Jantar de A Seita

Estive três dias sem dormir. A sério, nem os chazinhos de camomila do Lidl me salvaram. Na quinta-feira acordei e só queria dormir. Era o dia. O dia do jantar de A Seita. E eu queria ir e não queria ir. Ele ia estar lá, era um convidado especial. Muito especial. Mas quem seria? Só de pensar nisso já estava outra vez nervosa. Só me restava dormir. Mas não dormi.

Aproximou-se a hora e lá fui. Cheguei ao Rossio, dei três voltas à Praça, encostei-me a uma esquina, o polícia apareceu disse-me para circular, circulei, fui até à outra esquina e espreitei. Ao fundo da rua vi o Paulo e o Nuno, logo a seguir a Sara, a Margarida e o José Mário. Mudei de esquina. Esperei. Entraram no restaurante, A Licorista. Deixei-os ir. Apareceu o Francisco.

O polícia voltou a aparecer, vamos lá a circular. Tive que ir. Lá fui. Quando voltei entrei na Rua dos Sapateiros, espreitei para o restaurante e lá estavam eles, A Seita em peso, todos sentados à mesa. Paulo acenou: entrei. Senta-te, aqui. Ou ali, está bem fico aqui. Sentei-me. O único lugar livre era ao lado do convidado. O tal especial.

Estava a pedir bacalhau com grão. Achei um bocado esquisito. Mas não disse nada. Comecei a falar com o rapaz que estava sentado do outro lado só para não falar com ele. Era o Pedro. Depois falei com a Helena, pisquei o olho ao Rui, ri-me para o Sérgio e discuti com o Vitor. Tudo para escapar ao convidado especial que por acaso era vagamente parecido com o rapaz que vi no metro, o rapaz que vi no café. O Rogério Casanova, em carne e osso. E não estava a ler nenhum livro. Rogério Casanova preparava-se para comer bacalhau com grão com a mesma displicência com que fala de Pynchon e de outras coisas.

Passei o jantar todo a dizer a mim própria – para não me distrair – coisas do género: em momento algum esquecer que o gajo não sabe andar de bicicleta, que roubou uma esferográfica ao Martin Amis e que tem uma mãe omnipresente.

E depois aconteceu aquilo. Mas agora não vos posso contar. Tenho que ir ali dormir. É que há três dias que não durmo por causa dele. “Pastoral Portuguesa” (ed. Quetzal) será o meu travesseiro.

P.S.- Rogério Casanova foi apanhado nesta fotografia.