram quando tinha 10 ou 12 anos mas eram más. “A poesia tem que ser muito trabalhada e é um trabalho diferente. Num poema é possível ter orgasmos durante meia página, agora ter orgasmos durante 500 páginas começa a ser doloroso. Quando se escreve ficção é necessário arranjar um processo técnico de descer, de subir, de deixar o leitor respirar, etc. Porque é impossível estar sempre em cima o tempo todo, torna-se insuportável”, explicou.

Já no final da “colectiva” (como dizem aqui) Lobo Antunes lembrou a sua amizade com o escritor Jorge Amado. Contou que quando estavam juntos o brasileiro lhe “estava sempre fazendo festinhas”. E que nessas alturas a mulher de Jorge Amado, Zélia Gattai, perguntava ao marido: “Porque é que você está sempre mexendo nele?”. E Jorge Amado respondia [ao contar esta história Lobo Antunes faz sotaque brasileiro]: “Gooosto de lamber meus filhotes.”

(texto publicado no P2 de 4 de Julho de 2009)

Deixar um comentário