O mal é um tema inesgotável

(fotografia de Fernado Veludo/Infactos)

Ricardo Menéndez Salmón ainda não tem 40 anos e já é uma referência da nova literatura espanhola. Os seus últimos três livros são sobre o mal. “A Ofensa” foi editado pela Porto Editora.

Isabel Coutinho

Quando o escritor espanhol Ricardo Menéndez Salmón foi a Auschwitz fez uma visita guiada com um polaco, um homem cujos avós tinham morrido ali. Durante a visita ao campo de concentração, o guia não emitiu nenhum juízo moral. “Mostrava-nos as coisas simplesmente”, conta agora Ricardo Menéndez Salmón, o autor do romance “A Ofensa” (Porto Editora) que participou no LEV- Encontro de Literatura em Viagem, em Matosinhos.

“O único juízo moral que se permitiu fazer foi quando nos mostrou umas fotos aéreas, tiradas pelos aliados. E disse: ‘Estas fotos foram feitas nos anos 42 e 43.’ Nelas via-se perfeitamente o funcionamento dos fornos crematórios. Como se nos estivesse a dizer: ‘Sabiam perfeitamente o que estava a acontecer aqui e ninguém moveu um dedo’.”

Em “A Ofensa” – considerado por alguns media espanhóis como “o melhor romance publicado em Espanha em 2007” -, Kurt Cruwell é um jovem alfaiate alemão destacado para a II Guerra Mundial. Antes de partir, o pai diz-lhe estas palavras: “Procura manter-te sempre na retaguarda. O heroísmo foi inventado para os que carecem de futuro.”

No livro, Kurt Cruwell acaba por não suportar a realidade da guerra. A determinada altura, aquilo que vê e que faz entra em conflito com a sua sensibilidade e a personagem rompe as amarras com a realidade. Para Ricardo Menéndez Salmón, Kurt pode ser visto como “uma metáfora”. Desde que Hitler chegou ao poder e o início da II Guerra Mundial passaram-se seis anos. “Nesses anos, Hitler foi dando provas do que era realmente e na Europa ninguém moveu um dedo para evitar que o seu poder aumentasse. Isto é uma constante na História. Gerámos monstros, deixámo-los crescer e quando esses monstros se começam a movimentar, muitas vezes, viramos a cara para olharmos para outro lado.”

Ricardo Menéndez Salmón publicou o seu primeiro livro aos 27 anos. Nasceu em 1971, pertence à primeira geração que em Espanha escreve em liberdade. A sua grande influência são os romances do século XIX. E Dostoievski, Herman Melville, a literatura de vanguarda, Juan Carlos Onetti, Kafka, Conrad estão entre os seus autores preferidos.

Um dos avós era republicano e esteve no exílio. Costumava dizer-lhe que o mais dramático para os espanhóis no exílio não foi perder a guerra. “Claro que isso foi dramático mas, quando a II Guerra Mundial acabou, o que mais custou aos exilados espanhóis foi pensarem que as potências democráticas iam tirar Franco do poder e devolver o Governo à República. No entanto, elas não fizeram nada.”

Para este escritor espanhol o mal é um tema inesgotável, independentemente do momento histórico escolhido. “Kurt podia ser um soldado norte-americano no Iraque”, diz.

Optou por situar a sua história durante a II Guerra Mundial porque é um tema que sempre o interessou. Foi o último grande conflito em que praticamente o mundo inteiro se viu envolvido e o fenómeno do nazismo tem uma pergunta a que é impossível responder. “Licenciei-me em filosofia e todos os grandes nomes da filosofia moderna são alemães. De Kant até aqui, a Alemanha construiu as grandes formas de pensamento do mundo europeu. A música clássica é alemã, têm artistas maravilhosos… E surge então a pergunta óbvia: como é possível que o país que deu frutos intelectuais extraordinários tenha sido, ao mesmo tempo, aquele onde se incubou ‘o ovo da serpente’ (citando o filme de Bergman)? Essa pergunta continua sem resposta porque certamente é impossível responder. É a pergunta da modernidade. E é nela que a minha literatura se move.”

Quase um filme de Lynch

Quando Ricardo Menéndez Salmón começa um livro acontece-lhe como aos poetas: a sua primeira impressão é sempre uma imagem e é essa primeira imagem que se torna central. No início da escrita do romance “A Ofensa”, Ricardo Menéndez Salmón via um homem que “sofria muito” em frente a um incêndio. “Naquele momento eu não sabia nem quem era aquele homem, nem o que estava a ver”, explica. ” Eu tinha um homem em conflito com o mundo por culpa de algo terrível e era necessário construir uma história para contar essa imagem.” Todo o romance é “uma tentativa de vestir essa imagem, de lhe dar um antes e um depois. É para contar uma história que explique essa imagem.”

“A Ofensa” foi um romance de “escrita lenta”, foram precisos quase três anos de trabalho para que o escritor terminasse um “livro muito pequeno”. Foi escrito sequencialmente, apesar das três partes do romance terem um estilo muito diferente. “A primeira parte começa com tom quase realista de reportagem de guerra e a última termina com um tom simbolista, surrealista, quase de filme de David Lynch. A segunda parte é mais filosófica, mais conceptual, quase um tratado do amor, um tratado do corpo. Cada parte, embora o narrador seja omnisciente, exigia um tom e uma aproximação distinta”, conta.

No trabalho de um escritor há zonas de obscuridade. Ricardo não sabe muito bem por que é que toma certas decisões. Diz que há muito de intuição na literatura. “Do ponto de vista da escrita o mais difícil foi o final de ‘A Ofensa’. Para mim era claro desde o início que Kurt devia morrer para recuperar a sua humanidade. Como se houvesse uma espécie de paradoxo em que só no momento da morte Kurt voltasse a recuperar essa unidade perdida. Como se só a morte lhe devolvesse o sentido.”

É curioso porque foi precisamente essa última parte que foi lida de maneiras muito diferentes. Há quem diga ao escritor que a última parte deste livro é “um romance de fantasmas”. Outros dizem-lhe que tem um tom de Grand Guignol, quase de “mascarada”, como se fosse um jogo de máscaras. Outros insistem nos aspectos oníricos.

A história foi levando o escritor nessa direcção e o romance foi ganhando simbolismo porque, acredita Ricardo, a personagem já se tinha convertido num símbolo. “Kurt no centro do romance converte-se numa metáfora, já não é só ele, representa muitas outras coisas”, diz, e é uma personagem cuja história nos acompanha depois de encerrado o livro.

Trilogia sobre o mal

Quando começou a escrever “A Ofensa” Ricardo Menéndez Salmón não pensava necessariamente em fazer uma trilogia sobre o mal. Mas o que aconteceu é que houve um momento em que estava a trabalhar em três livros ao mesmo tempo e deu-se conta de que os livros estavam a dialogar entre si. Não porque um livro remetesse para um outro, são histórias distintas.

O segundo romance “Derrumbe” (que vai ser traduzido pela Porto Editora) é uma espécie de “thriller” em que um grupo de jovens atacam um parque temático. Há um assassino em série, um polícia que o persegue e um grupo de jovens terroristas. O escritor espanhol quis reflectir sobre os diversos medos da sociedade contemporânea (a incomunicabilidade, a solidão e a morte). E o romance que fecha a trilogia, “El Corrector” passa-se num só dia, 11 de Março de 2004, o dia dos atentados de Madrid. Começa às 7h da manhã, hora do primeiro comboio e termina à meia-noite. “É escrito na primeira pessoa, quase uma crónica jornalística. O protagonista sou praticamente eu, tem muitos elementos autobiográficos. Permitiu-me construir um discurso sobre a manipulação política como outra das formas do mal contemporâneo.”

Enquanto escrevia, Ricardo Menéndez Salmón apercebeu-se de que havia um diálogo temático entre os três romances. O tema da maldade, da dor, do medo, do terror aparecia como um vínculo possível dos três livros. “É um tema que me interessa tanto que fui incapaz de o esgotar num único romance!”

(entrevista publicada no suplemento Ípsilon de 29 de Maio de 2009)

Esta entrada foi publicada em Entrevista, Escritor, Ípsilon com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/ciberescritas/2009/06/07/o-mal-e-um-tema-inesgotavel/" title="Endereço para O mal é um tema inesgotável" rel="bookmark">endereço permamente.

Deixar um comentário