E foi assim na Book Expo America 2009

l1000834

gajosnovos

l1000848

l1000847

A morte fica-nos tão bem na próxima temporada

Duas “samba ladies” de biquíni e penas coloridas desfilavam à hora certa pelos “stands” da Book Expo America, em Nova Iorque. Mas não dava para disfarçar: doença, morte, luto são temas dos livros que vêm aí.

Isabel Coutinho, em Nova Iorque

Famílias disfuncionais, cancro, doenças, drogas, álcool, um escritor que morreu (Robert Jordan) e deixou um manuscrito inacabado que um outro escritor, Brandon Sanderson, está a concluir. Ao fim de meia hora a assistir ao “Editor’s Buzz”, o painel na Book Expo America onde os editores falam dos seus livros para os próximos meses, ficava-se deprimido.

Uma das apostas para a “rentrée” é a história de uma infância invulgar contada em BD. “Stitches”, o livro de memórias de David Small, será publicado em Setembro na W.W. Norton. Este premiado ilustrador e autor de livros infantis norte-americano nasceu com problemas de saúde. O pai, que era médico, tentou resolvê-los com radiografias e injecções. Aos 11 anos apareceu-lhe no pescoço um caroço que todos pensavam ser um quisto sebáceo. Quando, finalmente, David Small foi operado, três anos e meio depois, acordou com uma cicatriz na garganta e uma única corda vocal. Deixou de ter voz e o silêncio, que nele era habitual, “deixou de ser uma escolha”. O estranho é que ninguém da família lhe contou que ele tinha cancro. Nem que a morte andava demasiado perto.

O editor Robert Weil, que apresentou o livro na Book Expo America (BEA), a feira dedicada ao sector livreiro que se realizou no final de Maio no Jacob K. Javits Convention Center de Nova Iorque, falou de uma infância “tão aterradora que poderia ter sido inventada por Kafka”.

David Small cresceu em Detroit nos anos 50 numa família disfuncional. A mãe era lésbica não assumida. O pai era infeliz, a avó tinha problemas psicológicos e o irmão só voltou a falar com David agora, quando ele lhe enviou o manuscrito a avisar que ia ser publicado.

É uma história de abusos. Os pais um dia proibiram-no de ler “Lolita” e queimaram-lhe o livro no quintal. “É um filme mudo disfarçado de livro”, acrescentou o editor Bob Weil na apresentação. Mas apesar disto tudo, quando se pega em “Stitches” não se consegue largar o livro antes do fim.

Outra história de sobrevivência é a de Alex Lemon, poeta norte-americano que em Janeiro de 2010 vai editar as memórias. “Happy – a memoir” é a aposta da editora Alexis Gargagliano, da Scribner. “Quando me enviaram pela primeira vez o manuscrito tive dúvidas. Não estava certa de querer ler a história de um universitário que abusou de drogas”, disse. Mas uma viagem de avião depois, já estava convencida. Para Alexis este é o tipo de livro que nos faz lembrar o que é estarmos vivos. Alex Lemon era o rapaz que engatava todas as raparigas na faculdade, era o rapaz das festas e a estrela da equipa de basebol. Na universidade a sua alcunha era “Happy”. Um dia acordou de manhã sem conseguir mexer parte da cara. Tinha 19 anos, sofrera o seu primeiro Acidente Vascular Cerebral. Seguiram-se vários e anos de tormento.

“O cancro está quase omnipresente em livros de ficção e de não-ficção”, explica José Prata, editor da Lua de Papel e da Caderno que esteve na BEA. “São histórias de todo o tipo e vários desses livros que reflectem sobre a doença fogem ao gueto da literatura barata. Há uma série de autores de prestígio que estão a escrever livros que reflectem sobre estes temas. Alguns destes livros são escritos por professores, por doutorados, são de auto-ajuda mais ao menos disfarçada. Como se o género da auto-ajuda estivesse a sofrer um ‘upgrade'”, conclui o editor de “O Segredo” em Portugal.

Embora a Marta Ramires, editora da Casa das Letras, parecesse que na BEA não havia nenhuma nova tendência a merecer destaque (“estava tudo muito parado”) notou que os livros de memórias e a não-ficção eram predominantes. Surgem obras que misturam memórias com auto-ajuda e dá como exemplo o livro-testemunho do actor Patrick Swayze, que luta contra o cancro . E “Resilience”, as memórias de Elizabeth Edwards, mulher do político John Edwards, doente com cancro da mama.

Os livros de reflexão política parecem ter acabado com as eleições norte-americanas. “Já ninguém tem livros a reflectir sobre o Iraque ou Guntánamo”, comenta José Prata. “E como a resposta do mercado à crise financeira foi muito rápida, praticamente esgotaram-se os livros sobre a origem da crise.” Não existiam na feira. Passou-se agora a uma segunda fase, em que se publicam narrativas, histórias paralelas à crise, de alguns dos protagonistas. “Está a fazer-se uma espécie de micro-história da crise”, afirma.

Segredo em torno de Dan Brown

Sempre a uma hora certa, as “samba ladies”, duas meninas de biquíni e penas coloridas pelas costas abaixo desfilavam rodeadas por músicos que tocavam ao vivo. Eram o contraponto aos livros com temas depressivos que se viam nos “stands”. Distribuíam convites para caipirinhas no pavilhão do Cool-er, onde um novo leitor de eBooks britânico estava a ser apresentado. Era impossível escapar-lhes.

Dos gigantescos cartazes onde se anunciava o novo Dan Brown, “The Lost Symbol”, também ninguém escapava. Estavam pendurados logo à entrada, uns a seguir aos outros, todos iguais e com a mesma mensagem. O livro mais esperado dos últimos anos irá para as livrarias norte-americanas no dia 15 de Setembro e será publicado pela Doubleday, chancela da Random House que pertence ao grupo Bertelsmann. Sabe-se que terá outra vez Robert Langdon, como personagem principal, mas não se sabe mais nada.

“Só cinco pessoas do mundo inteiro é que tiveram acesso ao manuscrito que está em posse da Random House”, explica João Gonçalves, director de “marketing” do grupo Bertelsmann em Portugal e que este ano foi à BEA. “Com enormes medidas de segurança e acordos de confidencialidade como costuma acontecer nestes casos”, continua. Por isso “The Lost Symbol” não foi distribuído na feira, nem se falou dele.

Ainda houve outras ausências de livros importantes. Ninguém falou de “Inherent Vice”, de Thomas Pynchon que estará à venda em Agosto e será um dos livros do Verão, e também não havia rasto de exemplares de “The Humbling”, de Philip Roth, que a Houghton Mifflin Harcourt vai publicar em Novembro.

Há 14 anos que se esperava um novo romance de Pat Conroy (autor de “O Príncipe das Marés”) e ele já existe. É “South of Broad”, será editado pela Doubleday em Agosto, e foi distribuído na BEA apesar de o escritor não ter ido à feira como estava marcado. O agente explicou que o médico de Conroy lhe recomendou que não fizesse a viagem até Nova Iorque por estar ainda a recuperar de uma intervenção cirúrgica. De regresso também está Lorrie Moore com “The Gate At The Stairs” (ver caixa); Richard Russo (autor de “A Ponte dos Suspiros” e prémio Pulitzer), com “That Old Cape Magic”, romance onde conta a história de um casamento e James Ellroy com o final de uma trilogia. Entre as doenças e o Dan Brown haverá outras escolhas. Este ano vamos ter literatura a sério.

(publicado no suplemento Ípsilon de 12 de Junho de 2009)

Esta entrada foi publicada em Em viagem, Encontros literários, Feira com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/ciberescritas/2009/06/19/e-foi-assim-na-book-expo-america-2009/" title="Endereço para E foi assim na Book Expo America 2009" rel="bookmark">endereço permamente.

Deixar um comentário