As pantufas do escritor viajante


Ciberescritas

Isabel.Coutinho@publico.pt

“A ideia de que a Internet está cheia de informações e que nos ajuda a perceber realmente alguma coisa é uma ilusão. E também é uma ilusão pensar-se que os computadores nos fazem mais inteligentes. Não fazem. Aliás, fazem as pessoas ficarem mais estúpidas. Esta ideia de que as pessoas em África devem ter computadores… Até o meu computador avaria. Fica morto quando o ligo de manhã.” Olho estupefacta para o escritor que tenho à minha frente. Ele continua. “A maior parte das coisas na Internet parecem-me um jogo de vídeo. Parecem-me absolutas mentiras, material sensacionalista, ou coisas pessoais como blogues, diários. Não tenho nenhuma fé naquilo. Nenhuma!”
Começo a fazer contas de cabeça: o escritor que está à minha frente nasceu em Abril de 1941, tem 68 anos, nem faz duas décadas que trabalha com computador. E logo a seguir lembro-me que também já disse que “os escritores não são umas pessoas muito equilibradas. Se fossem felizes não precisavam de escrever.” Este escritor é um viajante. Nasceu numa grande família e quando se nasce numa grande família o que se quer é sair dali. Quer-se ter “o nosso quarto, o nosso espaço” no mundo. Fugir a toda uma série de negociações constantes. Desde cedo quis deixar a sua casa, a sua cidade, a sua família. Porque a vida estava lá fora, em qualquer outro sítio do mundo.
Quando tinha 10 anos o escritor tinha uma tenda e a sua grande ambição era ir dormir no bosque. Quando não conseguia deixar a sua casa e a sua família, aquele jovem lia. Era outra forma de deixar a sua casa. A leitura também o ajudava a informar-se sobre o mundo. Tinha esta fantasia de sair de casa mas quando pensava em viajar nunca pensava em ir a um museu, ir ver quadros de Rubens…imaginava aventuras, que podia ficar em perigo e morrer. “Isso era a verdadeira viagem”.
O escritor diz agora que nunca quis escrever um livro de viagens. Mas houve um dia em que não tinha nenhuma ideia para um romance. Avisou a mulher que ia viajar por seis meses. Ela perguntou: “Porquê?”. “Tenho que ir à procura de uma história”, respondeu (ela ficou furiosa, e hoje é a sua ex-mulher). O escritor apanhou um comboio com destino a Tóquio. Nunca mais parou de viajar.
Retornou várias vezes aos mesmos locais. Percebeu que ao longo dos anos as grandes mudanças não aconteciam nos países. Percebeu que as grandes mudanças aconteciam nele próprio. “Quando somos velhos, tornamo-nos invisíveis. Ninguém nos vê, ninguém nos vem vender nada. Tornamo-nos espectros. O ideal para viajar.”
Quando se viaja descobrimos muito sobre o mundo, mas é “maravilhoso estar em casa”, diz o escritor. Começo a imaginá-lo de pantufas e a tratar das suas abelhas que entretanto ficaram doentes e já não fazem mel. O escritor vive no Havai e é feliz. Gosta de estar em casa. Gosta de dormir na sua cama (acha divertido). Gosta de cozinhar (quando viaja não pode cozinhar e dorme sempre em sítios diferentes). “Gosto do sítio onde vivo. Quando era mais novo, não tinha uma casa minha, não tinha apego a nada. O mundo abria-se para mim.”
O seu próximo romance – “A Dead Hand -a crime in Calcutta” – vai ser publicado nos EUA em Outubro. Quando escritor esteve em Calcutá viu por lá algumas coisas estranhas. É um livro sobre um crime. Perguntei qual era o tema. “Como é que soube isso?”, pergunta o escritor. “Vi na Internet, no site dedicado a si e à sua obra”, respondi.
O escritor chama-se Paul Theroux. Esteve a participar no encontro LEV- Literatura em Viagem, organizado por Francisco Guedes na Biblioteca Florbela Espanca em Matosinhos.

Paul Theroux

http://www.paultheroux.com/

(Crónica publicada no Ípsilon de 24 de Abril de 2009)

5 comentários a As pantufas do escritor viajante

  1. O Lobo Antunes disse não sei onde algo como ‘esperar que os escritores digam coisas inteligentes é como esperar que um acrobata ande aos saltos quando vai pela rua’. De qualquer forma, não acho propriamente escandaloso o que diz este senhor. Tem a graça de algum preconceito, a que ele tem direito e que é relativamente inofensivo. E não deixarei de lê-lo por causa disso.

  2. Parabéns Isabel, confesso que acabo por reencontrar-te vezes sem conta nas minhas leituras, pela gosto que tenho em ler as tuas palavras, desde o tempo em que te conheci nas páginas do Digital do público, que infelizmente alguem teve a infeliz ideia de o deitar fora e eu de comprar o Publico.

  3. Ser escritor, mesmo ser um bom escritor, não significa que não se digam disparates, ou não se tenha opiniões estúpidas. Nunca ninguém disse (pelo menos não me lembro de ter lido) que os computadores nos fazem mais inteligentes. É o mesmo que dizer que as câmaras digitais nos tornam melhores fotógrafos. Quanto à internet parecer um jogo de vídeo, um monte de mentiras e de sensacionalismo, faz-me lembrar o que se dizia há anos atrás sober a televisão: que era uma má influencia nas pessoas, sobretudo nas crianças. Mas o que mais me impressionou foi ele dizer que se escreve porque se é infeliz. Fala por ele, certamente. Não, nunca li Paul Theroux. Nem irei ler, com certeza.

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